Música
Ontem foi noite de terapia pela dança. Local do crime: “Maus Hábitos” (ao Coliseu). Saltar, pular, cantar e guinchar ao som da combinação mais bizarra de músicas, desde obscuras versões com guitarra wa wa de clássicos tradicionais portugueses, passando pela versão alemã do Calimero, até aos hits dos filmes do James Bond. Isto tudo sempre recriado em coreografias únicas e irrepetíveis (graças a deus!). Que pena ter descoberto tão tarde como sabe bem ficar com a t’shirt colada ao corpo de tanto suar e os pés cheios de bolhas (dito assim não parece tão divertido, mas é o que nos resta no fim da noite). Também é bom sentir essa espécie de sintonia nos outros corpos e perceber os olhares, que traduzem diferentes graus (e tipos) de fome.
Tudo graças à música (já estou como o José Cid), essa particular invenção da razão que nos torna, por momentos, completamente irracionais.
Orquídeas

Depois de muito tempo de promessa em botão, hoje, decididamente, floriram as orquídeas que a Teresa me ofereceu há um ano atrás. Desde essa altura, em que entraram cá em casa em toda a sua pujança cromática, não se dignaram a dar um ar da sua graça senão agora, precisamente um ano depois. Quando as vejo penso nisso, no facto de ter sido ela que mas ofereceu, no facto de um ano ter passado, um ano em que eu e ela nos tornámos outras pessoas, com mais 365 dias de vida, 365 dias de dúvidas, esperanças, desesperanças e pensamentos quejandos, 365 dias de células em mutação. Penso nisso e percebo que nem nesse dia, há exactamente um ano, nem hoje, nós nos conhecemos em toda a nossa completude dentro dessa coisa a que chamamos amizade. Por um lado, porque muita coisa fica sempre por dizer, nos nossos irregulares encontros; por outro, porque o tempo nos transforma assim, permanentemente, tornando-nos inagarráveis e inabarcáveis. Como aquelas orquídeas, uma miríade de coisas nos podem acontecer assim, apenas uma vez no ano, ou na vida, e não estar lá ninguém para poder viver isso connosco.
Foi para, inútil mas destemidamente (pelo menos tentar) procurar contrariar essa grande corrente de incomunicação, que pensamos em pegar na tralha da casa - textos, fotos, desenhos e quejandos - e criar este cantinho de partilha de emoções, sensações, experiências e pensamentos, na secreta esperança de no processo também nos passarmos a conhecer... melhor.

