Profissão: Repórter

Há um momento decisivo no filme Profissão: Repórter (o filme fantasma de Antonioni, três décadas fora de circulação - esta semana em exibição no Teatro do Campo Alegre): é aquele em que a personagem de Maria Schneider se dirige ao homem com quem decidiu escapar, sem saber muito bem de quê, e lhe pergunta precisamente isso - "de que é que tu foges?". O homem, ao volante de um descapotável algures no Sul ibérico, pede-lhe para se virar de costas no banco de trás, e nesse belíssimo plano de uma mulher suspensa a olhar para a estrada que fica para trás, com os cabelos a esvoaçar e os braços abertos, percebemos que é do passado que se fala, esse que o homem já tentara literalmente destruir, fazendo-se passar por morto e assumindo uma nova identidade, esse mesmo passado que nos torna prisioneiros dos papeis (de marido, de pai, de uma profissão, etc) e que arrastamos como um navio arrasta a sua âncora. A Jack Nicholson ficou a tarefa de encarnar o paradoxo da fuga e da incapacidade de fugir, e fá-lo lindamente.
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Não quero ser mal entendido. Eu não acredito numa essência feminina. Mas gostei muito do novo Almodóvar. Se eu fizesse um filme também gostaria de mostrar um retrato desse universo, o das mulheres enquanto hipótese de comunidade de indivíduos que se encontram e tecem relações nas trevas da dominação masculina, recriando-se e fortalecendo-se muito para além dessa fronteira. Gostava especialmente de mostrar mulheres como aquelas, que carregam às costas de forma tão inseparável o duplo peso da tradição e da emancipação, do lar e do trabalho, a imagem perfeita da modernidade em plena mutação e apanhada nas sua terríveis contradições. Almodóvar sabe que o próprio credo maternal é uma invenção do Homem. Veja-se como tantas das suas personagens adoptam ou são adoptadas por outras, sem qualquer critério genealógico. Essas parecem ser as provas de uma crença mais profunda numa humanidade que não desapareceu, apenas se encontra sufocada pela violência da civilização e dos seus tecidos ideológicos, sendo necessários momentos de ruptura (como os que atravessam as várias narrativas do filme) para ela poder emergir e tornar-se visível. Não é por acaso que a personagem da Carmen Maura é fantasmagórica; ela é realmente o espectro de um tempo que já não existe, em que as fronteiras entre homens e mulheres eram tão simbólicas como físicas (como aquela cortina que os separa na magnífica cena do velório), em que o quotidiano se fazia tanto de cheiros e saudações ruidosas (pequenos momentos altos do filme) como de prepotências e crimes impunes. A não perder por nada deste mundo.
Wild at heart

Recordo as imagens e volto a sentir o estômago a pressionar a respiração. Teria catorze anos, já estava habituado a sentar-me sozinho no cinema. Foi no Batalha, por isso sobrava espaço à minha volta e na minha cabeça. Sailor e Lula cantavam e dançavam canções de Elvis e dos Motorhead, na sua sui generis versão de um Verão de amor. Eram perseguidos pela Bruxa má do Oeste (a mãe, na imagem). Os rostos eram os de Laura Dern, Nicholas Cage (difícil de acreditar que é o mesmo, sobrinho de Coppola), Diane Ladd (mãe de Laura, mulher de Bruce Dern, prima de Tennessee Williams), Isabella Rosselini (filha de Ingrid e Roberto, mulher do realizador, à época), ou William Dafoe (homem do teatro). Um clã de nobres genealogias, portanto, reunido sob a estranha batuta de David Lynch, que representa sozinho uma visão de cinema ainda sem descendência e que remete tanto para Buñuel como para George Méliès.
Ecrã negro. Grande plano: um fósforo acendeu em toda a tela, como que a avisar que quem entrasse na história tinha que se preparar para arder com ela. O coração era um selvagem reticente que procurava abrigos onde pudesse combater a sua própria combustão.
A semântica do casal

"Cenas da vida conjugal". O filme que todos os pais deveriam mostrar aos filhos (ou deverei dizer antes as mães às filhas) antes de estes se porem com ideias matrimoniais. Nos idos de setenta e tal do século XX, dois actores no seu apogeu - a extraordinária Liv Ullman e o excelente Erland Josephson - dirigidos pelo seu mestre habitual, Ingmar Bergman, dissecavam até à medula a dolorosa experiência da vida em comum. Composto por vários capítulos - Inocência e pânico; A arte de fazer como a avestruz; Paula; O Vale de lágrimas; Os analfabetos; e No meio da noite numa casa às escuras algures no mundo - retrata o processo de dissolução de um casal após dez anos de casamento, através de diálogos estarrecedores e envolventes grandes planos, que procuram fazer o espectador mergulhar naquela intimidade emocional. Parece impossível voltar a assistir à mesma capacidade de enfrentar a crueza das verdades escondidas pelo quotidiano da vida a dois, seguramente não com esta intensidade e respiração, que atribui um significado a todos os silêncios e inflexões de voz. Não é extraordinário realizar quantos significados podem ter pequenas expressõs diárias como "então que fizeste durante o dia?".
Trinta anos depois reencontramos Marianne e Johan, o casal de protagonistas, em "Saraband", mas os propósitos são outros. Da ilha de Farö, na Suécia, para o resto do planeta.
Balada da lula e da baleia

De regresso a uma sala de cinema, passados uns bons dois meses, pelas nossas contas. As alternativas em cartaz não encorajavam a saída e o calor convidava a outras andanças. Felizmente a temperatura esteve do nosso lado, e lá fomos ver A Lula e Baleia, por sugestão do marido. É um filme simpático, sai-se da sala com essa impressão. Não mexe com o estômago, mas é inteligente, bem escrito e com um punhado de boas interpretações (sempre gostei do ar de looser do Jeff Daniels, aqui com um papel à altura, uns vinte anos depois de "Selvagem e Perigosa", de um na altura mais promissor Jonnathan Demme). Há algumas piscadelas de olho cinematográficas e outras prendas para nostálgicos dos anos 80, altura em que se desenrola a acção. Há pontos em comum com outro filme onde Noah Baumbach esteve envolvido como escritor, mas também com outros trabalhos da fornada dos filhos dos baby boomers (Sofia Coppola, Spike Jonze ou Wes Anderson à cabeça): a desagregação da família nuclear, as dores do crescimento, os complexos (édipo e electra, entre outros) e a procura de genealogias afectivas, mas também o recurso a uma sonoridade e imagética que nos transportam para um tempo em que julgávamos que tudo morria aos 30 anos de idade. "On n'est pas serieux quand on a 17 ans"?

