Auto-citação


O projecto da escola surge profundamente relacionado com o projecto da Modernidade, na medida em que dele resulta e para ele contribui. Sendo a modernidade um projecto essencialmente marcado pela visão falocêntrica e heterossexual, fruto das lógicas que o precedem, é possível perceber a forma como os papeis de género e as identidades sexuais se foram cristalizando em todas as instâncias educativas, obliterando literalmente qualquer possibilidade de emergência de lógicas identitárias alternativas (basta pensar na centralidade assumida pela família tradicional na sustentação da funcionalidade deste sistema).

PS: são parágrafos assim que tenho andado a tentar passar para o papel, ainda em bruto, sem qualquer trabalho por cima; depois é só reescrever, deitar fora, colar, incluir fontes e citações, comparar...

La Mangano


E finalmente, graças ao prostramento físico de sexta-feira, consigo ver um filme sossegado em casa: Riso Amaro, com a magnífica Silvana Mangano, senhora de vários atributos (alguns bem à vista na imagem), numa peça fulcral do designado neo-realismo italiano, feita por um dos seus mestres - Giuseppe De Santis. 'La Mangano', como lhe chamam carinhosamente os italianos, tornou-se um ícone, e os arrozais nunca mais foram vistos da mesma forma, por causa deste épico em estilo de film noir disfarçado de filme de esquerda (rendo-me ao delírio das classificações).

Fafe e condomínios

Semana atribulada, com algumas novidades a quebrar o quotidiano.
Primeiro, claro está, o nascimento da Francisca, que já foi notícia cá na Orquídea.
Depois, o início da itinerância ao núcleo de Fafe, para onde me vou deslocar uma vez por semana para tentar perceber a ansiedade com que me aguardam 45 adultos à espera de vida diferente (é só uma certificação escolar, mas sou aguardado como um messias); a experiência torna-se ainda mais sui generis por ter o tempo racionado, e por estar confinado a uma sala raquítica, onde nos acotovelamos e respiramos uns para cima dos outros; para somar, as sessões terminam bem para lá das 23h, o que, feitas as contas, impede que esteja em casa são e salvo antes da uma hora!
Mais: assisti à primeira reunião de condomínio, para a qual nem uma série de avisos e confidências de outros proprietários me podiam preparar; a sessão decorre com 5 presentes (deveriam ser catorze), e como a coisa não andava, voluntariei-me para fazer o que fosse preciso em colaboração com o vizinho de cima. Só me faltava mais esta: para tentar provar a mim próprio que tenho competências de cidadania, embrulho-me ainda mais em compromissos. Boa, major...

A Lua de fraque: Tuxedomoon em Famalicão


Parecia imperdível, e os senhores não se fizeram por rogados, superando as expectativas com um concerto excepcional. A sala não era o ambiente mais adequado; imagina-se mais rapidamente este espectáculo num bar do que no grande anfiteatro da Casa das Artes de Famalicão. Foram poucos os clássicos, dado que a digressão se baseia no último álbum, "Cabin in the sky", editado após longos anos de interregno de estúdio. Ao vivo, os Tuxedomoon são como os imaginara: dandys, virtuosos, provocadores, experimentais. É sempre bom ver o nosso passado assim validado de forma tão categórica.

Boas vindas, Francisca!

Este é um post de boas vindas, para uma menina que ainda não sabe ler o mundo, mas que começou hoje a aprender. Parabéns Jó e Rui! Parabéns Francisca!

"Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E a mãe do seu irmão
Minha mãe e eu
Meus irmãos e eu
E os pais da sua mãe
E a irmã da sua mãe
Lhe damos as boas-vindas
Boas-vindas, boas-vindas
Venha conhecer a vida
Eu digo que ela é gostosa
Tem o sol e tem a lua
Tem o medo e tem a rosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a noite e tem o dia
A poesia e tem a prosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a morte e tem o amor
E tem o mote e tem a glosa
Eu digo que ela é gostosa
Eu digo que ela é gostosa
Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E o irmão da sua mãe "
Caetano Veloso

PS: obrigado, ´Que eu seja ceguinha', pela notícia!

China Boom


A minha patroa (a do trabalho, que cá em casa não usamos dessas coisas) foi à China. Não é daquelas expressões que usamos quando queremos exprimir um exagero ou desconhecimento, tipo: 'isso para mim é chinês' ou 'isso fica praí na China!'. Não, a senhora foi mesmo à China, e relatou-me em primeira mão as suas impressões. Impressão número um: muita miséria, muita probreza (não é de admirar, a minha boss é assistente social, o olhar está viciado à partida); impressão número dois: há milhões de pessoas por todo o lado, mesmo que te garantam a pés juntos que estás numa cidade pequenina. Ela acabou por trazer no avião a vontade de se isolar numa encosta deserta em Trás-os-Montes. Interessante a coincidência: no mesmo dia (8 de Abril)tinha lido o editorial do José Manuel Fernandes no Público, em que debatia sobre a necessidade da Europa não se fechar enquanto mercado aos produtos chineses, mesmo reconhecendo o seu impacto nos sistemas produtivos do velho continente (basta pensar na agonia dos têxteis portugueses e nas senhoras que todos os dias me vêm parar às mãos à procura de emprego e de esperança). Sugeria JMF como moeda de troca a democratização do colosso chinês e sublinhava algo que raramente nos ocorre: o boom económico pode tirar muita gente da miséria. Porque é que isso parece tão invisível quando ocorre no outro lado do planeta? Por outro lado, isto não soa um pouco àquela ideologia liberal do mercado como mola de libertação?

Galiza online


Como dificilmente alguém iria acreditar, cá fica a prova fotográfica do dia de praia (praia mesmo, com as peles ao léu, não aquela praia de Inverno, em que só se caminha pela marginal!), no cantinho adorado da Barra, em plena costa galega.

Enquanto fervilhava com o calor e com as ideias para o trabalho da cadeira de Análise Crítica das Teorias da Educação, cuidadosamente registadas num bloco de papel, lá fui brindando à sugestão do meu Venus com uma incontornável Mahou.

Ele há para todos os gostos

"Sideromofilia (Siderodormophilia) - Condição de quem se sente sexualmente excitado com comboios". A definição encontra-se no capítulo intitulado Dicionário de Termos Técnicos do livro "Sexualidade de A a Z", do Psicólogo Nuno Nodin (Bertrand Editora, 2002), obra interessante porque prática e divertida. Destaque para a organização em vários dicionários: Dicionário Geral da Sexualidade, Dicionário de Termos Técnicos e Dicionário de Expressões Populares e Invulgares, onde podemos encontrar pérolas como 'Self service' - alguém se atreve a adivinhar?

Memórias de Celuloide: A Companhia dos Lobos


Poderão estar datados os efeitos especiais, e nem é propriamente uma inovação a ideia de tudo se passar durante um sonho de uma criança. Acontece que essa criança era já um ser sexuado e o desejo começava a despertar na metáfora do lobo mau. Acontece também que na altura em que o vi pela primeira vez nada me parecia tão interessante como o cinema de terror, e era nele que mergulhava ao fim do dia, procurando aquele torpor de que dificilmente me libertava.
Para mim são inolvidáveis as sequências dos encontros de terror erótico com os homens-lobo; os sermões da avozinha (Angela Lansbury, a detective de idade proveta de "Crime, Disse Ela") para a neta tomar cuidado com os homens peludos e com as sobrancelhas unidas (porque alguns são também peludos por dentro); a reencenação do mito do lobisomem, que tanto me fascinava e atemorizava; as pequenas histórias dentro da história, especialmente a famosa sequência do banquete dos aristocratas transformados em lobos e porcos por uma feiticeira proscrita. O filme foi um sucesso num Fantasporto de antanho, e daí para a frente era obrigatório seguir a carreira de Neil Jordan, pontuada com mais algumas pérolas: "O jogo de lágrimas" ou "O Fim do Romance" são bons exemplos. Um tema comum (com excepção do dengoso "Michael Collins"): a recriação da paixão à luz de aparentes 'desvios' à norma (a lista é longa: a carnalidade, as lolitas, a transexualidade, o homoerotismo, o incesto, o adultério...).

Sexo, naturalmente!


É a questão que eu debato com a minha amiga desde que nos conhecemos: será a sexualidade algo imbuído de um pano de fundo biológico, como se a Natureza ditasse ela própria alguns dos nossos comportamentos, ordenando aqui para sentirmos esta atracção e não aquela, por tal respeitar uma ordem na evolução das coisas, ou será ela apenas um reflexo do social, sendo todas as nossas opções, e a própria ideia de desejo, por ele ditadas? É o velho debate entre a perspectiva essencialista (a que vamos associando Roland Barthes, a teoria das espécies de Darwin e a corrente evolucionista) e a perspectiva construtivista, onde, nas conversas acaloradas, ergo a minha barricada. Pelo meio vou pensando naquela boutade que alguém lançou (sou péssimo no respeito pela propriedade intelectual, admito): quando duas pessoas discutem, nenhuma delas deve ter razão. Na mouche coube a leitura, mesmo no dia seguinte a um serão de conversa em torno desta temática, do pequeno livro "Currículo, Género e Sexualidade", de Guacira Lopes Louro, brasileira, editado pela Porto Editora, onde a autora vai reflectindo sobre os cruzamentos entre o ensino e estas questões, de uma forma esclarecedora e fresca. Uma ajuda, quissá, para encontrar um novo rumo neste angustiante mês de definição de projecto de dissertação, uma semana depois de ter descoberto que alguém já estava a fazer o meu trabalho...

Limpezas


Tomamos, finalmente, uma verdadeiramente democrática decisão de casal, há longo tempo maturada e negociada: contratar um empregado de limpeza (digo assim, consciente da estranheza de tentar neutralizar o efeito de género - não posso dizer "mulher a dias" ou "empregada de limpeza" sem reproduzir estes estereótipos e limitar a priori o campo de possibilidades de contratação). A decisão foi difícil: custa dinheiro, e esse é talvez o primeiro ponto para um lar onde outros investimentos têm sido adiados; segundo ponto: somos os dois capazes de desempenhar as tarefas necessárias, e já o temos provado. Por outro lado, esta routine rouba-nos simplesmente demasiado tempo, o tal que sentimos necessidade urgente de investir noutras áreas, e já que time is money, porque não optar por comprar tempo?
Posto isto, quarta-feira cá teremos a Dona Fátinha, recomendada por portas amigas, a tentar provar o que é capaz de fazer com esta sujeira em quatro horitas. Boa sorte!

Buon cumpleanno!

Eu sei que é piroso, mas cada vez que olho para a minha mae, vejo uma mulher cada vez mais bonita e orgulhosa dos seus... cinquenta e oito anos! Faz-me pensar que os estereótipos de género também se combatem aqui, onde ser avó já não é uma ocupação a tempo inteiro, e ganha terreno a vontade de realização profissional e pessoal em todos os seus campos. Também por isso, parabéns mamã! ("... nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...")

Tempo irracional

Tenho andado obcecado com esta sensação de voragem progressiva do tempo, talvez um sintoma comum a todos os que estão prestes a entrar na casa dos 'intas'. É uma dinâmica psicológica que engole nela todas as memórias recentes, esticando e consolidando as mais remotas, pelo retorno recidivo e nostálgico a essa matriz do que somos feitos: a infância.

Post pout pourri


Tentando ainda acalmar o meu corpo à violência que é esta variação de ritmos - de uma Páscoa chuvosa e langorosa no Alentejo para a súbita e constante urgência dos compromissos profissionais e académicos - vou utilizando várias estratégias, que passam por reclamar cá em casa o meu quinhão de carinhos, por pôr em dia a quilometragem das sapatilhas no piso húmido do Parque da Cidade, ou por rodar com força no sentido dos ponteiros do relógio o leitor audio do carro, para ouvir e encenar pérolas como Kate Bush, essa prodigiosa feiticeira das quatro escalas, tão intensamente eighty como anacronicamente bela (só eu é que me lembro da Babooshka?).
Nos entretantos, os prazos para a entrega dos trabalhos da escolinha vão apertando, e todos os outros compromissos se vão proporcionalmente revestindo de maior interesse. Um exemplo? O camião da campanha "Pela diversidade, contra a descriminação", iniciativa da União Europeia, que vai assentar arraiais no Porto no dia 2 de Abril, entre as 11 e as 19h, na Praça Parada Leitão.

Mudar de vida

Não é que um dia destes uma amiga nossa ouviu um lixeiro a cantarolar esta música, enquanto ia varrendo o chão da rua? Não é lindo?! :) Viva o Variações e os Humanos!

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Porto - Marvão - Porto

Acabamos de regressar de uma pausa de três dias por terras do Alto Alentejo. O tempo não estava por aí além mas deu para descansar, para comer bem, para respirar ar puro, pousar os olhos em belas paisagens e recarregar as baterias para os dias de intenso trabalho que se avizinham. Foi bom passear pelas ruelas medievais do Marvão e de Castelo de Vide. Foi óptimo termos conhecido a Quinta da Saimeira, a Casa das Rosas e os anfitriões Michiel e Magreet. Haveremos de lá voltar em dias de calor, para podermos desfrutar da fantástica piscina e do sol que todos nós sabemos. Fica a sensação de ter durado muito pouco. Quando é o próximo fim de semana prolongado?

Gostar de fruta...


... é de homem!

Alguém viu por onde eles andam?

Por onde andam os pirilampos? Recordo-me tê-los visto uma única vez, era eu bem pequeno. Nunca mais vi :(

O rasto de Tarnation


Não me apetece comentar o filme, sugestivo e sentido patchwork de memórias pessoais, apenas o seu efeito, ter-me devolvido à memória a recordação de uma tia que 'estagiou' em minha casa enquanto se submetia diariamente a um 'tratamento' de choques eléctricos. Como criança, a coisa já me assustava, e era desesperante perceber o efeito que isso tinha não apenas na minha tia, embora sobretudo nela, que se transformou naquele período numa espécie de fantasma de corpo inchado, mas também em toda a minha família, que vivia na encruzilhada das prescrições médicas, da resistência da 'doente' ao tratamento (que se explicava, segundo os médicos, pela própria doença), e da nossa própria vontade, nunca assumida, de ver aquele pesadelo terminar o mais rapidamente possível. Talvez nunca tenha conseguido avaliar totalmente o impacto que isto teve no nosso núcleo, na nossa incapacidade para comunicar de uma forma equilibrada. Certamente a medicina, se um dia se dispussesse a ouvir, teria muitas lições a retirar destas pequenas mas brutais histórias de vida.

Legoland


Em época de forte (?) religiosidade, aqui fica um link que ajuda a iluminar as mentes mais hereges :) Onde estarão guardados os meus Legos?

Tarnation.mp3

Esta é para ti minha boa amiga Ju! Se não conseguires ouvir avisa!

Your greatest creation is the life you lead

Mais pertos



"Pelo menos 47 pessoas morreram e 81 outras ficaram feridas, esta quinta-feira, num atentado anti-xiita em Mossul, no norte do Iraque, segundo um novo balanço hospitalar revisto em alta." (TSF Online)

Quantas pessoas já morreram no Iraque? Em que dia se homenageiam estas vítimas?

Memórias de Celulóide: Orphee, de Jean Cocteau


Ainda a meio da minha adolescência, apaixonei-me perdidamente pelo filme, recriação do mito de Orfeu: resumidamente, Orfeu, músico e poeta, apaixona e enfurece com a sua arte os deuses, que como vingança lhe matam Euridice, a sua mulher; inconformado, Orfeu decide descer ao abismo e desafiar a Morte, conseguindo resgatar a sua amada, na condição de não voltar a olhar para ela nunca mais... o que não conseguirá, perdendo-a para todo o sempre. Na versão de Cocteau (e não Clusot, como insistiu três vezes a Luiza Cortesão numa aula), Orfeu, ou melhor, Jean Marais, actor-fétiche e amante do realizador, senhor de dicção perfeita e semblante único, parece ambiguamente atraído pela Morte, interpretada por uma inesquecível Maria Casares, sugerindo uma outra intenção ao trágico desenlace. Claro que a novidade era o toque de Cocteau, na sua reinterpretação do mito à luz da contemporaneidade: a acção passa-se agora nos anos 40 do século XX (daí as belíssimas passagens do reino dos vivos para o reino dos mortos, onde circulam operários alienados no trabalho, indiferentes à sorte dos protagonistas).
Para mim tem o poder de relembrar, a cada visionamento, o poder do cinema como mola de crescimento.
PS: a imagem mostra-nos Orfeu (Jean Marais) contemplando o seu reflexo, como Narciso, e foi reapropriada 40 anos depois para a capa de um álbum dos Smiths, que sempre circularam nestas águas trágicas...

"São vidas, senhor... são vidas..."

E para uma pausa, nada que melhor que... Projecto Life on Board (cada vez mais compreendo as verdadeiras vantagens de ter uma ligação à Internet super-rápida! Viva!!)

Análise sexual


Existem dois tipos de pessoas: as que gostam de fazer amor apenas no momento em que as coisas estão a correr lindamente, quase como prolongamento natural e exponencial do bem estar; e, por outro lado, as que acreditam no sexo como forma de transformar o estado de espírito, recomendável, por tanto, mesmo que o ambiente esteja 'pesado' (ou mais recomendável ainda nesta situação, como válvula de escape). Para uns, portante, a coisa parece resultar DE um bom momento. Para outros, resulta NUM bom momento. Não me parece coincidência que os primeiros sejam maioritariamente mulheres e os segundos maioritariamente homens. Ou será só impressão minha?
PS: de vez em quando uma imagem hetero para também apelar daqui à diversidade...

Olhá competência!


Estou contente. Amanhã certifico mais nove adultos. Bem sei que nestas andanças temos um papel por vezes ingrato: validamos sobretudo as competências que, neste momento, a sociedade, e sobretudo o mundo de trabalho, elege como fundamentais para qualquer cidadão. Poderiam ser estas, mas poderiam ser quaisquer outras, e estou ciente que o meu/nosso esforço por tentar valorizar o que tem sido até agora esquecido por todos, a começar pelos próprios candidatos, nunca é totalmente conseguido: por déficits na troca linguística, por dificuldades mútuas na decifração de códigos individuais, pela necessidade de cumprir metas ou pela urgência que os indivíduos transportam, as barreiras sucedem-se e as pontes revelam rapidamente a sua fragilidade. Mas ocasionalmente os milagres acontecem.
Para quem não está a par, refiro-me ao processo mais conhecido como RVC - Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, que permite a pessoas com mais de 18 anos obter um grau de escolaridade com base num balanço do seu percurso pessoal e profissional. Ainda hoje uma delas me confrontava com esta dificuldade, que consubstancia na perfeição o que eu considero um verdeiro dilema ético: o seu percurso é caracterizado por uma série de experiências de vida tão absolutamente extraordinárias como socialmente questionadas. Desde petiz que se iniciou nos meandros da economia paralela, tendo já adulto vindo a ser preso no Brasil por tráfico de materiais electrónicos. Desde adolescente assume-se como toxicodependente, estando actualmente abstinente. Partilha regularmente a sua vivência em escolas e outras entidades através de ONG's anti-racismo. Uma verdadeira flecha de incorrecção política a desafiar os limites de um processo politicamente correcto.
Olhe, senhor, são vidas!

P.S.: a imagem, obviamente, é do Magritte, e estou grato a uma certa aula onde me relembraram com ele o poder destabilizador da arte.

Cachorro!


Precioso, como diriam nuestros hermanos, é um dos adjectivos que aplicaria a este filme, de Miguel Albaladejo, que dificilmente passará nas salas portuguesas. A história de um rapaz de nove anos que, pelo 'desaparecimento' da mãe acaba por ser deixado ao cuidado do tio, um médico independente e hedonista, residente no conhecido bairro madrileno gay da Chueca, perfeitamente entrosado na sub-comunidade bear, parecia ser o pretexto ideal para mais uma daquelas comédias de situação a la americana. Mas o filme segue por caminhos pouco óbivos, e oferece um retrato humano sobre o que podemos entender como família, sobre a partilha da dor e do crescimento. A questão das novas formas de família, e designadamente da homoparentalidade é apresentada sem pedagogias fáceis e delicodoces: tudo é difícil e agitado, como na vida real acontece com todas as famílias. Se estivessemos num país em que os professores se preocupassem verdadeiramente com o valor da diversidade e da igualdade, seria de projecção obrigatória nas escolas.

Sentido: capital - invicta


De regresso ao Porto, após dois dias de acolhimento animado na capital. Raras vezes me senti assim recebido de forma tão hospitaleira, e confesso que desta cidade essa não costuma ser das minhas primeiras expectativas. É sempre bom sermos supreendidos pela realidade, ver cair por terra e posto a nú o conjunto de evidências em que nos tornamos e em que acriticamente acreditamos. Começa aqui a interculturalidade, nessa disposição para aprender e replicar, dar e receber (“devia ser a nossa forma de viver”, não é, António?).
Kafkiana, a tentativa de encontrar estacionamento a partir da meia noite no Bairro Alto. Simpático e convidativo, o espaço e o atendimento do Centro Comunitário Gay e Lésbico, onde provei a minha primeira... Piña Colada!

De abalada...


... para Lisboa, para um fim de semana de formação. Por esta altura, já quase nem acredito como fui capaz de lançar a mim próprio mais esta facada na minha já de si caótica gestão do tempo. Os horários provocam mais uma noite com débito de horas bem dormidas. Tenho que confiar no café para me aquecer o corpo e a alma, que se preparam para sair ainda de noite para o ar gelado. Aguarda-me uma viagem de comboio e a respectiva promessa de deambulação mental típica dos não-lugares (Marc Augé dixit). Segunda-feira procurarei analisar as consequências...

O gay reproduzido?


A propósito de um texto do Claude Dubar, em que nos fala do Pierre Bourdieu e do seu conceito de habitus, reflectindo sobre o conceito de identidade e sobre as implicações desse conceito na socialização e na educação, continuava a rodar na minha cabeça a ideia de que tudo isto se parece tornar problemático e ainda mais intrigante se estivermos a falar da hipótese da existência de uma identidade homossexual. Acho que foi o Miguel Vale de Almeida que relembrou uma vez, já não sei onde nem quando, que o indivíduo que se identifica como homossexual fá-lo frequentemente num vazio de referências, sem se sustentar em qualquer património anterior nem se apoiar numa comunidade onde se possa identificar. Ou seja, como podemos pensar nestes termos em reprodução identitária? Ela sustentar-se-á tão somente no único ponto que parece surgir como comum - a descriminação? Onde está o guião para este papel?





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