O Corpo

Habituei-me, desde cedo, à actividade física. Primeiro com os meus amigos, com quem percorria desalmadamente a infância e brincava, de preferência até ficar esgotado. Seguiram-se aulas de natação no FCP e, mais tarde, a ginástica, onde aprendi a compreender o controle e a disciplina que podemos imprimir ao corpo. Ainda fiz duas pequenas temporadas no andebol, onde percebi que sou desprovido de espírito de competição; estrela nos treinos (onde corria mais do que todos e exibia um remate potente, ainda por cima esquerdino), apagava-me nos jogos, angustiado com o ambiente de viril batalha campal.
De qualquer das formas, ficou a necessidade de trabalhar o corpo. Sinto-me enferrujado com duas semanas sem exercício. No desporto lá vou procurando o vazio mental que me prepara para mais uns dias neste planeta. E o espelho agrada ao ego. Já estou como a outra: se eu não gostar de mim...

Um, dois, três

E se um dia um desconhecido num chat te propuser um trio, chegar a tua casa de mota, se despir e entregar ansiosamente o seu generoso corpo e se fôr embora com um sorriso, atrapalhado com as horas, deixando no ar o cheiro da sua cumplicidade?
Isso é impulse!

Vilar de Mouros

Por fim, em pleno veraneio fluvial na zona de Caminha (obrigado papás por nos cederem a casa por uns dias!) o mundo acaba por nos invadir o pensamento, apenas 3 ou 4 semanas antes de, uns metros aqui ao lado, invadir o próprio lugarejo a PJ Harvey, os Cure e o Bob Dylan. Motivo: uma reportagem, no número de Junho da Zero. Falava de uma Colômbia obscurantista, onde as próprias autoridades promovem a prostituição infantil e espantam à granada os transexuais; também falava de uma Espanha vizinha acolhedora, que aprovava o primeiro pedido de asilo por perseguição motivada pela orientação sexual, precisamente um activista colombiano que perdeu um braço numa carta armadilhada.
E Portugal, onde fica no mundo?
O Sol vertical foi secando a pele, mas não vi rapazes bonitos de calções para me tirar da cabeça aquele braço incompleto.

Dinossauros do amor e cavalos a galope


Então é assim: num livro podem-se reviver e sistematizar muitas experiências e pensamentos. O senhor Jean-Claude Kaufmann, bastante famoso no circuito da sociologia, decidiu que era interessante pegar na questão da vida a só, naquele que ele considera um fenómeno recente em termos históricos e que contem em si o germe de um novo paradigma da vida moderna. Em termos de vivência a só (que não é equivalente à vida solitária), ele distingue dois tipos de experiência, explorando sobretudo testemunhos de mulheres (há que fazer urgentemente o estudo dos homens neste campo; seremos assim tão mais predadores do que elas? e os meninos que anseiam pelos seus príncipes? será a mesma coisa?): por um lado, temos os dinossauros do amor, agarrados a uma ideia tradicional e romântica da relação a dois; viver sozinho, para estes, não é uma opção, resulta da ausência de alternativas; o sentimento predominante é, como seria previsível, a frustração e a eterna espera pelo príncipe encantado. Por outro lado, temos os cavalos a galope, verdadeiros profissionais da vida a só, que incluem a sua vivência afectiva numa dinâmica que envolve outros objectivos, como sejam a satisfação pessoal, profissional ou expressiva. A vivência, neste caso, é a de realização e exploração de horizontes. Reside neste modelo, claro está, o tal bichinho da revolução. De quê? Pois da vida doméstica, da intimidade e da vida a dois.
Diz ele. O livro chama-se “A mulher só e o príncipe encantado”, e é da Editorial Notícias.
Por onde ficaram os dinossauros a galope?

Saravá Keith Jarrett

Há coisas que nunca voltarão a ser como eram. O modo como ouvia música é uma delas. Ouvir música talvez não seja a expressão mais correcta. A música era o meu mundo. E eu entrava nele saindo do outro, o das pessoas e do dia-a-dia. Lembro-me de tentar descrever esta sensação à minha irmã, como se quisesse verificar se isto era a confirmação do que eu suspeitava: a de que o meu reino não era deste mundo, como disse o outro. A reacção dela foi ambígua: por um lado de estranheza, na voz; por outro, o seu olhar transpirava curiosidade: como era possível esquecer-me assim do que me rodeava? Onde posso aprender essa proeza?
Depois desse período, ficou-me uma paleta de sensações que procuro a cada novo som registado. Nunca fui um melómano disciplinado e não tenho paixões incondicionais.
Ainda assim, saravá Bowie, saravá Led Zeppelin, saravá Chick Corea, saravá Robert Smith, saravá Peter Murphy, saravá Morrissey, saravá Lou Reed, saravá Betânia, saravá Pixies, saravá Bach, saravá Satie, saravá Keith Jarrett.

Eles andam aí!



É verdade, os paraísos andam por aí e na maior parte dos casos mais perto daquilo que esperavamos! As Ilhas Cíes são um desses paraísos e a hora e meia de carro do Porto (mais 40 minutos de barco...).

Narciso e as mulheres maduras


Normalmente, tendo a ver sempre apenas o lado mau daquilo que faço. Como acredito que só podemos evoluir se acreditarmos naquilo que fazemos, tentei adoptar mais recentemente uma estratégia: carrego nos impulsos e não revejo aquilo que faço, para evitar deitar fora o que se pode mais cedo ou mais tarde até revelar importante. Daqui poderá surgir, um dia, quem sabe, qualquer coisa que realmente possa ter significado para outra pessoa, mas o que me tem acontecido pensar, nesta dinâmica, é que me transformo, paulatinamente, no narciso que aguarda, em cada um de nós, o baixar da guarda.
Ou seja, perdido por ser humilde, perdido por ser umbigo.
Quem me encontrasse na praia há uns dias atrás, apanhava-me a ler um livro de tias (com capa cor-de-rosa e tudo). Encontrei-o na Feira do Livro, e achei que podia ser engraçado para a minha mãe (a minha tia preferida), que se encontra em pleno período de mudança de trajectória (prestes a entrar na reforma, a menopausa onde já vai, com autonomia financeira e uma casa no campo, há muita coisa que se pode decidir nesta altura do campeonato). O livro chamava-se “Mulheres Maduras”(de Susan Swartz, Ambar), e no fundo é uma recolha de depoimentos bastante uplifting sobre a vida de uma série de mulheres, que a autora recolheu, compilou e articulou segundo áreas temáticas. Todas aquelas mulheres cinquentonas e sessentonas, que, com os filhos, matrimónio e carreira muito arrumadinhos decidem de repente romper com o passado e começam a realizar os seus sonhos verdadeiros de sempre, enterrados pelo rame-rame da sua vida adulta; fizeram-me pensar que não gostava de chegar àquela idade frustrado por não ter sequer tentado fazer agora aquilo que realmente me apetece. Com o empurrão precioso da Ju, lá peguei então nos meus sarrabiscos, preparei um cd com o portfolio, e fui com toda a latosa a uma editora apresentar o meu trabalho. Não sei se alguma vez isto dará nalguma coisa, e seguramente esta não será a única tentativa, mas já me sinto mais tranquilo por saber que pelo menos tentei.
Umbiguismos.

O Mundo

Num blog, como em qualquer outro acto de criação, sobretudo num blog de cariz mais pessoal e intimista como este, a tentação de, conscientemente, transmitir uma determinada (e dourada) ideia de nós próprios pode ser bastante grande. Essa tentação pode levar a que nos forcemos a reduzir as anotações centradas no ego e a comentar mais o que se passa à nossa volta, como seres eminentemente sociais e altruístas que queremos demonstrar ser. Estar aqui há 29 primaveras, contudo, ensinou-me, entre outras verdades, que o mundo é feito de muitas coisas, mas ninguém me tira da ideia que a substância maior desse bolo é a dor e a miséria. É por também ter provado parte dessa dor, e por saber que ela espreita ali sempre no próximo parágrafo que eu decidi tentar que nestas linhas ia surgir este Eu que me inquieta, mas que tem sobretudo a ver com este Eu recortado do mundo ou, mais correctamente (que este recorte, dizem os cientistas sociais, é impossível de operar) este Eu individual que está no mundo, mas que olha para si próprio.
Apenas um apontamento para tentar justificar este monólogo interior com que tento enganar o leitor.

Mar


No breve período em que vivi em Itália – oito meses mais uns mesitos pingados – penso que aquilo de que mais falta senti foi o mar. Foi engraçado (e assustador) perceber como podemos ser assim dependentes desse apelo do abismo aquático, desse infinito ondulante. Paradoxalmente, sair foi enraizar. Isto é, só percebi estando lá que já tinha lançado sementes por cá, em terras lusas, e precisava de as vir cultivar, deixar criar raiz, acarinhar e fazer crescer. Ainda hoje não sei de que cor serão e qual o sabor dos seus frutos, mas agora já posso dizer que valeu a pena tanta semana sem rissol e bacalhau.
A melhor foi que quando voltei, só passado quinze dias é que fui finalmente à beira-mar, como se o que me faltasse não fosse olhar mas somente estar próximo do oceano, como se dentro de mim habitasse um peixe melancólico.

O Nariz

Bem sei que há narizes de todos os tamanhos, cores e feitios. Mas uma coisa é conceber isso, constatar o óbvio no que nos rodeia. Outra coisa, completamente distinta, é aprender a viver com o nosso próprio nariz. A mim, o processo de aceitação dessa parte da minha anatomia perante a diversidade nasal da humanidade funcionou por etapas, a um ritmo bastante mais lento e atribulado do que tudo o resto: as borbulhas, os pêlos, o pénis, o cabelo; tudo, mesmo tudo, parecia mais fácil de aceitar do que essa enorme injustiça que é não ter um perfil discreto.
Quando, ainda hoje, a espaços, revejo o meu reflexo no vidro da janela (nunca percebi porquê, mas é nos comboios que isto mais me acontece) e a visão da penca volta a perturbar a minha auto-estima, é sinal de que preciso marcar urgentemente um jantar com os amigos.

Palavras e sensações

Sim... não... certo... errado... dúvidas... certezas... tristezas... alegrias... felicidade... infelicidade... palavras e sensações que têm ocupado a minha cabeça nos últimos tempos e que têm destabilizado a tranquilidade interior e bem-estar que várias pessoas reconhecem em mim.

Sono

Costumo pensar que em português existem muitas palavras para o mesmo significado, ao contrário, por exemplo, do inglês, que parece possuir uma economia de recursos tão grande que se serve do mesmo termo para designar vários sentidos. Nesta dinâmica o contexto é um factor explicativo fundamental. Daí o exemplo clássico da neve, que para os esquimós se traduz numa série de nomes (que designam a variedade subtil de gradações da água congelada, para nós imperceptível) ou o da comunidade de pais que luta para que exista uma palavra que traduza o sentimento ou a situação da perda de um filho (para estes, essa passa a ser a realidade mais fundamental, e não encontram um nome que lhe dê significado, que a localize no espaço e tempo social).
Entre o despertar e o sono, dizem os italianos, existe uma espécie de limbo a que eles chamam o dormiveglia. Nesse limbo, emerge frequentemente uma confusão entre a realidade e o que eventualmente possamos estar a imaginar, o plano realístico e o plano fantástico. Esta noite, foi nesse meio-sono que fizemos amor, um bocado sofregamente, como quando nos reencontramos ao fim de quinze dias de separação e abstinência. Ainda não percebemos o que se passou; um de nós (ou até ambos, ao mesmo tempo) podia estar em pleno devaneio erótico em sonhos, movimentando-se realmente, ou então era o clima da relação esta semana, a transpirar expectativa por novas e excitantes experiências, de que provavelmente voltarei a falar.
Seja o que for, abençoados italianos, por inventarem uma palavra para esta realidade.

Filosofia interior

Quando correm atrás delas num qualquer jardim ou praça de uma cidade, as crianças sabem que as pombas vão sempre conseguir escapar. Por isso persistem na perseguição, destemidas e embriagadas de alegria, não hesitando contudo em correr mais lentamente ou a fazer grandes desvios se os pássaros desaceleram o passo. À procura das metáforas encerradas nesta imagem, deparei-me com esta: não procuramos nós sempre aquilo que não podemos ter? Ou temos medo daquilo que realmente queremos? Correr é mantermo-nos vivos, embora não queríamos verdadeiramente alcançar o que procuramos?
Acontece-me às vezes surpreender-me a mim próprio. Nalgumas situações, de repente tomo uma atitude que contrasta completamente com a ideia tão cristalizada que tenho de mim próprio. Talvez tenhamos, afinal, ideias pré-concebidas, em primeiro lugar, relativamente a nós próprios.
Não sei qual é a relação disto com a história das pombas, mas tenho saudades dessas surpresas…

Respiração

Aos três anos de idade diagnosticaram-me asma. A minha infância foi um rosário de chiadeira e pigarreia, e sempre vivi com a ajuda dos meus amigos corticosteróides. Sempre respirei pela boca, o que quer dizer duas coisas: de noite, é baba quase certa na fronha (devia haver um subsídio de fronha para os pais de crianças com asma) e o olfacto é um sentido mais imaginado que exercitado.
Há um mês atrás, decidi acabar de vez com esta vida de velho e fui ao médico. Para mim o milagre da ciência é isto: acordar com a boca fechada e sentir nos lençóis o cheiro a sexo da noite anterior.
Talvez um dia ao falar não me perguntem se estou constipado e eu não sinta que as palavras me saem como que de dentro de um aquário vazio.
Para já dou-me por contente por descobrir que os coentros têm cheiro, e de que maneira!

Bom apetite



Depois de tantos elogios e solicitações, decidi publicar a receita que me inspirou na confecção das minhas quiches (quem já não provou?):

Ingredientes:
Massa (300g de farinha, 2 ovos, 125g de manteiga, 1dl de água, sal q.b.)
Recheio (1dl de azeite, 1 cebola, 1 dente de alho picado, 300g de carne de porco picada, 1 colher de café de caril, 0,5dl de vinho branco, 1 ramo de salsa, 2 ovos, 1dl de natas, 1 gema, sal q.b.)

1 - Prepare a massa, juntando a farinha, os ovos, a manteiga, a água e uma pitada de sal. Amasse bem e deixe descansar em local quente, durante meia hora.
2 - Entretanto, confeccione o recheio: aqueça o azeite; refogue a cebola e o dente de alho picado. Adicione a carne picada e tempere de sal. Deixe refogar um pouco; junte o caril e o vinho. Deixe reduzir e acrescente a salsa picada.
3 - Bata os ovos com as natas; misture no preparado da carne. Retire do lume e reserve. Ligue o forno a 180ºC. Estenda a massa e forre uma tarteira. Pincele o rebordo com a gema diluída em água.
4 - Recheie a tarte com o preparado de carne. Leve ao forno durante 40 minutos.

Não precisam de seguir à risca todas estas medidas... O resto é uma questão de prática e de elogios ;) Quando me convidam para comer as vossas tartes?

Campo


Regressamos periodicamente a Avintes. A ouvir os pássaros, a sentir pertinho o rio, as casas antigas, os quelhos, o cheiro a estrume e a terra batida, os arrufos da canzoada e o bailado dos gatos vadios. Para sentir de novo que houve uma altura em que todos vivíamos assim, e poucos persistiram no sonho. Eu já não tenho solução, sou irremediavelmente urbano. Mas ainda sorrio com e me deixo levar por um apelo adolescente que me atirava para o campo em projectos de futuro, numa experiência que imaginava próxima das extintas aldeias comunitárias: todos damos trigo e lenha para fazer o pão, hoje és tu que levas o gado a pastar, amanhã sou eu que cuido da estufa. Hoje em dia, o campo é uma bolha de nostalgia e não o consigo levar a sério. É como se fosse mais real o piche nas estradas do que a flor silvestre na berma do caminho.

Nucas


Um dos meus maiores fetiches é ficar a olhar para a nuca de um homem. O cabelo deve ser de preferência curto, pelo menos atrás, para se poder ver bem o movimento capilar (o brilho do cabelo, a forma como cai ou é penteado, os cortes, os conhecidos remoinhos), assim como as nuances da pele, a forma como os cabelos se separam ou não dos pêlos das costas, e os eventuais sinais que possam pontuar o cenário. Que perfeição singela e concentrada, como a evocação de uma meninice entretanto reconquistada por breves momentos (como quando pousamos a mão no cachaço de alguém em sinal de afecto amigo). Que combinação, também de promessas e fantasias, uma espécie de magia frequentemente quebrada com o simples rodar da cabeça.
Uma coisa é certa: quem vê nucas não vê corações, mas é por estas e por outras que eu chego sempre ao cinema minutos antes das luzes se apagarem.
Pancas.

Nomes de ruas


Tenho uma dificuldade absurda em decorar nomes de ruas. O problema é extensível a toda a complexa toponímia e geografia das estradas, IP’s, EN’s, IC’s, viadutos, cidades, vielas, becos, praças, pracetas, avenidas (tenho vergonha em acrescentar à lista países). Por outro lado, fico abismado com a quantidade de informação que involuntariamente registo na cabeça, que persistentemente me ocupa preciosos compartimentos dos meus arquivos mentais. Por exemplo, que contributo é que pode trazer à minha vida saber nomes de filmes, actores ou outros artistas cujo trabalho nem sequer conheço ou pretendo vir a conhecer? Exemplo: Gonzalo Rubalcaba é um pianista cubano; Ezra Pound é um nome de escritor; Brad Davis, o actor que personificou Querelle, na versão Fassbinder. Outros factos: Gasganete era o nome do gajo mau nos Estrumpfes; Mandrake era um mágico que combatia o mal em histórias de BD; Hermínia Silva era uma vedeta do teatro de revista.
Não terá muito mais utilidade saber que Costa Cabral é uma rua que fica junto ao Marquês, do lado oposto a Santa Catarina?

Trabalho

Hoje acordei puto da vida. Aquilo que eu temia e que aguardava já há meses finalmente aconteceu: a notícia do desemprego. Bem, não é propriamente uma novidade, já é velha de quatro meses; mas hoje, depois de muita resistência e acrobacia mental, a boa nova chegou cá dentro, onde o Eu trata o Eu por Tu.
Apesar do tempo livre, geralmente sinónimo de fossa para quem se vê repentinamente sem trabalho, durante este tempo tinha conseguido transformar esse vazio em liberdade. Racionalmente, pensava: ok, se tanto te queixavas de nunca ter tempo para fazer aquilo de que realmente gostas, de que estás à espera agora que te entregaram o tempo numa bandeja?
E, para ser franco, curti. Curti o tempo em si, ou o próprio controle que sobre ele finalmente podia voltar a ter, como antigamente, quando trabalhar era o pesadelo dos outros. Li, voltei a atacar o desporto, dediquei-me às mil e uma subtilezas enebriantes do dolce far niente.
E de repente atingiu-me como um raio a evidência: sem trabalho, qual o prazer em não trabalhar?
Ninguém diga que está bem...

Anjos na Televisão

Harper - Quem é você?
Prior - Quem é você?
Harper - Que está a fazer na minha alucinação?
Prior - Não estou na sua alucinação. Você é que está no meu sonho.
Harper - Você está maquilhado.
Prior - Você também.
Harper - Mas você é homem.
Prior - Arg!! As mãos e os pés denunciaram-me!
Harper - Deve haver aqui um engano. Eu não o reconheço. É... tipo o meu amigo imaginário?
Prior - Não. Já não tem idade para ter amigos imaginários, pois não?
Harper - Tenho problemas emocionais. Tomo muitos comprimidos. (...) É terrível. Os mormons não deviam ser viciados em nada. Eu sou mormon.
Prior - Eu sou homossexual.
Harper - Na nossa igreja, não acreditamos em homossexuais.
Prior - Na nossa igreja, não acreditamos em mormons.
Harper - Que igreja...
Prior - :)
Harper - :) Já percebi!

Angels in America - a nova série que estreou na passada 2ª feira, na RTP 2, e que vai-me fazer voltar a ligar a televisão, uma vez por semana.

Atrasos...

Ups... parece que cheguei atrasado... isto já começou há alguns dias mas só agora é que me dei conta. Vamos a ver se daqui para a frente corre melhor... ;)
Prometo que vou cuidar bem das orquídeas para que daqui a um ano floresçam de novo! E já agora, também das flores amarelas que tenho na varanda lá de casa. Vou esperar ansiosamente por esse momento. Entretanto vou escrevendo e partilhando o que se vai passando no meu mundo...
Olá, muito prazer e até qualquer dia!

Os Olhos da Rosa

Semanalmente, dou formação a um grupo de mulheres adultas. A acção dirige-se, segundo as linhas do programa, para “públicos desfavorecidos”, o que quer dizer, na gíria do serviço social DLD’s (desempregados de longa duração), ex-toxicodependentes (o ‘ex’ é só para dar mais força à coisa, normalmente), minorias étnicas e outros passíveis de ser encaixados no pacote “exclusão social”.
Na última sessão decidi levar um dos livrinhos que o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas publicou e distribuiu um pouco por todo o país no Dia Mundial do Livro. Este tinha-o apanhado no Metro de Lisboa, por ocasião de uma formação que fui lá frequentar. Chamava-se “O Bichinho da Escrita”, e é do Rui Zink. A história fala numa espécie de vírus que assola a cidade onde vive o narrador; o vírus toma conta das pessoas, que logo desatam a escrever sem conseguir parar. Todos ficam viciados na escrita, menos o personagem central, que de repente descobre que só consegue ler. Num mundo onde todos são escritores, um leitor dificilmente conseguia passar despercebido, pelo que ele é obrigado a refugiar-se numa espécie de submundo, onde encontra alguns semelhantes, outros leitores, que formam uma espécie de comunidade clandestina. Achei a ideia engraçada e bem contada. Fez-me lembrar uma outra ficção. O “Fahrenheit 451”, uma assustadora alegoria do fascismo: num futuro não muito distante, um poder invisível mas omnipresente, dita a proibição da leitura. Todos os livros são então queimados pelas novas brigadas de bombeiros, agora com a função de perseguir e queimar a palavra escrita. No final, conhecemos também uma comunidade de resistentes proscritos, os últimos guardiões das histórias encerradas nos livros queimados. Assim, assiste-se a uma espécie de regresso à tradição oral: cada indivíduo da comunidade tem na sua cabeça, memorizado, um determinado livro; este que passa é o “O Jogador”, do Dostoyevski, aquele lá ao fundo é “O Retrato de Dorian Gray”, do Óscar Wilde, and so on, and so on. Para quem não conhecer e estiver curioso, o livro é do Ray Bradbury, um dos mestres do género, e a belíssima adaptação ao cinema esteve a cargo do François Truffaut. Recomendo ambos vivamente.
Adiante. Decidi oferecer o tal livrinho do Rui Zink a uma formanda de olhos muito doces que, para não sair do ramalhete, vive uma vida miserável, divorciada após um matrimónio de que só guarda as mazelas físicas e psicológicas, e com dois filhos numa casa sem wc, como muitas por esta e outras cidades afora.
Hoje, na sessão seguinte, ela pergunta-me candidamente se o livro era para ela. Respondi-lhe que sim, embora a intenção inicial não fosse de facto essa. Os seus olhos brilhantes puseram-me KO, enquanto me confessava que, com livros assim, até tinha descoberto que fazia parte desse mundo, o dos leitores.
Devolveu-me, durante pelo menos mais um ano, a fé no trabalho.

Almodóvar

Acontece-me nalguns filmes. Sempre nos dele. Fico parado numa imagem, num movimento, numa frase. Quando volto a mim, a acção já avançou o suficiente para eu me perder, como se tivesse fechado os olhos numa curva ao tentar sair de um labirinto. “Pasion”. É o palavrão que enche o ecrã no final do filme “Má Educação”. E percebo num flash interior pelo imaginário Almodóvar que é esse o mote de todas as suas tramas, o verdadeiro motor da acção. Aqui também é essa a verdadeira história, assumidamente mal disfarçada de policial.
Em todos os seus filmes, como pequenas e subtis manobras de diversão (como o Hitchcock quando fazia as suas aparições), surgem na tela pequenas referências cinéfilas – cartazes, diálogos, evocações de outros filmes – como uma espécie de marca reverencial aos antepassados e como forma de integração da obra numa determinada filiação (como que a dizer: “aqui está isto, que não podia existir sem aquilo”).
Desta vez, ao chegarmos ao cinema – Nun’Álvares, último baluarte no Porto dos filmes sem pipocas (o pesadelo de qualquer cinéfilo) – reparámos que a música ambiente era familiar. Passavam canções dos seus filmes! Quem se teria lembrado de tal ideia: o gerente da sala? o distribuidor? a senhora da bilheteira? o projeccionista? Bem, o que é certo é que, naquele foyeur, com aquela banda sonora, e com os (muitos) presentes com cara de ansiedade (como se estivessem descompensados e aguardassem com impaciência a sua dose), se vivia um clima de clube, um clube almodóvar que se prestava a cumprir um ritual de adoração. E pensei que, brevemente, deste clube começarão a surgir, entre muitas outras coisas, novos realizadores, cujos filmes estarão polvilhados de reverências ao Pedro.
Genealogias.

Música

Ontem foi noite de terapia pela dança. Local do crime: “Maus Hábitos” (ao Coliseu). Saltar, pular, cantar e guinchar ao som da combinação mais bizarra de músicas, desde obscuras versões com guitarra wa wa de clássicos tradicionais portugueses, passando pela versão alemã do Calimero, até aos hits dos filmes do James Bond. Isto tudo sempre recriado em coreografias únicas e irrepetíveis (graças a deus!). Que pena ter descoberto tão tarde como sabe bem ficar com a t’shirt colada ao corpo de tanto suar e os pés cheios de bolhas (dito assim não parece tão divertido, mas é o que nos resta no fim da noite). Também é bom sentir essa espécie de sintonia nos outros corpos e perceber os olhares, que traduzem diferentes graus (e tipos) de fome.
Tudo graças à música (já estou como o José Cid), essa particular invenção da razão que nos torna, por momentos, completamente irracionais.

Orquídeas


Depois de muito tempo de promessa em botão, hoje, decididamente, floriram as orquídeas que a Teresa me ofereceu há um ano atrás. Desde essa altura, em que entraram cá em casa em toda a sua pujança cromática, não se dignaram a dar um ar da sua graça senão agora, precisamente um ano depois. Quando as vejo penso nisso, no facto de ter sido ela que mas ofereceu, no facto de um ano ter passado, um ano em que eu e ela nos tornámos outras pessoas, com mais 365 dias de vida, 365 dias de dúvidas, esperanças, desesperanças e pensamentos quejandos, 365 dias de células em mutação. Penso nisso e percebo que nem nesse dia, há exactamente um ano, nem hoje, nós nos conhecemos em toda a nossa completude dentro dessa coisa a que chamamos amizade. Por um lado, porque muita coisa fica sempre por dizer, nos nossos irregulares encontros; por outro, porque o tempo nos transforma assim, permanentemente, tornando-nos inagarráveis e inabarcáveis. Como aquelas orquídeas, uma miríade de coisas nos podem acontecer assim, apenas uma vez no ano, ou na vida, e não estar lá ninguém para poder viver isso connosco.
Foi para, inútil mas destemidamente (pelo menos tentar) procurar contrariar essa grande corrente de incomunicação, que pensamos em pegar na tralha da casa - textos, fotos, desenhos e quejandos - e criar este cantinho de partilha de emoções, sensações, experiências e pensamentos, na secreta esperança de no processo também nos passarmos a conhecer... melhor.





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