Estate


De Cabecerias de Basto, onde dormimos graças ao Monstrinho que nos emprestou a casa de família, partimos para Mondim de Basto. Um pulinho. Procuramos as indicações para Ribeira de Pena e, pelo meio de aldeias e muito cheiro a bosta, descobrimos um outro paraíso perdido: as quedas d'agua do Poio (rio que, apesar do nome pouco apelativo, é cristalino como um véu de noiva). O espaço convidou à prática de várias actividades ao ar livre: escalada, mergulho, leitura... entre outras que contribuem para a regeneração do corpo e da alma. No regresso, já espreitam as primeiras folhas vermelhas das videiras e os ouriços ainda verdes dos castanheiros, como que a relembrar que uma nova estação se vai seguir. Viva a Mãe Natureza!

Verão


Regressamos às Fisgas do Ermelo como pedaços de metal atraídos pelo íman, matéria humana empurrada para o seu ancestral ventre verdejante. Será a nostalgia das células de mil e uma reencarnações que nos traz aqui, a um pedaço de rocha escavado pela água no meio de um vale florestado? Atirei-me para o rio para reencontrar aquela luz subaquática que os meus velhinhos óculos deixam contemplar novamente. Depois estirei-me numa pedra e sequei a pele, protegendo os olhos do Sol com uma leitura. Repeti o ciclo banho-secar-ler várias vezes, até dar por concluído "Montedidio", um estranho romance numa prosa quase poética de um italiano saudoso de uma velha Nápoles, Erri De Luca. Enquanto mastigava o farnel espreitei o olhar de Venus e li neles a promessa de um noite agitada. Ultimamente tem sido assim, preciso de me entregar uma e outra vez, até que as minhas células percebam qual o seu novo papel no mundo.

?

Quem será?

All that jazz

Uma das minhas sensações preferidas é esta. Poder estar recolhido numa divisão da casa, com um grupo de amigos a desfolhar conversas lá ao fundo. Vou apanhando risos e palavras soltas, que misturo com a banda sonora do início da noite. Temos David Brubeck e Chet Baker. Miss B está nas suas setes quintas, o jazz é o seu mundo. Gosto que me dêm este silêncio, que me dêm tempo para saborear a paz antes da inquietação que me empurra de volta à conversa do bando...

Miss B.


Em casa de amigos, enquanto escrevo, Miss B. é cortejada. É bom saber que se deve sentir com o ego bem afagado. "Sou desejável". O rapaz que a seduz sabe-a toda, já lhe conheço os movimentos. Estamos em sua casa, um belíssimo espaço à beira Vouga, repleto de histórias (incluindo algumas minhas, de há dez anos para cá). Miss B. e eu já fomos namorados, na altura em que ambos sabíamos já o que a casa gastava em preferências sexuais, mas em que a fome de calor humano falava mais alto que a solidão. Conhecemo-nos na Associação de Estudantes, na altura em que a Universidade já era uma etapa que tentavamos penosamente ultrapassar para chegar ao que realmente interessava. Há dias, eu e o Venus aceitamos o convite para o seu jantar familiar de aniversário. Nós os dois, Miss B e a sua família. Uma nova experiência. A mãe achou que o Venus me ficava bem.
Gostava de poder reter estas sensações, como quando fazemos amor e por momentos parece possível ter cá dentro outra pessoa.

Arco Íris


Amizade
Ternura
Simplicidade
Alegria
Ingenuidade
Verdade
Amor

esta é a minha boa amiga Íris!

O belo


Pedro Hestnes

Agosto


O Jorge Silva Melo fez um filme, aqui há uns anos, que se chamava Agosto, com um praticamente principiante (e já belo) Pedro Hestnes. Uma mulher, encarnada no ecrã pela Manuela de Freitas, ia cantarolando, em plena serra da Arrábida, uma cantilena: "Eu vou-me embora, tu vais-te embora, o Verão já se acabou..."
Lembrei-me dessa imagem enquanto tento combater com unhas e dentes a estranheza deste Agosto portuense, vazio de pessoas e intenções, mergulhado numa semi-letargia profissional. Ainda se estivesse presente a perspectiva de umas férias de Inverno...

O que é um homem sexual?


Ocasionalmente solicitam-me sessões de informação e sensibilização sobre sexualidade e planeamento familiar. Para quem está habituado a estas situações, sabe que há uma dinâmica bastante utilizada: o chapéu das perguntas. Basicamente, consiste em sugerir que às pessoas que escrevam as suas dúvidas anonimamente num pedaço de papel, fazendo-se depois a recolha, seguida da leitura e resposta debatida a cada uma das questões colocadas. Cá vão alguns exemplos que guardei de um dos grupos de adultos a receber formação profissional e escolar (be prepared):
- "Porque é que o planeamento é só para homem ou mulher e não para os homossexuais?"
- "Porque será que um casamento hoje em dia tem uma duração curta? Quais os prós e os contras?"
- "O que é ponto G?"
- "Qual é a diferença entre o homem e a mulher?"
- "O que é na verdade um homossexual? E porquê?"
- "O que entende à sexualidade entre homossexuais?"
- "O que é o esperma?"
- "Porque existe a sexualidade?"
- "Diz o que é uma família?"
- "O que é sexo a três?"
- "Tudo do sexo me agrada"
- "Não tenho nenhuma pergunta neste momento"
- "O que é sexo anal"
- "O que é a SIDA"
- "A diferença entre um pedófilo e um violador"
- "o que é um homem sexual"
- "O que é puberdade"
- "Como será dois homens?"

Imaginem ter que responder no momento...
PS: a imagem é do Tom of Finland, como não podia deixar de ser...

Orquídeas (parte 2)

Mais de dois meses depois das orquídeas terem florido, chegou a altura de nos deixarem. Lentamente vão amarelecendo e enrugando. Vamos ter de tirar algumas das folhas que estão a ficar castanhas e posteriormente temos de separar as duas plantas e colocá-las em vasos diferentes. Cuidados necessários para que no mês de Maio do próximo ano voltem a encher-nos a sala com as suas cores.

Metrosexual? Oui, c'est moi...

No meu local de trabalho, segundo a querida assistente de estética, no espaço para mulheres desempregadas, eu serei, segundo a sua definição, um metrosexual(!). Go figger... Agora marcaram uma sessão para toda a equipa, e é suposto eu aparecer também. Ir ou não ir, eis a questão.
Nas entrevistas diárias, outras situações que me surgiram ontem: um naturopata e um atleta de alta competição de uma arte marcial, já não me recordo qual (pelos vistos até já é modalidade olímpica) - ambos ficaram tão animados com a entrevista que até propuseram demonstrações, o primeiro uma massagem, o segundo uma visita ao ginásio para uma aula. Ontem, a teclar com um amigo, sugeriram-me inverter a ordem das demonstraçõas. Talvez faça sentido.
Bom, suponho que isto não acontece em todos os locais de trabalho...

Fahrenheit 9/11

Depois de ver o filme do Michael Moore, a imagem que retenho é a daquele ecrã negro, quando ouvimos os sons repetidos até à náusea do 11 de Setembro, como se nos dissessem que a partir daquele momento o país entrou numa cegueira colectiva, não anárquica como a do Saramago no romance, mas focalizada na ira e no poder, de contornos fascizantes. Afinal, foram os americanos, pelo voto, pela cumplicidade ou pela indiferença, que puseram GWB na presidência...


atropelo na raíz do que sou a minha sombra
no pensamento o próprio peso suspenso
vultos vagueiam-me no olhar
carregando a própria vida nos sorrisos
o ar azul e solar transporta-te até este cais
e indetermina as coisas marítimas em que habito

Monstrinho e Super Su


Era uma vez um país onde se podia estar sempre a brincar, a tocar, a trocar beijos, abraços e mimos. Agora eu entrava no jogo e ficava viciado na amizade. Cantávamos o tempo todo e criavamos coreografias, falavamos de tudo e ficávamos nús, despidos do mundo. Eu era o Major Tom, descia do meu derretido pedestal glaciar e passava a adorar fazer disparates (obrigado, meninos).

Sarrabiscos


Não parece, mas já foi há doze anos. Nesse tempo, um amigo alugava aqueles espaços a cheirar a mofo no velho casario do Rua Chã ou do Bonjardim, transformando aquele chão de tábuas carcomidas e as paredes de estuque esburacado numa espécie de atelier comunitário, onde desembocávamos quando não tinhamos nada melhor para fazer (ou seja, com frequência). Um com pinturas, outros com artesanato de couro e missangas, outros só de passagem, como a Isabel, por cuja presença eu nutria na altura uma paixão platónica, nunca assumida (hoje em dia é habitante de Roterdam). Um dia alguém trouxe um livro do Almada Negreiros. Pelo efeito causado pelas imagens, é possível que tenha trazido algo mais (para fumar) com ele. Decidi experimentar uns desenhos naquele estilo e descobri que conseguia às vezes encontrar monstrinhos escondidos nas folhas de papel.

Espanto?

"Casamento entre homossexuais? Não tenho nenhuma observação a fazer. Não digo que seja uma grande necessidade, mas sou muito liberal.", José Sócrates. (desculpa Nuno por ter utilizado o teu post...).
Espantava-me era se ele tivesse opiniões concretas e bem fundamentadas sobre este assunto. Vamos todos emigrar para Espanha? ;)

Carências...

Hoje acordei com uma grande carência de miminhos do meu amor e dos meus amigos... Há dias assim...

A igualdade na Lei

Nunca é demais relembrar que:
ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. (Princípio da igualdade - Artigo 13.º n. 2 da Constituição da República Portuguesa)

Palavras para quê?...

Lembrete

Não voltar a arranjar trabalho num sítio com problemas graves de organização, a recibos verdes e sem garantias de continuidade ao fim de três anos de dedicação, em que sentimos que temos que fazer tudo para o caos não se notar, em plena onda de calor estival, com dois terços da cidade desaparecida em férias, sem tempo para os poucos amigos que ficam, para as sobrinhas que vão crescendo sem sentir a presença do tio desnaturado, para a mana que eu gosto tanto, para o amor, para a praia ou para correr para me esquecer disto tudo...


caio da luz no silêncio da areia
a deslizar pela água quebrada
rarefacção de mim próprio
misturo as cores num voo de borboleta
e engulo a lassidão de um trago
doce e seguro
quero reter o eréctil lugar no pensamento
e ficar gordo na alma
de tanto sorver o que me rodeia
sinto na pele tisnada a promessa de Verão
que comanda o desassossego

Noite quente... a estrada... os amigos... destino: Porto

"A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "Olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"."

Sérgio Godinho, A Noite Passada

Top divas - hipótese 4


Natasha Kinski, em One from the Heart, de F.F.Coppola (esta é para o Z., que tem andado desaparecido...)

Top divas - hipótese 3


Geena Rowlands, em Opening Night, de John Cassavetes.

Reunião de trabalho

Cenário: café-concerto do Rivoli. Presentes: eu e a equipa de formadores. Objectivo: avaliação e planificação da formação. Resultados: falar de tudo menos da formação.
Na parede, atrás de nós, projectam vídeos dos Massive Attack. Ao meu lado, cúmplice no caos, Planeta Ju. A conversa ecoa fora de mim, que estou mais atento à música de fundo.
Uma sequência fenomenal surge na parede. Um homem é perseguido por um bando de outros homens, de olhar enfurecido. É negro e tem um ar assustado. Percorre velozmente corredores, rampas, escadas, saídas, campos desertos. A certo ponto, exausto, pára. Olha para os seus perseguidores, que pararam também, a alguns metros de distância. Olhos nos olhos, longo período de ansiedade. Aos poucos, as expressões vão perdendo a tensão, como se se estudassem. O homem, agora mais confiante, ensaia um passo na direcção do bando. Ao mesmo tempo, os homens recuam um passo. Esgares perplexos, a sugerirem algum receio. O homem avança, cada vez mais rápido, até iniciar uma corrida. A perseguição inverte-se.
Desconcertante.

Top divas - hipótese 2


Isabel Ruth, em Mudar de Vida, do Paulo Rocha.

Top divas - hipótese 1


Cybil Sheppard, em The last picture show, de Peter Bogdanovich.

Desejos de um trabalhador

Eu preciso de estar aqui!

O Sr. Osório

Quando era pirralho, costumava achá-lo o clássico pain in the ass. Só bastante mais tarde é que percebi que era apenas um velho. E os pirralhos querem distância dos velhos, sobretudo quando a vida nos parece chamar lá do fundo da rua. Ficava o dia todo à conversa com o Sr. Soares, da loja dos brinquedos, e gritava o meu nome quando, apesar das minhas tentativas de passar furtivamente, se apercebia da minha passagem. Perguntava pela escola, pelos pais, e despedia-se com uma palmadinha na cabeça: "Então vai lá à tua vida!" E eu, agradecido, fugia. Só bastante mais tarde é que me apercebi também que a ideia que eu tinha de toda a minha vizinhança, e de todo o meu mundo, era muito influenciada pela carranquice do meu pai. Tal como a vizinha de baixo, eterna preguiçosa que se encarcerava em casa sem fazer um cú, sofria provavelmente de depressão crónica.
Quantas destas ideias terei ainda que descobrir e exterminar do meu pensamento?

"Eu, racista?"

"Nove em cada dez britânicos de raça branca não tem amigos negros, asiáticos ou muçulmanos. Num inquérito da Comissão para a Igualdade Racial a divulgar esta semana, a que o jornal The Guardian teve acesso, 94 por cento das pessoas afirma que quase todos os seus amigos são da mesma origem racial e 54 por cento reconhece mesmo não ter nas suas relações uma única pessoa de origem negra ou asiática e que considerem como alguém próximo. Num país de forte imigração indiana, apenas uma em cada dez pessoas de raça branca admite ter um amigo hindu e, apenas dois em cada dez são próximos de um muçulmano.

A comissão chama a atenção para os perigos que este afastamento provoca, já que resulta numa ausência de empatia que só surge com a experiência. Este afastamento é passível de facilitar o desenvolvimento de preconceitos e criar mentalidades receptivas a pensamentos racistas e xenófobos.

Pelo contrário, 47 por cento dos membros de minorias étnicas afirmam que a maior parte dos seus amigos são de raça branca. Mas também esta situação pode estar a mudar: numa perspectiva geracional, para a qual este inquérito não oferece conclusões, há indicação de que as comunidades étnicas se têm progressivamente fechado. Mais de 60 por cento das pessoas com mais de 50 anos tem maioritariamente amigos de raça branca, mas apenas 43 por cento com menos de 30 vive a mesma situação.

Na medida em que quase dois terços da população vive em pleno desconhecimento das minorias étnicas que compõem a sua sociedade, torna-se mais permeável a propaganda racista e a manchetes sensacionalistas. Uma questão analisada também no "The Guardian" a propósito de um título do diário popular "Sun", que alimenta com as suas manchetes muitos preconceitos étnicos mas condenava o Partido Nacionalista Britânico. Recorde-se que este partido viu as suas contas no Barclays Bank serem fechadas, em virtude de um vídeo secreto que expunha membros do partido a incitarem à violência racial." (Fonte: Público 20/07/04)






Recomenda-se


Outras paragens



anodaorquidea[at]gmail.com
 

© O Ano da Orquídea 2004-2007