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Ir dizendo


Da indizibilidade do ser até à vontade de dizer algo vai às vezes uma pequena mas eloquente distância. Nestes dias de interregno, aconteceu-me a fase final da malfadada formação para renovação do CAP (essas extraordinárias inutilidades burocráticas que obrigam meia dúzia de tipos a aturarem-se uns aos outros durante 60 horas e no final irem jantar juntos para simular uma cumplicidade inexistente).
Também aconteceram duas belíssimas sessões do Cinanima, esse injustamente olvidado festival de cinema de animação que acontece anualmente na cidade de Espinho, onde se percebe que o cinema precisa urgentemente de novas linguagens, com a furiosa inteligência criativa destas pequenas obras-primas.
Começou a circular um abaixo-assinado para a criação de um movimento pelo sim no referendo sobre o aborto, onde surpreendido encontrei o nome da Agustina Bessa Luís como signatária. Faço correr o dito e abro discussões onde pousa a folha.
O Ministério da Educação decide tornar público e oficial o alargamento do processo de reconhecimento e validação de competências ao secundário. Apreensivo, estudo os documentos e interrogo-me sobre a capacidade dos próprios certificadores mediante os critérios apresentados.
A terminar a semana, uma visita por convite a um dos novos espaços de 'realidade paralela' urbana do século XXI: os grandes ginásios urbanos. Entrei, experimentei uma ou duas dessas modalidades com nomes ingleses, pacotes de exercícios repetidos resultantes do mix de várias modalidades já existentes, patenteados e franchisados às novas catedrais onde se presta culto a corpos já suficientemente tonificados. O espaço é agressivamente concentracionário; todos os movimentos são controlados por cartões, fechaduras, códigos, inscrições em modalidades; somos conduzidos por setas, instruções, circuitos e uma música enjoativa e omnipresente. Nas sessões grupais, um tom de uníssino que me põe desconfortável.
Respiro fundo. Porque hoje é sábado.

Matinália


A manhã começou tarde, luminosa e lânguida. A cama estava vazia e já se sentia actividade na casa: um teclar descompassado no computador e uma bola a sofrer torturas de gata. Depois do beijo, preparei com paciência e vagar o pequeno almoço e instalei-me com os suplementos do jornal do dia anterior (eia, o Mil Folhas agora sai à sexta!). Bebi dois cafés e troquei olhares com a janela. Decidimos sair. Como já tem acontecido, escolhemos o destino à porta da garagem. Seguimos em direcção ao mar, com livros no tablier. O Sol estava filtrado por um nevoeiro glauco e misterioso, que emprestou à praia uma atmosfera selvagem e sebastiânica. Não se via quase vivalma. Deixei a água revigorar os tornozelos e conversamos sobre as próximas viagens, tema inesgotável mesmo quando não há férias nem dinheiro. Foi o estômago que nos obrigou a regressar. Desta vez cozinhei eu e ele tratou da louça. A gata derrotou um grande insecto.
A tarde ainda não aconteceu.

Energia de activação, pró bem da nação

Sempre me pareceu coerente perspectivar a acção humana como o resultado da capacidade do sujeito agir, condicionado por estruturas que balizam e condicionam essa acção. Os cientistas sociais não são consensuais nesta matéria. Para uns as estruturas são determinantes, para outros, pelo contrário, tudo é construído pela interacção dos sujeitos. Na sua permanente procura de sínteses, Giddens concebeu uma dualidade da estrutura, em que esta de certa forma constrói a acção do sujeito, mas por seu turno é transformada pelo próprio sujeito dotado de agência (nem tudo é negrume no reino da Sociologia). Mas que pensar de situações em que todas as condições parecem estar reunidas para que algo aconteça, mas não acontece? O sujeito é cego? Ou carece daquela energia de activação de que me falava um amigo, explicando-me o porquê de não praticar desporto? É o mesmo que explica que um mestrado não ate nem desate ou que um país não ponha em prática a liberdade que conquistou?

Coisas que já soube fazer

- tocar uma partitura de Bach no piano
- peças em macramé
- a esparregata
- partir um ovo sem misturar clara com gema
- jogar andebol
- usar o SPSS
- tolerar a intolerância
...

A alma das coisas


Tenho uma tendência zen em relação aos objectos. Talvez nunca tenha verdadeiramente ultrapassado uma fobia adolescente contra o materialismo, fruto conjunto de um marxismo mal digerido e de leituras como o "Sidharta". Custa-me sempre infinitamente mais adicionar mais objectos ao meu pequeno património do que desfazer-me deles. É como se cada coisa que nos pertence fosse mais um pequeno acréscimo de responsabilidade, mais um peso na âncora que nos dificulta a navegação na questionável metáfora aquática da vida. No final, são poucos os objectos que transportam uma hipótese de história. Como estas sapatilhas: passearam, correram, pintaram paredes e levaram-me do trabalho para os braços do namorado. Lixo com elas.

Duriense


Um lacrau é um escorpião mais pequeno mas igualmente parecido com o bicho incubador dos Aliens; vive debaixo do solo e lembra-se de aparecer em bando ao anoitecer, quando fica mais fresco. Quando caminhamos no calor podemos colocar as mãos à cintura e ficar com os braços em arco: o ar circula nessa zona e ajuda a baixar a temperatura do corpo. Da mesma forma, no calor intenso é de evitar encher o estômago de água, porque ela acaba por aquecer também aí, provocando sensações de enjoo. Há vários tipos de gafanhotos: os castanhos vivem nas coisas castanhas, como a terra ou a madeira, e os verdes nas coisas verdes, como as folhas ou a erva.
Estas são apenas algumas das coisas que se aprendem numa aventura pelo Douro vinhateiro, descendo o rio de Kayak e caminhando entre as dádivas da mãe Natureza: figos, amoras, uvas premiadas, água fresca, e uma paisagem que pertence aos sonhos dos homens, quando eles respeitavam e temiam a magia que se esconde na terra.
PS: a Micas agradece com um grande miau os mimos e comida que os avós lhe trouxeram durante a nossa ausência.
Foto in Guia de Montanha

Não há ficção como a realidade

Um homem que diz odiar os judeus, argumentando que são um povo... racista. Uma mulher infectada com o HIV porque o médico achou que podia dispensar o preservativo nas relações sexuais com o companheiro, diagnosticado com Hepatite B. Uma rapariga que aos 17 anos já geria estabelecimentos de diversão nocturna. Um homem deixado à sua sorte pela comunidade religiosa onde se desintoxicou...
O local onde trabalho cada vez mais parece uma canção do Lou Reed.





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