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"In a manner of speaking" - Tuxedomoon

Comes, bebes, ouves e vês


Os bons serões fazem-se com alguma iniciativa. Conhecer a cidade é um acto básico de curiosidade e de fuga à melancolia. Um jantarito bem regado na marginal sul do Douro pode bem ser seguido de uma excursão ao Hot Five, um bar de jazz ao vivo na zona dos Guindais, já do lado esquerdo da Ponte D.Luís, no Porto. Aí podemos relembrar como esta música é uma expressão pulsional e envolvente, e de como podemos regressar-lhe como a uma bebida regeneradora. Para regalar a vista, também temos à porta uma exposição do Georges Dussaud, cujas fotos fazem tão parte de uma minha etapa que me sinto incapaz de as qualificar esteticamente.

Noruega feeling #2


É nas viagens que melhor reconhecemos que quem somos é feito em grande medida pelo lugar onde estamos, e pela posição particular que ocupamos nesse espaço. Não sou o mesmo agora do que quando perdido na imensidão de um fiorde, rodeado pelas suas montanhas de cumes nevosos, e arborizadas até à base, onde a água salobre e verde esconde a profundidade de um glaciar extinto. Agora sou um habitante de uma cidade costeira, banhada por um Atlântico ondulante e irregular, onde o pulsar urbano é como um feixe de luzes e sons apenas decifráveis com as experiências de uma pequena vida.

Orquídeas on the road

As orquídeas partem, mais uma vez, em merecidas férias. Devemos regressar logo a seguir ao solestício de Verão, cá no burgo assinalado com as festividades sanjoaninas! Divirtam-se e até breve!

Voo

A noite passada sonhei que a vizinha do lado se tinha suicidado, simplesmente projectando-se da janela para o abismo vertical. Havia, claro, algo de angustiante nessa imagem, uma espécie de sufoco da alma que me fez acordar. Mas não consigo deixar de me sentir atraído por aquele exacto momento em que o corpo se erguia e se libertava do seu peso específico e do mundo, que ficou para trás, pousado no parapeito. É o momento em que a ilusão da liberdade ecoa com mais força, como um grande clarão subliminar e intermitente na minha cabeça.

Eu e a piscina


- Era uma entrada para os banhos livres, se faz favor.
Quase nem preciso de dizer, quando chego ao balcão já estão a olhar para mim de esguelha e começam logo a aviar o bilhete, e até imagino o que pensam ("lá vem o chato que reclama sempre de alguma coisa, ou é a música que está sempre a tocar e alto mesmo quando não há aulas, ou são as casas de banho que não têm condições, ou são as ligações eléctricas perigosas à beira dos duches...").
Desta vez contudo, a mulher olha pensativa para o ar, e retira-se por um segundo. A música ambiente, bem para lá do volume necessário (que devia ser nenhum), era uma daquelas canções dor de corno com sotaque brasileiro. De repente, um silêncio. E então, out of nowhere... a voz de Gloria Gaynor: "First I was afraid, I was petrified (...) I will survive!"
Fique a pensar no assunto. Seria propositado? Um sub-texto qualquer que me revelava uma densidade inesperada na mente da senhora do guichet? Peguei na chave e fui procurar o meu cacifo. E não, lá dentro não estava uma equipa de pólo aquático com olhar insinuante de quem tinha saído do último musical da Esther Williams e prestes a entrar no chuveiro. Apenas um senhor de tenra idade, com o semblante de quem se conformou aos diagnósticos médicos, a lutar contra duas peúgas mais resilientes.

Fait divers pascoais

No fim-de-semana pascal, duas estreias para as orquídeas: o primeiro dia de praia (praia, mesmo, com as peles ao léu), num rápido mas regenerador périplo pela costa galega e, no regresso, a primeira vez que mudámos um pneu após um furo em plena auto-estrada (não consigo esconder algum orgulho por poder desmistificar assim um dos estereótipos 'maricas' com os quais eu me julgava mais identificado: a inaptidão para o trabalho manual).
A propósito de estereótipos, parece que as forças de (in)segurança pública da invicta andaram para aí a tentar espalhar a ideia de que a hospitalidade tripeira é só para alguns, de preferência muito machos e adeptos de futebol.
Posto isto, acho que vou fazer como as mulheres no último mês de gravidez: ter preparada uma malita com os recursos necessários para poder abalar a qualquer momento para o país de nuestros hermanos.

As minhas cidades - Bologna

Em Bolonha havia uma janela da cantina universitária de onde se podia observar uma praça forrada a grafitis e palimpsestos de posters, na qual se mobilizava pelo menos uma concentração diária contra ou a favor de qualquer coisa (geralmente contra). A cidade era um concentrado de arcadas que se percorriam facilmente de lés-a-lés numa bicicleta emprestada. Dois outros sítios funcionavam contudo como pólos de atracção das minhas deambulações: o jardim Margherita, com os seus relvados que convidavam à leitura e à divagação filosófica (tinha 22 anos, apesar de tudo) e a inevitável Piazza Maggiore com o também inevitável e peculiar Duomo (o revestimento superior da catedral nunca chegou a ser concluído, dando-lhe assim um aspecto imponente mas frágil). Ao fundo, a pequena Piazza Neptuno, com a sua famosa representação da divindade marítima, lutando contra serpentes gigantes. Se as cidades têm uma cor, a de Bolonha é decididamente o vermelho das cortinas, do tijolo burro, das bandeiras e do entardecer toscano das colinas ali ao lado. Algumas torres decepadas lembravam às novas gerações o preço da ambição (no tempo dos doges, as torres simbolizavam o estatuto das famílias rivais).



Hoje, a cidade é mais um exemplo da vaidade num país que não existe, com a sua vida fora de portas nas praças, nos mercados de rua e nas cooperativas, com os seus habitantes de porte altivo e vestes impecáveis e as suas várias tradições históricas (a mais recente talvez a da esquerda racical, após os ataques das brigate rosse). Como estrangeiro, Bolonha foi também a minha primeira cidade interior, e tenho regressado com frequência aos seus cenários.

Partida, largada...fugida!

E pronto, a corrida fez-se. Não custou muito e foi divertido. A minha proverbial distracção fez-me partir largos minutos depois do tiro de largada, mas daí até apanhar o poletão e ir conquistando lugares foi um instante, num irreprimível impulso competitivo (desconhecido para mim) que me fez chegar à meta quase de rastos (ou seria o peso da companhia? - ver post anterior). Pensando bem, se participar noutras corridas vou optar por essa estratégia, sempre é melhor do que começar à frente e ir ficando para trás... O ambiente era de feira popular (até pelo homem com o megafone a debitar bitaites incompreensíveis no palanque), uma mole humana bem disposta, com crianças, idosos, cães e outras espécies sob um Sol esplendoroso. E ainda sobrou bastante tempo para acompanhar o resto da 'caminhada' da criançada, já quase em delírio de alegria. Quando é a próxima, mesmo?

Azáfama(s)

Em semanas agitadas (que se traduzem por estas bandas numa sub-postagem vergonhosa) fica sempre no ar uma acumulação de dizeres e uma dificuldade progressiva para usar da palavra escrita, sobretudo quando o registo tem sido eminentemente oral. Então cá ficam, para mais tarde recordar, os highlights da quinzena: o desafio brutal de representar uma perspectiva gay sobre o casamento e as uniões de facto num colóquio na Universidade do Minho, onde os ingredientes Braga, Igreja e Direito se combinaram num ambiente explicitamente hostil que eu julgava já não existir no meio académico; a visita bem sucedida a duas escolas secundárias para discutir a descriminação com base na orientação sexual e na identidade de género, num projecto que me enche as medidas e que concretiza uma ideia que já vem desde quando eu próprio atravessava esse deserto violento que pode ser a adolescência (é bom saber que há sonhos concretizáveis); pelo meio, uma apresentação do ponto de situação do trabalho de mestrado, perante uma audiência reduzida mas curiosa e de um questionar essencial; o início do novas turmas de candidatos à certificação via RVC , e a necessidade de trabalhar de novo as ideias de comunicação, motivação, exclusão e (talvez sobretudo) de comunidade; finalmente, ainda uma sessão de apresentação das ofertas de educação e formação de adultos, perante benificiários do RSI (Rendimento Social de Inserção), no papel ingrato e incómodo de quem representa a exigência de contrapartidas do Estado em relação áquilo que é na verdade a sua obrigação: a garantia de condições mínimas de sobrevivência social e económica a todos os seus cidadãos (obrigação frequentemente obliterada dos discursos que questionam a aplicação de medidas deste tipo, com base na pretensa má-vontade, preguiça ou incapacidade dos subsidiados).

Só Moretti me entende

" O dever! O dever de fazer este documentário... não me apetece nada, mas devo fazê-lo... mas não me apetece. Que bom seria se finalmente conseguisse realizar aquele filme musical passado nos anos 50: à esquerda, todos por Estaline, mas... há um pasteleiro, um pasteleiro trotsquista, isolado, difamado, que solitário no seu laboratório, entre as suas massas e os seus pasteis, é feliz... e esquece... e dança.
(...) Hoje vou conseguir boas filmagens, importantes, sim. Apesar de ter um bocado vergonha, se ao menos conseguisse encontrar um modo de filmar sem que ninguém me visse... De qualquer das formas hoje estou em forma, sinto-o. E depois é importante fazer este documentário, e é uma coisa que eu gosto... apesar daquele filme sobre aquele pasteleiro... bem, isso seria outra história!"

Dormindo com Pierre Bourdieu


Pensar para mim começa a ser um exercício complexo. Na dinâmica de começar a ler, interromper para ir dormir, acordar e ir trabalhar, voltar a ler e tirar notas, interromper e ir a uma reunião, voltar às notas e escrever duas frases, interromper e voltar ao trabalho, dormir, comer, estar com a família, amigos, paixão, acordar e trabalhar... sinto-me um daqueles candidatos que alguém inscreveu num concurso televisivo com desafios impossíveis.

Arroz doce


Sou tomado ocasionalmente pelo impulso de fazer arroz doce. Tento fazê-lo à moda do sul, perseguindo o sabor inigualável das iguarias da tia de Carcavelos. No norte às vezes juntam-lhe baunilha e deixam de lado a manteiga, o que é uma forma de esconder que no fundo preferem a aletria ou o leite creme. A canela é um sabor que viaja com a infância, juntamente com os crayons da Viarco, as sebentas do pinóquio e os aromas da Ach. Brito.

O som e o mar

Explicou-me um marinheiro alentejano (reformado, não fiquem com ideias), que através do som que o mar faz quando bate na costa podemos perceber em que sítio estamos. Na praia da São Julião, há uma esplanada onde podemos ver de cima a enseada formada pela entrada da água no areal. Foi lá que nos refugiamos para escapar ao caos deprimente da aproximação à Ericeira. Aqui o oceano espraia-se numa longa plataforma de espuma branca, atravessada por sulcos mais claros e espessos que se desfazem em linhas paralelas sobre a areia. O ruído é contínuo, sem a cadência marcada da ondulação, com a excepção de uma ou outra onda mais arrojada que se desfaz ainda longe da costa. Fosse uma praia de seixos e o barulho seria como o de uma fritada de ovos. Uns dias depois arriscamos um regresso nocturno à Ericeira e percebemos que ainda resta um núcleo preservado de ruas. E acima de tudo reencontramos o mar, que aqui forma grandes vagas que açoitam as rochas e que atraem os surfistas, num som que atemoriza. Junto à plataforma das furnas formadas pelo laborioso trabalho da água sobre a pedra, ali mesmo ao lado do imponente hotel, conseguem-se ver as ondas por trás, ainda antes de rebentarem na praia. À noite, a penumbra baralha a percepção da distância, e o rumor e aquelas sombras enormes que se deslocam no horizonte fazem disparar o coração.

O mapa que me anda a tentar...


É no próximo sábado. Anyone?

Consoadices


É difícil processar as informações que nestes últimos dias se foram degladiando com a orgia pantagruélica de comida cujas sobras ainda alimentariam um regimento. As sobras, por sua vez, resultam da periclitante auto-disciplina imposta pelo efeito de culpabilidade incutido pelos discursos da saúde e da estética, nesta altura tão ruidosos como os que apelam ao consumo desenfreado. Feitas as contas, não se passou mal. Major Tom e seus papás, sem marido, irmã ou sobrinhas, retomaram o fio da conversa que se foi esbatendo em deterimento da polifonia colectiva dos jantares semanais. A noite terminou a socorrer o cunhado que, talvez por achar que no Natal os automóveis circulam a água benta, deixou o depósito ficar sem gasolina e se arriscava a passar a noite numa saída da auto-estrada
Passou o dia, já está tudo de estômago recheado e consciência tranquilizada. Já podemos voltar à vida real?

Pouca terra pouca terra

Só recentemente me tenho vindo a aperceber da dimensão do problema da baixa taxa de conclusão das pós-graduações. Eu próprio faço parte do problema, sinto-o na pele, e como tal estou mais sensível à esta realidade. Seguramente não faltarão motivos para explicar o fenómeno, penso que se trata de uma questão complexa e difícil de equacionar de ânimo leve. Os meus motivos não são seguramente universais, e vou ficando com a sensação que entre os alunos, os professores e as instituições se vai driblando uma culpa que ninguém quer assumir e que apenas vai servindo para protelar os prazos até estes deixarem de fazer sentido (frequentemente depois de as próprias investigações se terem dissolvido na inércia).
Por isso foi com prazer (e correspondente ansiedade - nessa sim, já somos todos pós-graduados) que recebi a notícia de uma convocatória do meu mestrado. Hoje ainda exalo o momentâneo estado de graça do encontro, onde recebi um doseamento perfeitamente equilibrado de repreensão e encorajamento. Sinto que estou dentro de um comboio parado, à entrada de um túnel longo e obscuro; já temos os provimentos e o combustível, a maquinaria está carburada, e até parece que se entrevê aquela luzinha lá ao fundo. Só falta o aviso de partida.

Bolo de sábado


Em equipa (ou é cavalo?) que ganha não se mexe: pela terceira vez na mesma semana preparo um bolo de licor para um jantar com amigos. Aproveito o conteúdo de uma garrafa em que ninguém parecia interessado e sempre é uma tarefa simpática para um sábado gélido. Havia uma daquelas luzes que aquecem a alma na corrida matinal entre a Ribeira e o Castelo do Queijo, onde depositei a semana inteira. Com a gata ao colo a apreciar Devendra Banhardt (It's simple, we don't wanna kill...), controlo o relógio. O bolo já deve estar.

O grande tanque

Só o profundo azul da piscina me reconcilia comigo e me dá tréguas na batalha que travo com as minhas inseguranças no trabalho, nos estudos ou nos olhos nos olhos. Gosto de ser o único no grande tanque que mergulha e experimenta a breve e solitária quimera da outra dimensão.

Miss B. at the beach


queremos capitanear, mas restam-nos escombros
uma voz já bastou, mas somos indizíveis
perdemos o olhar num vidro ensolarado
e brincamos para desougar o pensamento
para terminar
quebremos de novo o ritmo do compasso





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