Normalidade

Continuando na senda dos posts improvisados, eis-me de novo na orquídea. Em pleno intervalo de almoço, com compromissos à espreita no início da tarde, aproveito para vasculhar o jornal e decidir que tenho que espreitar no novo filme do Spielberg. Nada de novo no gaydar, envio uns piropos virtuais, pequenas injecções de ego para quem aprouver... Ok, concentro-me na festa de hoje à noite: inauguração da casa do Monstrinho e da Super Su. Ofereci-me para DJ e já preparei um set suficientemente eclético para agradar a gregos, troianos e outras etnias suburbanas (espero que a ligação eléctrica improvisada resulte). Ouvimos dizer que o DJ Pascoale Ferrara mudou para o Swing, temos que o procurar; que vontade de desopilar numa pista de dança (é pena, nos Maus Hábitos sempre se conseguia respirar...).
É sexta-feira, a vida regressa à normalidade...

Post de desculpas

Sinto que devo, por algum motivo, um pedido de desculpa àqueles que, por motivos para mim insondáveis, continuam a visitar o nosso blog com alguma frequência e descobrem que os posts não têm sido actualizados. Claro que tudo se explica com a falta de tempo, ou melhor, com uma nova organização do tempo, que se tornou mais egoísta e me tem usado para outras coisas, entre as quais o trabalho, as candidaturas a outros trabalhos, formações e mestrados, os amigos, os passeios, as leituras, as corridas, a casa, etc. Agora, neste pequenino intervalo de almoço, retardado por uma corrida no parque da cidade (sim, hoje tive o previlégio de poder organizar eu o meu tempo), apeteceu-me deixar aqui este post espontâneo sobre a ausência de posts e também para me ajudar a pensar sobre a pertinência ou perfil deste espaço. Afinal, qual o sentido de fazer um blog pessoal e narcisista, se ao mesmo tempo tentamos combater a tendência para fazer um blog pessoal e narcisista? Sinto que algo mais me tem refreado, e já tinha anunciado a morte ao Major Tom para muito breve. Contudo, algum me impediu de o fazer. Ainda falta descobrir se é mais do que um pressentimento. Todos os dias o mundo me diz coisas, distintas e muitas vezes incompreensíveis. Esta máquina a que chamamos cérebro tem tido alguma dificuldade em processar todas elas...

Estate (parte 3)

Estate (parte 2)


Férias, Sul, Algarve, Aljustrel, 38ºC, Tavira, Mar, Sol, Corpos nus, Sal, Conchas, "Corfu", Dunas, Areia, Luar, Sexo, Praia das Furnas, Vento, Lagos, Paladares indianos, Cigarras, Searas, Porto Côvo, Despedida, Saudade, Alentejo, Marvão, Castelo de Vide, Portalegre, Campo Maior, Elvas, Olivenza, Alqueva, Évora, Café do Alentejo, Fotos, Caminhadas, Castelos, "O beijo da mulher aranha", Beirã, Alpendre, Estrada, Lhasa, Crato, Alter do Chão, Bach, Avis, Arraiolos, Escoural, Alcochete, Tejo, Relâmpagos, Jó, Lisboa, Pizza indiana, Beijo, Abraço, Taborda, IKEA, Jantar, Glória, Coleus Hybridus Labiatae, Jheronymus Bosch, Caixa vermelha, Verão 2004.

Gula livresca


É um dos pecados dos sociólogos nas suas investidas intelectuais. Nestas mini-férias meridionais, devorei: como aperitivo, "Contragofos 2", do Pierre Bourdieu, sob o mote de contributos para um novo movimento social, que imponha a mobilização à escala europeia e mundial de forças que contrariem a queda da dimensão social das políticas internacionais, começando pelos sindicatos, essa instituição ancilosada nas paredes dos Estados nacionais. Seguiu-se outro prato, um magnífico David Leavitt, "O Corpo de Jonah Boyd"(anagrama de body, note-se), de volta ao seu universo, a família e as suas batalhas. De enfiada, porque estes dias servem para devorar ao Sol, "A Estepe", uma novela do russo Theckov, relato da viagem iniciática de um jovem pela Rússia novecentista, que me fez recordar recorrentemente do "Verão de Kikugiro", o meu filme preferido do Takeshi Kitano. Comprado à pressa em Lagos, ainda inicio a sobremesa: um intrigante romance da Simone de Beauvoir, "O Sangue dos Outros".

Regresso

Regresso do Sul, ainda com o corpo salgado pelo último mergulho apressado no mar da costa alentejana. Concluímos o périplo em Porto Covo, para matar saudades, num percurso praticamente feito em praias nudistas - nesta última, a Praia do Salto (ou dos Nus, como também é conhecida). Primeira etapa na Ilha de Tavira, com um parque a abarrotar de pouca civilização. Escapamos dois dias depois para a Quinta dos Carreços, na zona de Lagos; um parque com o triplo do tamanho e um terço da lotação do anterior, o que assumimos logo como um bom indicador. Tempo para concluir que não existe praticamente nudismo em Portugal, para comer bem e à farta peixe fresquinho, e ainda para visitar o único bar gay indicado na cidade, que estava vazio por causa das festas populares. No comboio, com a Chiara Mastrioanni e o Benjamin Biolay no walkman (o puto ao meu lado já nem devia saber que estranha geringonça era aquela), com as minhas havaianas praticamente desfeitas após 3 dias de uso, tentei não pensar no dia seguinte, que me preparava uma nova plateia de adultos de esperanças fixadas nos meus gestos e palavras. Fiquei sozinho, o Venus seguiu para o Marvão para se juntar a uns amigos para o resto das férias. A cama pareceu-me grande e fria; precisei de coragem para lá entrar...

Women on Waves


Porque todos os anos se realizam em Portugal entre 20 a 40 mil abortos ilegais e mais de 5.000 mulheres sofrem graves complicações de abortos feitos sem condições de higiene e segurança.

Porque em 2002 deram entrada nos serviços médicos 11.000 mulheres com complicações pós-aborto e 5 morreram.

Porque nos últimos 6 anos pelo menos 9.000 mulheres foram a Espanha fazer um aborto.

Porque o risco que as mulheres correm ao fazer um aborto ilegal é 150 vezes maior do seria se este fosse permitido por lei.

Porque em 2004 foram recolhidas 120.000 assinaturas a pedir um novo referendo sobre a despenalização do aborto, que foi rejeitado pelo governo.

Por estas e tantas outras razões as Women on Waves vêm a caminho de Portugal.

Um poeta é...

"O que é o abismo?
É um coração às moscas. "
Assim, como se fosse o maior truísmo do universo, responde o compadre Miguel (antes ou depois daquele inspirado jogo parecido com volley de praia?). Já era fã, mas os amigos são supeitos. Prefiro dar palavra às palavras...

Saciedade


Assusta-me a ideia de a boa comida nunca chegar, do sono nunca ser suficiente, do sexo nunca bastar, das viagens parecerem sempre poucas, das aventuras e amizades neste mundo nunca me chegarem a saciar...Mas se calhar o contrário ainda me assusta mais.

Estate


De Cabecerias de Basto, onde dormimos graças ao Monstrinho que nos emprestou a casa de família, partimos para Mondim de Basto. Um pulinho. Procuramos as indicações para Ribeira de Pena e, pelo meio de aldeias e muito cheiro a bosta, descobrimos um outro paraíso perdido: as quedas d'agua do Poio (rio que, apesar do nome pouco apelativo, é cristalino como um véu de noiva). O espaço convidou à prática de várias actividades ao ar livre: escalada, mergulho, leitura... entre outras que contribuem para a regeneração do corpo e da alma. No regresso, já espreitam as primeiras folhas vermelhas das videiras e os ouriços ainda verdes dos castanheiros, como que a relembrar que uma nova estação se vai seguir. Viva a Mãe Natureza!

Verão


Regressamos às Fisgas do Ermelo como pedaços de metal atraídos pelo íman, matéria humana empurrada para o seu ancestral ventre verdejante. Será a nostalgia das células de mil e uma reencarnações que nos traz aqui, a um pedaço de rocha escavado pela água no meio de um vale florestado? Atirei-me para o rio para reencontrar aquela luz subaquática que os meus velhinhos óculos deixam contemplar novamente. Depois estirei-me numa pedra e sequei a pele, protegendo os olhos do Sol com uma leitura. Repeti o ciclo banho-secar-ler várias vezes, até dar por concluído "Montedidio", um estranho romance numa prosa quase poética de um italiano saudoso de uma velha Nápoles, Erri De Luca. Enquanto mastigava o farnel espreitei o olhar de Venus e li neles a promessa de um noite agitada. Ultimamente tem sido assim, preciso de me entregar uma e outra vez, até que as minhas células percebam qual o seu novo papel no mundo.

?

Quem será?

All that jazz

Uma das minhas sensações preferidas é esta. Poder estar recolhido numa divisão da casa, com um grupo de amigos a desfolhar conversas lá ao fundo. Vou apanhando risos e palavras soltas, que misturo com a banda sonora do início da noite. Temos David Brubeck e Chet Baker. Miss B está nas suas setes quintas, o jazz é o seu mundo. Gosto que me dêm este silêncio, que me dêm tempo para saborear a paz antes da inquietação que me empurra de volta à conversa do bando...

Miss B.


Em casa de amigos, enquanto escrevo, Miss B. é cortejada. É bom saber que se deve sentir com o ego bem afagado. "Sou desejável". O rapaz que a seduz sabe-a toda, já lhe conheço os movimentos. Estamos em sua casa, um belíssimo espaço à beira Vouga, repleto de histórias (incluindo algumas minhas, de há dez anos para cá). Miss B. e eu já fomos namorados, na altura em que ambos sabíamos já o que a casa gastava em preferências sexuais, mas em que a fome de calor humano falava mais alto que a solidão. Conhecemo-nos na Associação de Estudantes, na altura em que a Universidade já era uma etapa que tentavamos penosamente ultrapassar para chegar ao que realmente interessava. Há dias, eu e o Venus aceitamos o convite para o seu jantar familiar de aniversário. Nós os dois, Miss B e a sua família. Uma nova experiência. A mãe achou que o Venus me ficava bem.
Gostava de poder reter estas sensações, como quando fazemos amor e por momentos parece possível ter cá dentro outra pessoa.

Arco Íris


Amizade
Ternura
Simplicidade
Alegria
Ingenuidade
Verdade
Amor

esta é a minha boa amiga Íris!

O belo


Pedro Hestnes

Agosto


O Jorge Silva Melo fez um filme, aqui há uns anos, que se chamava Agosto, com um praticamente principiante (e já belo) Pedro Hestnes. Uma mulher, encarnada no ecrã pela Manuela de Freitas, ia cantarolando, em plena serra da Arrábida, uma cantilena: "Eu vou-me embora, tu vais-te embora, o Verão já se acabou..."
Lembrei-me dessa imagem enquanto tento combater com unhas e dentes a estranheza deste Agosto portuense, vazio de pessoas e intenções, mergulhado numa semi-letargia profissional. Ainda se estivesse presente a perspectiva de umas férias de Inverno...

O que é um homem sexual?


Ocasionalmente solicitam-me sessões de informação e sensibilização sobre sexualidade e planeamento familiar. Para quem está habituado a estas situações, sabe que há uma dinâmica bastante utilizada: o chapéu das perguntas. Basicamente, consiste em sugerir que às pessoas que escrevam as suas dúvidas anonimamente num pedaço de papel, fazendo-se depois a recolha, seguida da leitura e resposta debatida a cada uma das questões colocadas. Cá vão alguns exemplos que guardei de um dos grupos de adultos a receber formação profissional e escolar (be prepared):
- "Porque é que o planeamento é só para homem ou mulher e não para os homossexuais?"
- "Porque será que um casamento hoje em dia tem uma duração curta? Quais os prós e os contras?"
- "O que é ponto G?"
- "Qual é a diferença entre o homem e a mulher?"
- "O que é na verdade um homossexual? E porquê?"
- "O que entende à sexualidade entre homossexuais?"
- "O que é o esperma?"
- "Porque existe a sexualidade?"
- "Diz o que é uma família?"
- "O que é sexo a três?"
- "Tudo do sexo me agrada"
- "Não tenho nenhuma pergunta neste momento"
- "O que é sexo anal"
- "O que é a SIDA"
- "A diferença entre um pedófilo e um violador"
- "o que é um homem sexual"
- "O que é puberdade"
- "Como será dois homens?"

Imaginem ter que responder no momento...
PS: a imagem é do Tom of Finland, como não podia deixar de ser...

Orquídeas (parte 2)

Mais de dois meses depois das orquídeas terem florido, chegou a altura de nos deixarem. Lentamente vão amarelecendo e enrugando. Vamos ter de tirar algumas das folhas que estão a ficar castanhas e posteriormente temos de separar as duas plantas e colocá-las em vasos diferentes. Cuidados necessários para que no mês de Maio do próximo ano voltem a encher-nos a sala com as suas cores.

Metrosexual? Oui, c'est moi...

No meu local de trabalho, segundo a querida assistente de estética, no espaço para mulheres desempregadas, eu serei, segundo a sua definição, um metrosexual(!). Go figger... Agora marcaram uma sessão para toda a equipa, e é suposto eu aparecer também. Ir ou não ir, eis a questão.
Nas entrevistas diárias, outras situações que me surgiram ontem: um naturopata e um atleta de alta competição de uma arte marcial, já não me recordo qual (pelos vistos até já é modalidade olímpica) - ambos ficaram tão animados com a entrevista que até propuseram demonstrações, o primeiro uma massagem, o segundo uma visita ao ginásio para uma aula. Ontem, a teclar com um amigo, sugeriram-me inverter a ordem das demonstraçõas. Talvez faça sentido.
Bom, suponho que isto não acontece em todos os locais de trabalho...

Fahrenheit 9/11

Depois de ver o filme do Michael Moore, a imagem que retenho é a daquele ecrã negro, quando ouvimos os sons repetidos até à náusea do 11 de Setembro, como se nos dissessem que a partir daquele momento o país entrou numa cegueira colectiva, não anárquica como a do Saramago no romance, mas focalizada na ira e no poder, de contornos fascizantes. Afinal, foram os americanos, pelo voto, pela cumplicidade ou pela indiferença, que puseram GWB na presidência...


atropelo na raíz do que sou a minha sombra
no pensamento o próprio peso suspenso
vultos vagueiam-me no olhar
carregando a própria vida nos sorrisos
o ar azul e solar transporta-te até este cais
e indetermina as coisas marítimas em que habito

Monstrinho e Super Su


Era uma vez um país onde se podia estar sempre a brincar, a tocar, a trocar beijos, abraços e mimos. Agora eu entrava no jogo e ficava viciado na amizade. Cantávamos o tempo todo e criavamos coreografias, falavamos de tudo e ficávamos nús, despidos do mundo. Eu era o Major Tom, descia do meu derretido pedestal glaciar e passava a adorar fazer disparates (obrigado, meninos).

Sarrabiscos


Não parece, mas já foi há doze anos. Nesse tempo, um amigo alugava aqueles espaços a cheirar a mofo no velho casario do Rua Chã ou do Bonjardim, transformando aquele chão de tábuas carcomidas e as paredes de estuque esburacado numa espécie de atelier comunitário, onde desembocávamos quando não tinhamos nada melhor para fazer (ou seja, com frequência). Um com pinturas, outros com artesanato de couro e missangas, outros só de passagem, como a Isabel, por cuja presença eu nutria na altura uma paixão platónica, nunca assumida (hoje em dia é habitante de Roterdam). Um dia alguém trouxe um livro do Almada Negreiros. Pelo efeito causado pelas imagens, é possível que tenha trazido algo mais (para fumar) com ele. Decidi experimentar uns desenhos naquele estilo e descobri que conseguia às vezes encontrar monstrinhos escondidos nas folhas de papel.

Espanto?

"Casamento entre homossexuais? Não tenho nenhuma observação a fazer. Não digo que seja uma grande necessidade, mas sou muito liberal.", José Sócrates. (desculpa Nuno por ter utilizado o teu post...).
Espantava-me era se ele tivesse opiniões concretas e bem fundamentadas sobre este assunto. Vamos todos emigrar para Espanha? ;)

Carências...

Hoje acordei com uma grande carência de miminhos do meu amor e dos meus amigos... Há dias assim...

A igualdade na Lei

Nunca é demais relembrar que:
ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. (Princípio da igualdade - Artigo 13.º n. 2 da Constituição da República Portuguesa)

Palavras para quê?...

Lembrete

Não voltar a arranjar trabalho num sítio com problemas graves de organização, a recibos verdes e sem garantias de continuidade ao fim de três anos de dedicação, em que sentimos que temos que fazer tudo para o caos não se notar, em plena onda de calor estival, com dois terços da cidade desaparecida em férias, sem tempo para os poucos amigos que ficam, para as sobrinhas que vão crescendo sem sentir a presença do tio desnaturado, para a mana que eu gosto tanto, para o amor, para a praia ou para correr para me esquecer disto tudo...


caio da luz no silêncio da areia
a deslizar pela água quebrada
rarefacção de mim próprio
misturo as cores num voo de borboleta
e engulo a lassidão de um trago
doce e seguro
quero reter o eréctil lugar no pensamento
e ficar gordo na alma
de tanto sorver o que me rodeia
sinto na pele tisnada a promessa de Verão
que comanda o desassossego





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