Campo

Regressamos periodicamente a Avintes. A ouvir os pássaros, a sentir pertinho o rio, as casas antigas, os quelhos, o cheiro a estrume e a terra batida, os arrufos da canzoada e o bailado dos gatos vadios. Para sentir de novo que houve uma altura em que todos vivíamos assim, e poucos persistiram no sonho. Eu já não tenho solução, sou irremediavelmente urbano. Mas ainda sorrio com e me deixo levar por um apelo adolescente que me atirava para o campo em projectos de futuro, numa experiência que imaginava próxima das extintas aldeias comunitárias: todos damos trigo e lenha para fazer o pão, hoje és tu que levas o gado a pastar, amanhã sou eu que cuido da estufa. Hoje em dia, o campo é uma bolha de nostalgia e não o consigo levar a sério. É como se fosse mais real o piche nas estradas do que a flor silvestre na berma do caminho.
Nucas

Um dos meus maiores fetiches é ficar a olhar para a nuca de um homem. O cabelo deve ser de preferência curto, pelo menos atrás, para se poder ver bem o movimento capilar (o brilho do cabelo, a forma como cai ou é penteado, os cortes, os conhecidos remoinhos), assim como as nuances da pele, a forma como os cabelos se separam ou não dos pêlos das costas, e os eventuais sinais que possam pontuar o cenário. Que perfeição singela e concentrada, como a evocação de uma meninice entretanto reconquistada por breves momentos (como quando pousamos a mão no cachaço de alguém em sinal de afecto amigo). Que combinação, também de promessas e fantasias, uma espécie de magia frequentemente quebrada com o simples rodar da cabeça.
Uma coisa é certa: quem vê nucas não vê corações, mas é por estas e por outras que eu chego sempre ao cinema minutos antes das luzes se apagarem.
Pancas.
Nomes de ruas

Tenho uma dificuldade absurda em decorar nomes de ruas. O problema é extensível a toda a complexa toponímia e geografia das estradas, IP’s, EN’s, IC’s, viadutos, cidades, vielas, becos, praças, pracetas, avenidas (tenho vergonha em acrescentar à lista países). Por outro lado, fico abismado com a quantidade de informação que involuntariamente registo na cabeça, que persistentemente me ocupa preciosos compartimentos dos meus arquivos mentais. Por exemplo, que contributo é que pode trazer à minha vida saber nomes de filmes, actores ou outros artistas cujo trabalho nem sequer conheço ou pretendo vir a conhecer? Exemplo: Gonzalo Rubalcaba é um pianista cubano; Ezra Pound é um nome de escritor; Brad Davis, o actor que personificou Querelle, na versão Fassbinder. Outros factos: Gasganete era o nome do gajo mau nos Estrumpfes; Mandrake era um mágico que combatia o mal em histórias de BD; Hermínia Silva era uma vedeta do teatro de revista.
Não terá muito mais utilidade saber que Costa Cabral é uma rua que fica junto ao Marquês, do lado oposto a Santa Catarina?
Trabalho
Hoje acordei puto da vida. Aquilo que eu temia e que aguardava já há meses finalmente aconteceu: a notícia do desemprego. Bem, não é propriamente uma novidade, já é velha de quatro meses; mas hoje, depois de muita resistência e acrobacia mental, a boa nova chegou cá dentro, onde o Eu trata o Eu por Tu.
Apesar do tempo livre, geralmente sinónimo de fossa para quem se vê repentinamente sem trabalho, durante este tempo tinha conseguido transformar esse vazio em liberdade. Racionalmente, pensava: ok, se tanto te queixavas de nunca ter tempo para fazer aquilo de que realmente gostas, de que estás à espera agora que te entregaram o tempo numa bandeja?
E, para ser franco, curti. Curti o tempo em si, ou o próprio controle que sobre ele finalmente podia voltar a ter, como antigamente, quando trabalhar era o pesadelo dos outros. Li, voltei a atacar o desporto, dediquei-me às mil e uma subtilezas enebriantes do dolce far niente.
E de repente atingiu-me como um raio a evidência: sem trabalho, qual o prazer em não trabalhar?
Ninguém diga que está bem...
Anjos na Televisão
Harper - Quem é você?
Prior - Quem é você?
Harper - Que está a fazer na minha alucinação?
Prior - Não estou na sua alucinação. Você é que está no meu sonho.
Harper - Você está maquilhado.
Prior - Você também.
Harper - Mas você é homem.
Prior - Arg!! As mãos e os pés denunciaram-me!
Harper - Deve haver aqui um engano. Eu não o reconheço. É... tipo o meu amigo imaginário?
Prior - Não. Já não tem idade para ter amigos imaginários, pois não?
Harper - Tenho problemas emocionais. Tomo muitos comprimidos. (...) É terrível. Os mormons não deviam ser viciados em nada. Eu sou mormon.
Prior - Eu sou homossexual.
Harper - Na nossa igreja, não acreditamos em homossexuais.
Prior - Na nossa igreja, não acreditamos em mormons.
Harper - Que igreja...
Prior - :)
Harper - :) Já percebi!
Angels in America - a nova série que estreou na passada 2ª feira, na RTP 2, e que vai-me fazer voltar a ligar a televisão, uma vez por semana.
Atrasos...
Ups... parece que cheguei atrasado... isto já começou há alguns dias mas só agora é que me dei conta. Vamos a ver se daqui para a frente corre melhor... ;)
Prometo que vou cuidar bem das orquídeas para que daqui a um ano floresçam de novo! E já agora, também das flores amarelas que tenho na varanda lá de casa. Vou esperar ansiosamente por esse momento. Entretanto vou escrevendo e partilhando o que se vai passando no meu mundo...
Olá, muito prazer e até qualquer dia!
Os Olhos da Rosa
Semanalmente, dou formação a um grupo de mulheres adultas. A acção dirige-se, segundo as linhas do programa, para “públicos desfavorecidos”, o que quer dizer, na gíria do serviço social DLD’s (desempregados de longa duração), ex-toxicodependentes (o ‘ex’ é só para dar mais força à coisa, normalmente), minorias étnicas e outros passíveis de ser encaixados no pacote “exclusão social”.
Na última sessão decidi levar um dos livrinhos que o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas publicou e distribuiu um pouco por todo o país no Dia Mundial do Livro. Este tinha-o apanhado no Metro de Lisboa, por ocasião de uma formação que fui lá frequentar. Chamava-se “O Bichinho da Escrita”, e é do Rui Zink. A história fala numa espécie de vírus que assola a cidade onde vive o narrador; o vírus toma conta das pessoas, que logo desatam a escrever sem conseguir parar. Todos ficam viciados na escrita, menos o personagem central, que de repente descobre que só consegue ler. Num mundo onde todos são escritores, um leitor dificilmente conseguia passar despercebido, pelo que ele é obrigado a refugiar-se numa espécie de submundo, onde encontra alguns semelhantes, outros leitores, que formam uma espécie de comunidade clandestina. Achei a ideia engraçada e bem contada. Fez-me lembrar uma outra ficção. O “Fahrenheit 451”, uma assustadora alegoria do fascismo: num futuro não muito distante, um poder invisível mas omnipresente, dita a proibição da leitura. Todos os livros são então queimados pelas novas brigadas de bombeiros, agora com a função de perseguir e queimar a palavra escrita. No final, conhecemos também uma comunidade de resistentes proscritos, os últimos guardiões das histórias encerradas nos livros queimados. Assim, assiste-se a uma espécie de regresso à tradição oral: cada indivíduo da comunidade tem na sua cabeça, memorizado, um determinado livro; este que passa é o “O Jogador”, do Dostoyevski, aquele lá ao fundo é “O Retrato de Dorian Gray”, do Óscar Wilde, and so on, and so on. Para quem não conhecer e estiver curioso, o livro é do Ray Bradbury, um dos mestres do género, e a belíssima adaptação ao cinema esteve a cargo do François Truffaut. Recomendo ambos vivamente.
Adiante. Decidi oferecer o tal livrinho do Rui Zink a uma formanda de olhos muito doces que, para não sair do ramalhete, vive uma vida miserável, divorciada após um matrimónio de que só guarda as mazelas físicas e psicológicas, e com dois filhos numa casa sem wc, como muitas por esta e outras cidades afora.
Hoje, na sessão seguinte, ela pergunta-me candidamente se o livro era para ela. Respondi-lhe que sim, embora a intenção inicial não fosse de facto essa. Os seus olhos brilhantes puseram-me KO, enquanto me confessava que, com livros assim, até tinha descoberto que fazia parte desse mundo, o dos leitores.
Devolveu-me, durante pelo menos mais um ano, a fé no trabalho.
Almodóvar
Acontece-me nalguns filmes. Sempre nos dele. Fico parado numa imagem, num movimento, numa frase. Quando volto a mim, a acção já avançou o suficiente para eu me perder, como se tivesse fechado os olhos numa curva ao tentar sair de um labirinto. “Pasion”. É o palavrão que enche o ecrã no final do filme “Má Educação”. E percebo num flash interior pelo imaginário Almodóvar que é esse o mote de todas as suas tramas, o verdadeiro motor da acção. Aqui também é essa a verdadeira história, assumidamente mal disfarçada de policial.
Em todos os seus filmes, como pequenas e subtis manobras de diversão (como o Hitchcock quando fazia as suas aparições), surgem na tela pequenas referências cinéfilas – cartazes, diálogos, evocações de outros filmes – como uma espécie de marca reverencial aos antepassados e como forma de integração da obra numa determinada filiação (como que a dizer: “aqui está isto, que não podia existir sem aquilo”).
Desta vez, ao chegarmos ao cinema – Nun’Álvares, último baluarte no Porto dos filmes sem pipocas (o pesadelo de qualquer cinéfilo) – reparámos que a música ambiente era familiar. Passavam canções dos seus filmes! Quem se teria lembrado de tal ideia: o gerente da sala? o distribuidor? a senhora da bilheteira? o projeccionista? Bem, o que é certo é que, naquele foyeur, com aquela banda sonora, e com os (muitos) presentes com cara de ansiedade (como se estivessem descompensados e aguardassem com impaciência a sua dose), se vivia um clima de clube, um clube almodóvar que se prestava a cumprir um ritual de adoração. E pensei que, brevemente, deste clube começarão a surgir, entre muitas outras coisas, novos realizadores, cujos filmes estarão polvilhados de reverências ao Pedro.
Genealogias.
Música
Ontem foi noite de terapia pela dança. Local do crime: “Maus Hábitos” (ao Coliseu). Saltar, pular, cantar e guinchar ao som da combinação mais bizarra de músicas, desde obscuras versões com guitarra wa wa de clássicos tradicionais portugueses, passando pela versão alemã do Calimero, até aos hits dos filmes do James Bond. Isto tudo sempre recriado em coreografias únicas e irrepetíveis (graças a deus!). Que pena ter descoberto tão tarde como sabe bem ficar com a t’shirt colada ao corpo de tanto suar e os pés cheios de bolhas (dito assim não parece tão divertido, mas é o que nos resta no fim da noite). Também é bom sentir essa espécie de sintonia nos outros corpos e perceber os olhares, que traduzem diferentes graus (e tipos) de fome.
Tudo graças à música (já estou como o José Cid), essa particular invenção da razão que nos torna, por momentos, completamente irracionais.
Orquídeas

Depois de muito tempo de promessa em botão, hoje, decididamente, floriram as orquídeas que a Teresa me ofereceu há um ano atrás. Desde essa altura, em que entraram cá em casa em toda a sua pujança cromática, não se dignaram a dar um ar da sua graça senão agora, precisamente um ano depois. Quando as vejo penso nisso, no facto de ter sido ela que mas ofereceu, no facto de um ano ter passado, um ano em que eu e ela nos tornámos outras pessoas, com mais 365 dias de vida, 365 dias de dúvidas, esperanças, desesperanças e pensamentos quejandos, 365 dias de células em mutação. Penso nisso e percebo que nem nesse dia, há exactamente um ano, nem hoje, nós nos conhecemos em toda a nossa completude dentro dessa coisa a que chamamos amizade. Por um lado, porque muita coisa fica sempre por dizer, nos nossos irregulares encontros; por outro, porque o tempo nos transforma assim, permanentemente, tornando-nos inagarráveis e inabarcáveis. Como aquelas orquídeas, uma miríade de coisas nos podem acontecer assim, apenas uma vez no ano, ou na vida, e não estar lá ninguém para poder viver isso connosco.
Foi para, inútil mas destemidamente (pelo menos tentar) procurar contrariar essa grande corrente de incomunicação, que pensamos em pegar na tralha da casa - textos, fotos, desenhos e quejandos - e criar este cantinho de partilha de emoções, sensações, experiências e pensamentos, na secreta esperança de no processo também nos passarmos a conhecer... melhor.

