Espinho at sunset

Ir a Espinho agora é mesmo ir num pulinho, com a novíssima auto-estrada. Confesso que sempre tive uma relação ambivalente com a cidade: bela, por um lado - quando me recordo das idas à enorme piscina (na altura para mim o trampolim mais alto tocava o céu), dos passeios com o meu pai, quando íamos lanchar camarão (era a minha ideia de uma refeição sofisticada) ou das sessões animadas do Cinanima; feia e desconfortável, por outro lado, quando olho para o seu urbanismo irresponsável ou quando toda ela se dá ares de snobismo burguês.

À beira-mar, é bom cruzar as pernas em cima da amurada e contemplar os surfistas do pôr-do-Sol, nessa dança ao mesmo tempo suave e feroz que os coloca em diálogo com as ondas, como corvos negros que de repente se descobrem crianças. Deve ser bom...

Dilema interior


Posta a questão desta maneira, como é possível alguém não gostar do branco na roupa interior? Quando muito a questão pode ser redireccionada para a dualidade "slip ou boxer". Eu confesso que ainda não consegui tomar posição... sobre o assunto.

O amigo ibérico


Acho que já foi há quatro ou cinco anitos. Sei que aconteceu no Inverno das cheias e das trevas das chuvas infindáveis (não sei porquê, recordo-me que tinham começado no dia exacto em que a PJ Harvey vinha dar um concerto ao ar livre em plena Rua de Santa Catarina, por ocasião da inauguração da Fnac; a coisa acabou por ser transferida para o Rivoli, para gáudio de um grupo de ferrenhos mais combativos). Fomos para Ponte de Lima, e lá foi ter o Fidel, a transbordar de um humor cínico que me cativou pela liberdade que parecia transportar. De visita ao Porto, foi com ele que entrei pela última vez no Boys'R'Us, e foi na mouche a mímica que fizeram da Isabel Pantoja. Mais tarde visitámo-lo em Madrid, e revelou-nos uma cidade supreendente e mais viva do que eu podia imaginar.
Nunca mais nos vimos. As amizades têm destas irresponsabilidades. Mas segundo ele, consegui captar o seu sentido de humor neste desenho, enquanto conversávamos sobre o quão rídiculo era ser patriótico.

visão

o da serra é um rumor que esmaga
a corrente não reflecte o céu
como se ele morasse no fundo do rio
e nós no meio
a tentar respirar este Inverno húmido e melancólico

Teenage wonder


Das coisas que mais sinto falta é da capacidade para me maravilhar, aquela sensação intensa de estar a presenciar algo de único, fabricado propositadamente para mim. Era essa a experiência de ver Bergman ou Fellini, de ver o Indiana Jones no maior ecrã do país, no Coliseu do Porto, de ler Oscar Wilde ou ouvir David Bowie. Depois o prazer deu lugar à racionalidade, e já não conseguia atravessar as vivências sem me distanciar e procurar os limites do cenário, encontrar os bastidadores, e expôr aos olhos de todos o mundo real onde tudo era inventado. Desse mergulho na razão apenas retenho uma vontade muito grande de não me assustar com sensações que não me cabiam no peito. Talvez a adolescência seja isso, essa megalomania emocional. É preciso tempo (e vontade) para regressar sem vergonha ao maravilhamento, a essa capacidade de nos rendermos ao imprevisto.

Autografia de um homem II

Magnífico, comovente e inquietante, o documentário que o Miguel Gonçalves Mendes construiu à volta da presença do Mário Cesariny. O poeta/pintor/agitador relembrou-me uma infância de sonhos em pleno voo.
Pontos altos (citando de memória):
"- Eu fui grande numa altura em que o tecto era muito pequeno."
"-Neste país, aplaudem-nos em apoteose num palanque e dão-nos prémios. Depois deixam-nos ir sozinhos para casa."
"-Não me deixaram ter aquele amor. Então passei ir para a cama com toda a marinha portuguesa!"
"- Quem é que o Mário mais amou na sua vida?
(pausa)- Infelizmente, acho que fui eu próprio..."
Já ninguém responde à vida com esta franqueza combativa.

Autografia de um homem


Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra (...)


Autografia, um poema de Mário Cesariny e título do documentário de Miguel Gonçalves Mendes. Vi ontem à noite no cine-estúdio do Teatro Campo Alegre. Ri, chorei, arrepiei-me e saí da sala com um enorme sorriso.

Queixume


... e estou farto de trabalhar num sítio onde não se sabe trabalhar, de ter compromissos sem me querer comprometer, de estar preso pelas horas e pelos cabelos, de não me convencer a fazer o que quero, de perceber diariamente a ignorância do mundo...

Oh well, that's life...

Auto-teste (parte 2)

E a mim deu-me o seguinte resultado:

Esquerda/Direita: -5.25
Autoritarismo/Libertarismo: -7.18

Auto-teste

A mim deu-me este resultado:

Esquerda / Direita: -8.62
Autoritarismo / Libertarianismo: -7.90

Bambu science


Fiquei a saber algumas curiosidades sobre bambus. Primeiro, e esta é universal: assim que dá flor, o bambu morre (uma espécie de canto do cisne aplicado ao reino vegetal). Segundo: alguns bambus podem durar várias centenas de anos (nada bate a clorofila!). Terceiro: há uma espécie de bambus que tem uma morte colectiva, ou seja, independentemente do ponto do mundo em que estejam localizados, todos os indivíduos pertencentes a essa estirpe desaparecem, numa espécie de demonstração universal de solidariedade de classe.
A tentação das metáforas é grande. E se estivessemos a falar da da espécie humana?
Anyway, são factos belos per se.

Tecnomundo

Assumo. Sou tecno-handicapado. Meia hora para cada post, um template que já enjoa e no qual não sei mexer, e agora nem imagens consigo adicionar.
Ajuda precisa-se...

"Eu digo não ao não!"


Por vezes, viciados no nosso próprio ponto de vista, deparamo-nos com a realidade e ficamos incrédulos. Tenho consciência de que vivo num meio privilegiado, onde as questões da homofobia já não me afectam directamente há bastante tempo, pelas circunstâncias em que circulo e pela própria postura que fui assumindo em diferentes contextos: pessoal, familiar, laboral, afectivo, etc. Contudo, reconhecer que existem outras realidades não me tem bastado (deve ser lá por aquele bichinho que o José Mário Branco tão bem definiu na música “Inquietação”). Por essas e por outras, e agora que voltei à escolinha, decidi orientar o meu trabalho de investigação para esta área, procurando perceber qual a dimensão do fenómeno da homofobia nas escolas, sobretudo junto do corpo docente. É também este bichinho que poderá ter sido espicaçado com um telefonema a meio da semana a convidar para uma reunião de trabalho para reflectir sobre a possibilidade de formar um grupo de trabalho LGBT na invicta, que procurasse continuar um trabalho já iniciado mas interrompido. Espero ter lido no sorriso esperançoso da Gabriela Moita um doce prenúncio de um projecto a acarinhar.
Infelizmente nestas coisas só consigo ser como o São Tomé...

Trabalho social superstar


Mais uma deslocação a Lisboa, desta vez para mais um encontro transnacional sobre economia social. O meu descrédito e a minha incapacidade para acreditar neste tipo de trabalho aumentam a olhos vistos, de encontro para encontro. É como se os técnicos dos projectos vivessem numa espécie de circuito de auto-celebração, a louvar com pancadinhas nas costas (e aprovação de mais projectos) os seus próprios "sucessos". Bem sei que é uma batalha dura e que o adversário é descomunal, que lutar dentro da sociedade civil por soluções alternativas à economia global é algo que devo sempre defender... mas não a todo o custo. Parecemos incapazes de reconhecer os insucessos, e a própria fadiga das dinâmicas nos tolhe a criatividade para procurar alternativas. Como alguém dizia neste seminário, onde foi apresentada a criação de mais um observatório social, desta feita virtual: "qualquer dia temos mais observatórios do que observados"! A verdade é que já dispomos de estruturas, públicas e civis, que pura e simplesmente não são utilizadas. Há aqui também uma espécie de cegueira tecnicista, um tanto ou quanto arrogante, que me faz sempre suspeitar que o discurso do empowerment das populações-alvo das intervenções sociais não passa de um adorno linguístico. Nunca me conseguiram provar que as soluções já estão todas pré-definidas, e ninguém resiste à tentação de pensar que descobriu a panaceia para todos os males. E mais, ninguém refere sequer o próprio interesse dos sujeitos deste trabalho. Ou seja, se existem respostas disponíveis e se as pessoas não aderem... o problema está nas pessoas?

Inquietações culturais

Por muito redundante que me possa parecer a mim próprio escrever sobre as minhas próprias deambulações, mentais e outras, talvez seja engraçado um dia rever tudo isto com o olhar de um outro eu, noutro cruzamento do espaço e tempo. As últimas inquietações mereciam dedicação para me debruçar sobre elas com maior intensidade e sobretudo para delas retirar maior substância.
Primeiro: o livro "Amar não acaba", do Frederico Lourenço conseguiu apagar a impressão negativa de outro livro dele que li, um romance. Aqui é uma pequena mas simpática e pertinente tentativa de auto-biografia. Como todos os auto-retratos, é também um retrato da sociedade durante aquele período, aquele em que o acompanhamos desde a infância ao início da vida adulta.

Inquietação nº 2: "2046", de Wong-Kar-Wai: a valsa lenta continua, realmente desta vez mais fria e calculista, mais congelada nas memórias do personagem do sr. Tony Leung (claro que não é por isso que a presença das mulheres seja menos significativa, todas elas são absolutamente magníficas). Tudo parece caleidoscópico, sentimo-nos imersos num mar de espelhos. Não é de facto a perfeição do anterior, e a melodia a que o realizador nos habituou é quebrada a espaços por harmonias dissonantes, mas... talvez isso seja redundante num universo do qual não temos a certeza de termos saído no final do filme.

Inquietação nº 3: Bertolt Brecht revisto, versão teatro de Barcelona no Rivoli. A peça: Santa Joana dos Matadouros, numa encenação a meu ver não muito feliz, com uma overdose de elementos multimédia a quererem à viva força trazer para o presente um texto que é actual pelo próprio conteúdo das suas palavras. Detesto quando os encenadores nos querem explicar tudo, como se nos achassem já tão anestesiados que fossemos incapazes de pensar sozinhos...

O declínio do império

Nestes tempos em que os afazeres nos engolem os gestos, em que uma fantasia de delírio pós-modernista chamada Natal toma conta do país e em que um governo faz-de-conta finalmente é desmascarado, estar com os amigos, em diferentes ritmos e quantidades parece ser a melhor prescrição para uma vida mais protegida desta promessa de apocalipse.

Incredible!


Talvez seja implicação minha, e contra mim falo, que até sou fã dos filmes da Pixar (e não é isto que seguramente me vai afastar do seu cinema), mas dei comigo em considerações filosóficas logo pela manhã, quando iniciava uma das minhas actividades preferidas naquele limbo a que chamamos despertar: comer leite com flocos e ler as embalagens, hoje em dia pródigas em profusões de pormenores e informações coloridas. Desta vez cruzei-me com a promoção do The Incredibles, o que incluia a promessa de novos brinquedos, filhos do imaginário merchandising que hoje nos reservam o interior destas caixinhas de cartão. Uma descrição breve das personagens do filme despoletou a crise: não é que, mais uma vez, temos uma história com uma família tradicional no centro? Dirão: sim, mas esta será tudo menos convencional! Vamos então aos super poderes que os distinguem do comum dos mortais: o pai - personagem principal (pasme-se!) - poder: a força! A mulher, como convém, distingue-se pela sua extraordinária... agilidade e elasticidade! Os filhos: ele, super rápido (como convém), e a rapariga é capaz da mirabolante proesa de... tornar-se invisível!! É impressão minha ou temos aqui o papeis sociais vestidos de mito? Nada de espantar, se calhar, se considerarmos o panorama cinematográfico actual (especialmente o norte-americano). Mas se pensarmos, por um lado, na capacidade que a Pixar tem demonstrado em se colocar do lado de personagens de alguma forma desenquadradas e relembrando o poder dos media no processo de desenvolvimento psicosexual, por via da modelagem, das crianças e adolescentes... há qualquer coisa de perturbadoramente anacrónico nesta abordagem. A não ser que (e o facto é que ainda não vi o filme) a Pixar tenha sido capaz de brincar com os estereótipos e se lançar numa via de auto-ironia...
It just makes me wonder...

Nas noites frias...


É assim que temos passado as últimas noites, por baixo do edredon quentinho da nossa cama e na companhia destas simpáticas pessoas... Graças ao Pedro e aos seus mágicos downloads, estamos a conseguir ver alguns episódios da série "Queer as Folk"! Que vontade de ver a série toda!!

O amor científico


A ciência nunca teve (e não o tem seguramente agora) pejo de entrar no corpo pela sua orgânica, e aí não nos poupou à descrição minuciosa dos fluídos, dos órgãos, das células, ou, mais recentemente, dos códigos genéticos. Mas quando se retoma o corpo como veículo da alma e das suas emoções, aquilo que nos transporta de um a outro é matéria na qual a ciência tem, prosaicamente discursando, atolado. Se retirarmos algumas esforçadas tentativas de esmiuçar o dilema (como a de Descartes no célebre Tratado das Paixões da Alma), o que temos é um reinado onde, entre outras, as coisas do amor não entram, ou, se quisermos, entram pela porta das normas e dos regulamentos sociais, neles se deixando banhar, provocando a submersão do corpo como objecto de desejo, e a sua emersão como mero objecto de estudo e controle anatómico, psicológico ou social. É este ainda o ponto da situação, em pleno início de milénio, e nele derraparemos até que corpo e ciência ganhem coragem para se olhar nos olhos e confiar no futuro, com paixão na razão e razão na paixão, misturando e dissolvendo, entre outras coisas, as barreiras que as têm separado.

A 7ª arte na Invicta


Águia D'Ouro, Batalha, Sala Bebé, Pedro Cem, Passos Manuel, Estúdio Foco, Lumiére, Trindade, Cinema do Terço... É grande a lista de salas de cinema que nos últimos anos fecharam no Porto. Os cinemas de rua deram lugar aos multiplexes dos shoppings da periferia, às pipocas e aos filmes-padrão hollywoodescos. Aos poucos o cinema independente, "alternativo", foi perdendo lugar neste mercado, aparecendo hoje em dia nos cinemas da Medeia e em ciclos temporários. Quando iremos ver uma extensão da programação da Cinemateca Portuguesa ao norte do país?
Longe vão os tempos os quais o cinema tinha um peso importante na cidade; bom exemplo dessa importância era a produção cinematográfica dos estúdios Invicta Film.
Será um bom prenúncio a reabertura do Passos Manuel ou a recente programação do cine-estúdio do Teatro do Campo Alegre?

O grande teatro do mundo (parte 2)

De referir ainda que estas peças que fomos ver ontem fazem parte da programação da 4ª edição do PoNTI – Porto. Natal. Teatro. Internacional. Este ano coincide com a organização do XIII Festival da União dos Teatros da Europa. Como o Major Tom comentou comigo, isto equivale à organização do Euro 2004 mas na área teatral. :)

O grande teatro do mundo

Regresso ao teatro. Acertada a minha intuição. Valeu a pena escolher esta apresentação 'dois em um' de dois textos fortíssimos: Die Glasmeagerie do americano Tennessee Williams (já adaptado ao cinema pelo Paul Newman)...

... e outro da outsider (cada vez mais in) Sara Kane - Zerbombt.

Dois pequenos tratados sobre a natureza humana, duas lições de entrega teatral no belo cenário da Helena Sá e Costa, pela companhia alemã Schauspielfrankfurt (e é bom reencontrar a Micas nestes acasos, também ela a preparar-se para a temporada com outra peça no São João, novamente com o charmoso João Reis).

Presente!

Parece que uma semana fora me desabituou da escrita. Talvez seja a própria vida a dizer-me que tenho que a agarrar com unhas e dentes, sem condescendência. Naturalmente, acabo por reequacionar novamente o papel deste espaço. Novidades: após um período ausente, lá acabo por conseguir assistir às minhas primeiras aulas de mestrado (fiquei a saber que tinham colocado a hipótese da minha desistência). Professores e conteúdos entusiasmantes, coleguinhas participativos e experientes, e, acima de tudo, sentir-me intelectualmente reestimulado. Só agora me apercebo como o meu cérebro agradece este tipo de massagem.

Frio, sol e cerejas

Como gosto destes dias de Inverno, com muito frio, mas repletos de sol! Apetece passar a tarde a caminhar e sentir aquele friozinho na cara e depois passar a noite à volta de uma lareira, a comer e conversar com os amigos.
Por falar de frio, vejam o que recebi esta semana na minha caixa de correio:

Cerejeiras congeladas!

Alguém sabe onde posso ver um espectáculo destes? É lindo!

"We'll always have Paris"

Em mais uma corrida com esta bela luz de Outono, chapinhando nas folhas secas do parque, ia pensando no efeito que este périplo por terras de França teve em mim. Talvez seja demasiado cedo para o perceber, estas coisas precisam do seu tempo para encontrar um lugar na nossa caixinhas de memórias, aquelas às quais regressamos quando nos surgem dúvidas sobre o que fazemos aqui afinal. Seja como for, a impressão que tanto o mundo rural da Borgonha como o urbanismo esmagador e sofisticado de Paris me causou não podia ter sido mais forte. Em Macon, pontos altos: visitar a produção de sabonetes feitos com leite de burra, cujas qualidades terapêuticas foram magistralmente explicadas pela simpática Julie; as danças tradicionais da região do Lang-Doc, na qual participaram todos os parceiros italianos, franceses e portugueses do encontro transnacional.

Findo o Seminário, experimentei o eficientíssimo (e caríssimo) TGV para uma escapadela à capital francesa. Foi bom tê-la partilhado com dois amigos de Turim, que me revelaram alguns dos segredos mais bem guardados da cidade.

Segredos como entrar na intimidade deslumbrante e estranha da livraria Shakespeare, onde vagueam cabeludos de olhar distante, imersos na leitura em cantos caseiros ou entabulando diálogos como este:
"-Does he have a heart?"
"-He does, it's just pumping on the wrong side."
Apercebi-me depois que tinha sido aqui que a Julie Deply reencontrara o Ethan Hawke no filme "Antes do Anoitecer".

Ou percorrer a complexa rede de linhas do metro, dando de caras por todo o lado com perfomances musicais de elevadíssima qualidade (incluindo um grupo de música Rom e um acordeonista a oferecer Bach) ou com cartazes deste género:

A segunda parte da terapia


Impensamento

Não pensar, apenas isso. Será pedir muito pedir o nada?

Vote for Kerry!

É estranho pensar que, qualquer que seja o resultado das eleições norte-americanas, do outro lado da planeta, uma parte considerável do meu futuro vai ser decidida esta noite.

Em nome da fome


Comer é bom! Poucas coisas ultrapassam o simples e primordial prazer de satisfazer a larica e encher o bandulho. Pela manhã, uma rodada de torradas com manteiga, leite fresquinho simples ou sumo de laranja recém espremida, para sossegar o corpo que acorda esfomeado (sim, pertenço a essa parte da humanidade, ao contrário daqueles que enigmaticamente deambulam horas antes de ouvir o apelo do estômago); uma grande fatia de bolo de amêndoa depois de uma sessão de amor (para os fumadores o caso é diferente...); caprichar no peixe assado com batatas e arroz para o jantar que rondou na cabeça o dia inteiro; trincar, petiscar, lamber, deglutir, cheirar ou devorar, enfim, a celebração dos sentidos que nos salvam por momentos da prisão que é ser-se um animal racional. Pouco animal e muito racional.

La petite mort


Um ex-marinheiro falou-me dos seus anos no mar, de como era bom navegar na costa da Guiné e olhar as estrelas ou fundear na costa dos Açores (enquanto soldados americanos das Lajes abarcavam para engatar os seus grumetes?). Parece que em alturas de tempestade no alto-mar, os barcos da marinha, concebidos para por ali andar mesmo com tanta água de mau presságio a inundar o convés e o pensamento, são incapazes de ir ao fundo. Por mais cambalhotas que dê, o casco volta sempre a ficar para a baixo e a torre de controlo para cima. Depois de uma grande vaga (que pode ultrapassar os doze metros de altura), a proa ascende em direcção ao céu, e depois dobra a onda, iniciando uma descida provocada pelo seu próprio peso. Nesses segundos seguintes, a única coisa que se vê é o mar. Por todo o lado, não se vislumbra outro espaço que não seja o oceano e a sua promessa de abismo.
O orgasmo dos homens é para os franceses 'la petite mort'. Poderá ser isto o seu equivalente naval?





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