Les temps qui changent

Enquanto digeria a leitura do "Ser Igual, Ser Diferente - Encruzilhadas da Identidade", do Ricardo Vieira, era impossível não contaminar com as suas palavras o visionamento do filme escolhido para o Sábado à noite - Os tempos que mudam, o tal do reencontro do par Deneuve/Dépardieu (aqui na foto, com o malogrado François Truffaut, por alturas da estreia do Le Dernier Metro; curiosamente a foto serve no filme como registo de um passado em relação ao qual os personagens reagem; é esse de resto, um dos cernes do filme). O filme emergiu assim com um segundo nível de leitura totalmente inesperado, mas certamente intencional, onde o eixo de interpretação reside no confronto de duas culturas - a francesa e a marroquina. É verdade que todo o filme parece filmado de forma agressiva, movimentos de câmara agitados, uma coluna sonora pejada de ruídos encrespados, animais sanguinários ou sacrificados, quase como se o realizador nos quisessse fazer sentir o desconforto dos personagens. E todos eles representam um ponto que podemos localizar ao longo desse eixo cultural. Retomando as expressões do Ricardo Vieira, estamos perante uma verdadeira paleta multicultural, mas dificilmente intercultural. Não tenhamos ilusões, aqui não existe uma troca, no sentido verdadeiro da palavra. O paradigma parece residir nas duas irmãs gémeas: ambas marroquinas de origem, emigraram para Paris, onde apenas uma continuou, assumindo a cultura de chegada e renegando a de partida (o verdadeiro oblato, segundo a expressão utilizada no livro); a outra irmã regressou a Tânger, onde vive cada vez mais imbricada no islamismo fundamentalista (é uma piada perversa a do realizador, que a coloca a trabalhar num restaurante McDonalds). Apenas Cécile parece em paz com a sua cidade de acolhimento, mas também ela nos revela que não aprendeu a língua local (nem aqui podemos assim falar de uma verdadeira trânsfuga, a personagem intercultural por excelência). Resta-nos o amante do filho, nativo, rei eremita recolhido num castelo abandonado, guardado a sete chaves da invasão do mundo.
Não será seguramente o melhor do Téchiné, que me ofereceu um deslumbrante "Os Juncos Silvestres", há mais de dez anos, mas é reconfortante ver que o cinema ainda pode ser assim. E a Deneuve será sempre obrigatória...
The azorean spirit... (parte II)

Já passaram três semanas desde o nosso regresso e a vontade de voltar é cada vez maior...
A t'shirt do Major Tom

Vejam lá a prenda de aniversário que eu recebi este ano. Uma t-shirt com um desenho criado pelo meu Major Tom e bordado pela minha "sogra"! Foi uma prenda e pêras!! Quando chega o Verão para poder passear com ela? ;) Te quiero cariño!
Fé nas pessoas

A incapacidade para olhar para alguém sem fazer juízos de valor nunca me pareceu mais posta a nú do que sempre que fico a saber em quem em que esse alguém votou no último Domingo. Never more!
A t'shirt do Ian McCuloch

Há quinze anos atrás descobria que o mundo podia ser olhado por um manto negro, urbano, melancólico, infinitamente mais sintonizado com o meu ponto de situação interior da altura. No quarto do Mosca e o Pacheco, a ouvir The Sound, Chameleons, Bauhaus (jamais algo com menos de 10 anos de rodagem, e nunca música que alguma vez passasse numa rádio comercial ou na MTV, suprema heresia) e sobretudo a achar o máximo do cool o irmão mais velho do Daniel, vestido de negro, com olheiras e ar pálido, t'shirt dos Echo & the Bunnymen, lindo de morrer. Do chão e da cama apanhavamos as guitarras, alguém simulava uma bateria com duas baquetas e um pedaço de madeira, ensaiavamos três acordes no baixo... e sonhavamos. "Over the wall..."
A balada de Clint

O último filme de Clint Eastwood parece querer tocar-nos onde raros artistas conseguem, nesse lugar indefinível que nos leva à comoção. Talvez seja aquela ideia de existirem estes seres que atravessam a vida abolutamente determinados a existir, quase como se impelidos por um vento invisível que não soubessem como combater, até se resignarem à sua força. Talvez seja também pelo fascínio e dor que esses mesmos seres provocam à sua passagem. Depois há a questão da fé, ou melhor, da ausência dela, quando apenas restam as pessoas atiradas umas contra as outras pelos desígnios que ninguém escreveu. Para mim a fé reside em qualquer lugar a que chamamos casa, quatro paredes com odores corporais, sons de passos e conversas, ecos, uma tarte de limão 100% natural, um rosto parado a contemplar o Inverno.
Seja como for, por este andar, não saberei que palavras se vão colar à obra deste intrigante, embora sempre clássico, autor. Para o Million Dollar Baby, só me vinha à cabeça uma: crepuscular.
Crescer é...

... aperceber-me que dantes achava que todos os que encontrava no meu caminho eram maus até prova em contrário (ai, o cepticismo da adolescência... foi-me bastante útil em variadas ocasiões, e um belo impecilho noutras), e admitir que agora sou alguém que acredita no bom fundo dos outros, até que me dêm um bom motivo para me desiludir. Vem isto a propósito desta onda de amigos que este ano ficam trintões, e onde me incluo. Prós: estou mais à vontade com a minha imagem e auto-conceito global (não há nada tão cruel como os pensamentos de um menino de 20 anos); o equilíbrio entre a ordem e o caos parece mais fácil de alcançar, e nada me diz neste momento que eles não possam caminhar juntos.
Cheira-me que voltarei a este assunto...
The azorean spirit...

É difícil, senão impossível descrever num simples post o pequeno turbilhão de sensações que a viagem aos Açores proporcionou. Contudo, como não há tempo para mais do que esse simples post, fica o registo da paisagem avassaladora, dominada por um verde intenso (ainda não há flores, isso é lá mais para adiante no ano) pintalgado pelas incontornáveis e famosas vaquinhas (das quais fiquei fã: a partir de agora, produtos lácteos, só das ilhas!), a omnipresença do mar como pano de fundo, a magia das lagoas (com destaque para a das Furnas, que serviu como sede paras as nossas campanhas diárias), e a companhia inestimável de um grupo heterogéneo (18 pessoas) mas divertidíssimo, que se irá reunir na próxima sexta-feira num jantar para compilar as fotografias. Curiosidades: não existem açores nos Açores, apenas milhafres; o nome dado aos emigrantes que regressam à terra - os calafões, derivação fonética de californianos; os neologismos luso-americanos: desfrizar (descongelar), blanqueta (cobertor), suela (blusa), entre outras preciosidades. Lugares de eleição: a pequenina mas indescritível poça da beja; Rabo de Peixe, vila piscatória dominada pela pobreza e pelas crianças; Quinta da Água, em frente à lagoa, repleta de histórias, como ter servido como refúgio para um espião nazi.
A descobrir, sem pressas nem preconceitos.
Os de olhos azuis

Seminário de mestrado. Sumário: visionamento e debate em torno do filme Blue Eyed.
Uma senhora nos seus cinquentas, Jane Elliot, de cabelos brancos e olhos de azul penetrante, ensaia perante um grupo de adultos um jogo sobre discriminação, repetindo uma célebre e polémica experiência feita por si própria com crianças, trinta anos antes, numa outra sala de aula. A premissa: a professora informa que, durante um dia, os meninos de olhos azuis serão tratados na escola como seres inferiores, sofrendo como tal todo o tipo de vexação por parte dos colegas e da própria professora. O objectivo: tomar consciência, na pele, da realidade da descriminação, por forma a induzir um comportamento tolerante no futuro. O pano de fundo ideológico é claro: a crença na sala de aula como laboratório social e, sobretudo, na infância como resultado de um conjunto de interacções que induzem uma socialização direccionada intencional ou acidentalmente (o interaccionismo simbólico de George Herbert Mead anda por aqui). O grupo de adultos lá se foi tentando arranjar como podia, resistindo emotivamente às invectivas da inflexível senhora. Nenhuma vez o autor do documentário se lembrou de lhes perguntar o que sentiram. O ponto de vista era uno: Jane Elliot e a sua demanda anti-racista.
Findo o filme, a discussão entre nós não acendeu, cá para mim porque todos gostaríamos de acreditar que os preconceitos e todas as nossas fobias podem ser abatidas, como se um vírus se tratasse, com uma simples vacina, de forma rápida (ainda que dolorosa), ou assim, em jeito de psicodrama.
Que mundo teríamos agora se assim fosse?
"Da vida quero os sinais"
Ó Deus do fado menor
que reinas dentro de mim
faz com que a taça da dor
se encha de um vinho em flor
que mate a sede e o frio
Da vida quero os sinais
de uma gaivota na areia
o aroma dos laranjais
e a morte a quebrar mais
o amor sem eira nem beira
No espelho do que me encante
te fique um sopro de neve
que uma estrela se levante
quando este fado se cante
e a terra me seja leve
Mário Cláudio
(para o Sr. Teixeira. transcrito de ouvido pela voz da Mísia)
Vamos fazer...
... férias de blog pelo menos até quarta-feira.
Encontram-nos lá no meio do Atlântico!
Sabemos que estamos a envelhecer...
... quando encontramos vagos conhecidos por acaso na rua que nos dizem: "poça, estás sempre na mesma!"
Amor pós-moderno
Já não fazia isto há séculos. Apeei-me do trabalho e ao fim da tarde lá fui sozinho ao cinema, para ver o Closer (Perto Demais), um filme que anda a causar alguma discussão na blogaysfera. Não me arrependi: o filme deixou-me num estado meditativo que rareia agora nos meus dias (será que preciso de uma noite de insónias para entrar em contacto com o meu verdadeiro eu?) e revelou-me um texto seco, mas intenso, e uma atriz a seguir com atenção - Natalie Portman (na imagem). Basicamente, fala das relações e da intimidade no novo cenário definido pela modernidade tardia (ou pós modernidade, whatever), ou seja, vale tudo se o resultado final do nosso investimento der um saldo positivo, postas na mesa todas as cartas possíveis. Isso implica ter em conta que na vida nada é uma fatalidade, e o percurso vale enquanto formos felizes, ou acharmos que caminhamos no sentido da felicidade (ou da sua aparência, dá para todos os gostos). Lembrei-me de um outro filme - O Eternal Sunshine of the Spotless Mind - que também lidava com a ideia de intensidade e de eternidade amorosa de uma forma curiosa e, a meu ver, muito válida. Porque não inverter radicalmente as regras do jogo da sedução? A partir de agora, o período do enamoramente serviria para mostrar o pior que temos e somos. Daí para a frente, se resultasse, as coisas só poderiam melhorar... não era?
Insónias filosóficas...
Em noites de insónias (como a última) ponho-me a magicar na vida e coloco tudo em questão, incluindo a minha própria capacidade para trabalhar ou investigar. A sensação em relação à profissão é a de estar acorrentado a uma entidade para toda a vida e isso provoca-me calafrios. Todas as semanas me lanço em novas candidaturas, mas o efeito tem sido nulo. Para quando outro ponto nodal na minha vida, daqueles que nos fazem inflectir o percurso e refrescar os horizontes? Estarei a viver uma ilusão? Deveremos todos aguardar, como me sugeriu um correspondente no msn, pela mudança de governo? Qual o impacto de um programa político na nossa vida pessoal, agora que a vida pessoal dos próprios candidatos parece ser a poeira atirada aos olhos dos eleitores? Aqui ao lado já se respiram novos ares, com a legalização dos matrimónios homossexuais. Estaremos, cá no burgo, a contribuir realmente para a mudança?
Tipos de homens (segundo os informáticos...)
HOMEM INTERNET: - É preciso pagar para lhe ter acesso.
HOMEM VIRUS: - Quando menos esperas instala-se nos teus domínios e vai apoderando-se de todos os teus espaços. Se tentas desinstalá-lo vais perder muitas coisas; se não tentas perdes todas.
HOMEM SERVIDOR: - Está sempre ocupado quando necessitas dele.
HOMEM WINDOWS: - Sabes que tem falhas, mas não podes viver sem ele.
HOMEM EXCEL: - Dizem que faz muitas coisas mas geralmente só o utilizamos para as quatro operações básicas.
HOMEM SCREENSAVER: - Não serve para nada, mas diverte-nos.
HOMEM RAM: - Aquele que esquece tudo logo que se desliga.
HOMEM RATO: - Só funciona quando é arrastado.
HOMEM E-MAIL: - Em cada dez coisas que diz, nove são parvoices.
;)
Fabi e o seu novo AP
E aí Fabi? Meus parabéns pelo teu novo AP!!!! Não tenho carne de charque ou "flocão" mas levo vinho e enchidos bem portugueses! :)
Aqui fica a minha simples homenagem à minha boa amiga e colega de trabalho Fabíola.
P.S. - Eu sei que não tenho "postado" com a regularidade que os leitores deste blog merecem... Eu prometo que vou passar a contar com mais frequência as novidades cá da terra.
Diva Juliane
Podemos não gostar de tudo onde ela decide dar um ar de sua graça, mas já tem sido na mouche vezes suficientes para a lançar decididamente no Olimpo do celulóide (no meu personal best incluo O Fim do Romance, Longe do Paraíso e obviamente as duas colaborações com Paul Thomas Anderson). Aqui, fotografada primeiro pelo Mario Sorrenti...
... e depois pelo Michael Thompson.
(via Resistente Existencial, por sua vez via Esplanar)
Corropios domingueiros
Antes de criar este blog, tínhamos magicado a ideia de criar um outro só sobre viagens, lançando as nossas opiniões e sugestões em relação a tudo o que fosse sendo experimentado (bom, em quase tudo, claro...) nos nossos passeios. Posta de lado a iniciativa, deixo aqui um post perdido desse blog imaginário, relativo ao último Domingo.
Partimos ao fim da manhã, a estrada previa-se fácil e sem horários pré-estabelecidos. Em direcção a Aveiro, depois virando para o Luso, onde paramos para almoçar na acolhedora Pensão Astória (apesar do nome sonante, uma pequena pensão, quase esmagada pelo peso do grande hotel termal mesmo do outro lado da rua). Aí papamos uma deliciosa chanfana à bairrada, seguida de um divinal (em todos os sentidos) toucinho do céu. Fomos fazer a digestão nos jardins do Bussaco (ou Buçaco, conforme as versões encontradas nas placas), pondo as leituras em dia sob um solzinho reparador. No jornal, vários artigos gay-related nos chamaram a atenção (terá sido uma intenção editorial do Público?) Na primeira página, o abjecto, homofóbico e insuportável discurso de Braga do nosso primeiro, já sobejamente constestado, até pelos próprio militantes do partido, que mal vêm a hora de poder escolher outro líder. Na revista, um artigo sobre umas mangas japonesas que retratam relações entre homens - dizem que estão a causar grande furor no oriente (lá sempre trataram das questões de género de uma forma mais aberta) e agora no ocidente. Para completar, destaque para uma biografia sobre Abraham Lincoln, onde se desvenda a sua homossexualidade.
Consolados, avançamos em direcção à Anadia, e paramos na Curia, um belo parque com lago e mais edifícios (oitocentistas?) semi-abandonados, como que vestígios anacrónicos de um tempo de esplendor perdido para sempre. Destaque para o esplendor melancólico do enorme Palace Hotel (na imagem). Aí a sugestão é levar uma bicicleta na bagagem, porque o local é plano e convidativo. O regresso faz-se sem sobressaltos e é rapidinho, a tempo farto de jantar e de outras leituras.
PS: claro que a ideia era ter depois toda a informação bem documentada com os percursos ideais na estrada, quais os recursos necessários bem como toda uma série de outras informações que eu, como desorientado que sou, nunca seria capaz de fornecer (that woul be a job for Venus...).
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
Movido pela curiosidade instalada por uma colega de mestrado (obrigado, Sónia!), espreitei e não larguei enquanto não dei por terminada a leitura deste pequeno livro do Jorge Amado, com o esclarecedor subtítulo - Uma História de Amor. Escrito pelo autor no exílio em Paris, constituiu uma prenda de anos para o seu filho mais velho, João, quando este completava um ano de idade. Trata do amor entre dois seres cujo destino, gravado na lei ancestral da Natureza, ditou que não ficassem juntos. Mas a vontade e o desejo neste pequeno reino animal acabam por dar um ar de sua graça, num melancólico e comovedor final. A ler, para descobrir porque existem estas manhãs com céu azul.
Eu contigo
Há exactamente 27 aninhos nascia a minha musa, que quis o destino que fosse um belo rapaz, o meu Venus as a Boy. Parabéns, belezo!
O eu e tu juntos já o Sérgio Godinho o adivinhara há alguns anos atrás, precisamente nesta letra...
EU CONTIGO
Eu, contigo
eu consigo
fazer o que digo
Eu, contigo
eu não cobro
eu não pago
e eu não devo
Devo dizer-te ao ouvido
eu sem ti
não tem sentido
tem sido
(devo dizer-te ao ouvido)
bem bom
bem bom bem bom
bem mais
do que o que é bom
bem bom bem bom
Rosiska
Intrigado com o seu impressionante currículo, lá me dispus a assistir à conferência de Rosiska Darcy de Oliveira, promovida pelo Instituto Paulo Freire na FPCEUP. Penso que ninguém poderá dizer que foi tempo mal empregue (e esse foi um dos temas mais prementes da comunicação: o uso do tempo nas sociedades contemporâneas). A ilustre e eloquente oradora tentou sensibilizar a plateia para o que considera ser as novas incertezas da educação: o corpo, a família (ou as famílias, com esse 's' que tão radicalmente altera o discurso), o trabalho e o conhecimento.
É necessário instituir uma história do corpo, agora que ele definitavamente saiu da natureza e se instalou na cultura (é mentira senhor Freud: o corpo não é uma fatalidade!): vejam-se as questões da descoincidência sexo/sexualidade; a reivindicação de novas identidades e de 'novos' desejos; a impotência do corpo envelhecido posta em causa; a manipulação genética e a tentação eugénica.
Será que estamos a preparar a juventude para as novas questões? O que estamos a colocar no lugar deixado vazio pelas convicções? A equação produção/consumo=consumo? Essa já provou ser o grande malogro das últimas décadas. Estudos provam que os jovens dão prioridade ao uso do tempo privado em deterimento de um bom salário.
Por outro lado, a tecnologia, esse processo imparável, deveria ser vista como algo de bom, que nos restituísse o tempo para uma vida plena. Se tal não acontece, a culpa estará na tecnologia ou na redistribuição? As enormes desigualdades sociais actuais são corrosivas da cidadania planetária, estão a levar-nos à barbárie. O conhecimento está em combustão permanente, como tal, a escola deve ser o espaço onde se aprende a aprender.
O indivíduo sozinho é um monstro. Na verdade somos todos um feixe de vínculos ("Je est un outre", já o disse Rimabaud). A educação deve ser também a prática da liberdade, através da promoção da responsabilização e do pertencimento. É preciso formar para a convivência com o Outro, lutar pela igualdade reconhecendo a diferença, ou seja, instituir uma relação equivalente. Só assim poderemos responder ao momento que vivemos: a fundação do mundo.
Rosiska nalgumas das suas palavras. Não nega a centralidade do passado e do património cultural. Mas o que a inquieta são estas incertezas, e a certeza única de que a educação tem um papel importante a desempenhar.
Falkenau, o impossível
Não viram nada, não ouviram nada, não sentiram nenhum cheiro. Eras estas as palavras dos habitantes de Falkenau, uma pequena aldeia checoslovaca, que viveram durante anos a escassos 15 metros de um dos inúmeros campos de concentração ('campos de trabalho' era a verdadeira designação) onde centenas de pessoas eram torturadas e entregues à fome até à morte. Samuel Fuller, então militar num dos poletões americanos nesse tão próximo Maio de 1965, tinha acabado de receber por correio a encomenda tanto tempo aguardada e enviada pela mãe: uma câmara de filmar de 6mm. O capitão pediu-lhe que registasse a lição que planeara para os aldeões. Sob um clima de 'tensão insuportável', obrigou-os a assistir ao ritual de exposição dos cadáveres definhados, que foram então vestidos, de forma a poderem reaver um pouco da dignidade perdida. Lentamente, a caravana fúnebre pô-se em marcha e atravessou toda a aldeia em direcção ao cemitério, onde os corpos foram enterrados pelos próprios homens que nada sabiam, que nada haviam visto.
A preservação da memória abriga estes momentos, e nada poderá justificar a mentira que é afirmar que nada disto existiu.
White folia!
Absolutamente animal a energia deste duo imparável. Ontem lá se foram os planos de estudo, vidrado que fiquei no concerto que apanhei em pleno zapping. Não matava, mas faria quase tudo o resto por estar assim tão perto do meu guitar hero para o novo século. Dum dum dum dum dum...
Um tubarão morto
Um pequeno post apenas por respeito às pessoas que intencional ou acidentalmente têm vindo parar à Orquídea e vêm isto assim tão quedo: não, não fomos passar férias à Austrália nem partimos para fazer voluntariado na Tailândia. Simplesmente, a vida é feita de prioridades flutuantes (uma espécie de casamento, como falavam ontem dois personagens do Six Feet Under, entre uma série de acasos que têm que acontecer e a nossa própria capacidade de fazer opções, visão que não deixa de estar estranhamente perto daquilo que o teórico da Terceira Via, Anthony Giddens, chama de Estruturação, ou seja: agimos dentro de estruturas que nos pré-existem, mas agimos, e como tal também somos estruturantes, contribuímos para a mudança, mesmo que aparentemente a entendamos apenas como uma mudança pessoal). As prioridades neste cruzamento espacio-temporal são: o mestrado, o trabalho e tentar ter uma vida mentalmente equilibrada no meio disto e do resto.
Dito isto, tenho que admitir que é uma dor de alma ver isto assim parado, e um blogue (roubando a metáfora ao Woody Allen) é como um tubarão, tem que avançar sempre, caso contrário, o que temos entre mãos é... um tubarão morto. Oh well, that's life...
Major Tom nas cidades
Se é verdade que a impressão que temos dos lugares depende em grande medida do estado de espírito com que mergulhamos neles, assim como da qualidade da companhia ou da falta dela, também não deixa de ser interessante perceber o quanto dos lugares existe quanto não estamos neles, quer seja pela expectativa e antecipação (quem gosta de comprar mapas e guias ou de pesquisar viagens em revistas ou sites sabe o que isso é), quer seja pela memória que permanece um dia, um mês ou anos depois da partida. Vem isto a propósito de um pequeno livro do David Leavitt sobre Florença, cidade onde habitou alguns anos e que nos descreve de forma apaixonada através do eco das suas personagens ao longo da história, com uma insistência particular nos imigrantes anglófonos. Um pequeno tesouro para abrir o apetite de um Verão toscano...
5x2
É o título do último filme do François Ozon. Contra as indicações de um casal amigo (que o viu na versão dobrada italiana, registe-se) lá fomos ver o dito cujo, e confesso que fiquei muito agradavelmente supreendido. Não se trata de louvar um dispositivo narrativo (o filme começa com a última cena da história, em termos cronológicos, seguindo-se outras quatro cenas que vão recuando progressivamente no tempo, até ao momento do encontro e enamoramento) mas sim do aproveitamento sábio que dele é feito. Nalgumas questões acerta na mouche: o problema do compromisso dos casais, a fidelidade ou o modelo imposto de felicidade conjugal. As cenas são intercaladas com músicas do cancioneiro romântico italiano de fim de século (XX), e é impossível não sair da sala a traulitar o Sparring Partners na voz rouca e no piano martelado do Paolo Comte. Premonitória e reveladora é a última imagem, com o ainda casal em fase de flirt a mergulhar no mar onde corriam o risco, conforme foram avisados, de ser levados por correntes perigosas. Para mim, o melhor do moço até à data. Ah, e os actores são fabulosos, com um destaque pessoal para a sempre surpreendente Valeria Bruni-Tedeschi.
Dentro de momentos a vida continua.
De volta às rotinas diárias, depois de uma semana de descanso, longe do Porto, da quadra natalícia, do trânsito, do ruído e dos lugares por onde passamos todos os dias. Cenário: o rio Douro (sempre presente!), a linha de comboio, a casa. Uma semana de leituras, de sorrisos, de danças, de cantigas, de passeios, de descobertas, de abraços, de brincadeiras, de ternuras, de cumplicidades e de regresso à infância. Que melhor maneira para se entrar no novo ano? ;)
Estação: Caldas de Aregos
Numa marcha lenta mas imparável, Aregos vai entrando em cada um de nós. Cruzamos memórias, preocupações e sonhos em brincadeiras junto à lareira ou em cima da linha de comboio. Fomos chegando e de repente não se percebe como seremos capazes de partir e regressar a outra vida, aquela a que chamamos realidade e onde não se ouve o barulho dos passos no cascalho ou a água da mina a gotejar no tanque.
Agora já só conseguimos olhar para onde existirem cores terra: no mínimo uma laranjeira ou uma parede de lousa a pontuar a paisagem. As conversas fluem e jogamos aos analistas, também sintonizados nos silêncios, como se dirigidos por uma batuta escondida. Estamos sempre com fome. O corpo relaxa todos os seus músculos, estende-se ao Sol e até se deleita com o frio. Apetece não acordar, continuar a dançar e acreditar em fantasmas.
Greetings from Major Tom
Não é que fosse segredo, mas finalmente decidi revelar a minha verdadeira identidade. A todos os que aqui pararem: que o Natal não seja tão mau como da última vez e que consigam atravessar toda a quadra com alguma réstia de sanidade mental, para nos voltarmos tod@s a encontrar por estas bandas depois da tempestade, são os votos muy sinceros do vosso Major, prestes a embarcar numa nova aventura nas margens do rio Minho (pelo menos até amanhã).
A bientôt!
Votos para 2005
Segundo um artigo recente que saiu na revista "Pública", eis algumas das razões para se praticar sexo:
- É um exercício, logo, bom para a saúde;
- (...) exerce efeito sobre a líbido e leva ao desejo por mais sexo, portanto, à prática de mais exercício;
- Diminui os níveis de stress e ansiedade;
- Gasta calorias (...);
- Contribui para a diminuição de dores de cabeça e dores nas articulações;
- Baixa os níveis de mau colesterol (LDL) e aumenta os níveis de bom colesterol (HDL) (...);
- Aumenta os níveis de oxigénio nas células;
- Ajuda a manter a próstata saudável (...);
- Beneficia o sistema imunitário e cardiovascular feminino (...);
- Fortalece os músculos (...).
Uma vez que vou passar uma semana de férias sem acesso à net, completamente afastado das novas tecnologias, aqui ficam os meus votos para 2005. Espero que sejam todos muito saudáveis e pratiquem muuuuuuiiiiito sexo! ;)

