Asexual boys


De acordo com a última Zero, um novo grupo está a surgir, de novo sob a bandeira da identidade sexual. Desta feita, a particularidade é não haver propriamente uma inclinação sexual, mas antes uma reivindicação de ausência de desejo - a assexualidade. Seguramente surgirão adeptos, assim que se aperceberem que não são os únicos no mundo a contentar-se com um cafuné na cabeça (para os interessados, mais informações aqui). Dá que pensar, até porque todos vivemos um pouco a angústia da performance, que resulta da expectativa de corresponder ao que nos querem impor como normal: ter sexo, e do melhor! Ainda de acordo com a revista, o desejo pode efectivamente estar condicionado por uma série de situações conjunturais (não é o caso, os assexuais sempre foram desprovidos de desejo): stress, cansaço, depressão, má alimentação ou ingestão de bebidas alcoólicas ou outras substâncias, medicamentos, you name it! Também podemos estar sujeitos às variações naturais das estações. Mas a verdade é que quando nos aparece uma visão como esta aqui em cima, deve ser difícil lembrar-se de qual era a regra (se nos lembrarmos em que altura do ano estamos já é uma sorte)...
Imagem via Papparazzo

Nozolino em Serralves


Imagens serenas, tristes, melancólicas e muito belas, captadas por um português que percorreu mundo e que são agora exibidas em Serralves. Fui, vi e gostei muito. Recomendo!

Sentido único


E aos cinco anos descobria a diferença. O primeiro sinal: a asma. Não podia correr como via correr toda a petizada da rua. Por muitas ganas que tivesse, o fôlego traía-me a vontade e entrava em sufoco. O segundo sinal veio pouco depois, com a entrada na escola: não é que o lápis só se entendia com a mão esquerda? Ainda tentei, disfarçadamente e por iniciativa própria, fazer como os outros, tão aplicados e destros (ocorreu-me só há pouco esta terrível identificação: escrever com a direita equivale a destreza), mas logo tive que me render, e, no meu primeiro processo de outing, confessei angustiado a minha diferença. Por volta dos treze anos despedi-me de Deus. Tornar-me ateu foi um processo de libertação que ainda não terminou. Deixei de me sentir culpado por me masturbar, mas ainda dou comigo, ao olhar em meu redor, a ser minoritário. Um outro sinal de diferença cresceu com o tempo: ser melómano ou cinéfilo, amar a cultura como se tratasse da própria fonte da vida. Na altura não parecia ser esse o projecto de mais ninguém e também aí me senti em antítese. A homossexualidade só a deixei emergir mais tarde. Ao assumir ser asmático, canhoto, ateu ou homossexual, eu interiorizava a ideia de que não tinha sido feito para este mundo, estava como que em rota de colisão. Só com o tempo me apercebi de todas as outras diferenças que nos distanciam a todos, de uma forma ou outra da norma, que não se diz. Não se fala em não asmáticos, em crentes, destros ou heterossexuais, apenas se presume que as coisas são assim. Talvez isso explique esse ruído promissor que é o de uma estrada que se rasga noutros caminhos, ao lado de uma placa de sentido único.

O concerto de uma geração :)

Quem vem connosco ao concerto dos Humanos, no próximo dia 04 de Julho no Coliseu do Porto? Já estou empolgado!

Hanoi Jane


Pronto, confesso que sempre tive um apreço especial pela senhora. Não é apenas uma consideração artística, é também política, mas liga-se sobretudo à riqueza da personagem como um todo, e pela inteligência de conhecer perfeitamente a sua persona pública. Do altos dos seus 67 anos de idade, não hesita em continuar a mandar bujardas sobre a política imperialista americana, embora admita com a mesma candura que magoou muita gente ao posar junto das tropas vietnamitas no período mais quente da guerra. É impressionante a leveza com que personifica a maior promiscuidade cultural de que há memória: foi a rainha dos vídeos de ginástica caseira e não se faz de rogada para a futilidade do estrelato, mas também foi musa da elite cinematográfica e intelectual europeia (é verdade, nós adoramos apadrinhar as estrelas que caem em desgraça na América), chegando a filmar com Godard e presenteando todos com representações memoráveis. A foto é real e foi tirada numa detenção supostamente equívoca (posse de droga), apesar de muitos desejarem ver a alcunhada de Hanoi Jane nesta posição pelo simples facto de dizer sempre o que pensa e de ter sido uma activista todo o terreno durante toda a sua vida. Lançou agora a sua autobiografia (que deve ser um mimo), onde, entre outros rebuçados, fala da sua luta contra a misoginia interiorizada, que a empurrou sempre na busca da perfeição (e no combate à bulimia), da perfídia do pai (o all american hero Henry Fonda), e da sua recente conversão a uma religião de vedetas (penso que mesmo aqui já está a fazer das suas, ao afirmar que sempre viu Jesus como um feminista). A causa mais recente é a luta contra a gravidez na adolescência. Abram alas, a Jane voltou!

Vá lá, não carregues!

Waiting for the sun


Era assim uma música dos Doors, e resume bastante bem a minha personalidade na maior parte do ano...

God bless America

Life on ice


Num Domingo que prometia ser o mais caseiro e pachorrento dos últimos meses, acabei por me deixar convencer a ir com duas amigas a um mercado de roupa no impressionante edifício da Alfândega do Porto. O projecto não correu bem, tenho vindo a desenvolver um fobia por multidões, e quem me conhece sabe que tenho crises de ansiedade quando entro em lojas (felizmente eu e o Venus temos as mesmas medidas e vou 'herdando' periodicamente algumas peças). Resultado, perdi-me e acabei por fugir, refugiando-me no Café do Cais. Como não havia mais nada disponível, acabei por comprar num quiosque vizinho o último número da National Geographic. Indo ao ponto: divagando mentalmente, ia pensando nos trabalhos para a faculdade, tentando descortinar saídas. Pretender estudar a fundo o percurso de alguém, que é o que me intriga e fascina na meotodologia das histórias de vida, pode revelar-se uma busca surpreendente (ia desfolhando ao mesmo tempo a revista). A sensação poderá ser semelhante à daqueles espeleólogos que, ao investigar com sondas gigantescas as camadas de sedimentação do Ártico, descobriram a prova de que nem sempre aquela paisagem foi assim branca, mas antes um lugar verdejante e aprazível. Até a metáfora da cristalização, do gelo e das identidades, parecia contribuir para o paralelismo. É bom reconhecer que os investigadores, seja porque não encarnam a alma do entrevistado, seja porque não mergulham nas profundezas do Ártico, apenas penetram no objecto parcialmente. Mas não será esse, apesar de tudo, um trabalho imprescindível?

Antes de Stonewall


Para os que já estão por dentro, Stonewall evoca logo o acontecimento: em 1969, um bar gay nova-iorquino, precisamente com este nome foi o cenário de uma revolta espectacular contras as forças policiais que frequentemente realizavam rusgas ao local (rezam as crónicas que a arma de arremesso mais utilizada foram sapatos de salto alto!). O impacto foi tal, dentro e fora da comunidade, que a data passou a ser celebrada anualmente, sempre no dia do acontecimento: 28 de Junho. O gay pride espalhou-se progressivamente por vários países, e actualmente é assinalado numa boa parte do mundo, incluindo Lisboa.
Hoje à noite, no Pinguim, bar portuense sito na Ruo do Belomonte (perto do Mercado Ferreira Borges), passa o documentário Before Stonewall, que pinta um retrato dos primeiros passos no activismo neste campo. Guardem lugar para o Major Tom!
PS: a iniciativa é do recém-constituído GRIP - Grupo de Reflexão e Intervenção no Porto (irá aparecer pela orquídea mais vezes), em colaboração com a Cinema Invisível.

Pink Pingouin

Sem nada para fazer nas próximas 6as feiras e domingos à noite? Ora vejam aqui as sugestões cinéfilas trazidas pelo Grip em parceria com o Bar Pinguim.

O palimpsesto das utopias


Procurar um rumo para a educação que melhor se ajuste às realidades sociais tem resultado frequentemente numa busca inglória. Querendo encontrar na escola um espelho dessa realidade, acabamos por nos deparar antes com um reflexo distorcido, onde adivinhamos vários monstros escondidos: a injustiça, a ambição, o individualismo, a meritocracia, ou a ganância. Em cada nova tentativa, temos visto as expectativas frustradas, ao ponto de dificilmente conseguirmos acreditar de novo numa mudança. Mas terá que ser sempre assim? Não haverá, neste palimpsesto de utopias educativas, ainda que reciclado e filtrado pelo presente, um rumo que nos sirva?
(imagem: Mark Rothko: "Blue and grey")

T de LGBT

One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful woman.
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful girl.
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful woman.
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful girl.

But for today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.

One day I’ll grow up, I’ll feel the power in me.
One day I’ll grow up, of this I’m sure.
One day I’ll grow up, I know whom within me.
One day I’ll grow up, feel it full and pure.

But for today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.

For today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.
For today I am a child, for today I am a boy.


(Antony)

Depois da aprovação do casamento entre homossexuais, o Governo espanhol prepare-se para acabar com mais uma discriminação. Desta vez será o T da luta LGBT que deverá cantar vitória!

O homem mistério

O homem mistério já foi várias pessoas na sua vida, mas está indeciso em relação a qual delas se aproximava do seu mais verdadeiro ser. Também não está certo acerca do que é que isso quer dizer, pois o mistério rodeia a sua vida e penetrou na sua alma. O homem mistério joga e brinca com a sua imagem quando está com os outros, mas em raros momentos baixa a guarda e confessa não ter pátria, nem família, nem identidade. Não está seguro se isso é uma coisa má, mas algo lhe diz que deve continuar à procura. O homem mistério às vezes volta a ser criança, quando se esquece ou quando simplesmente se cansa de jogar aos adultos. Nessas alturas, parece encontrar o que buscava, mas o presente parece um líquido que se escoa entre os dedos, ficando apenas no corpo a marca fugaz da experiência. O homem mistério não quer enxugar as mãos, para não se esquecer, e para voltar a encontrar esse caminho por onde andou.

Quem fala assim...


- O livro é uma força, uma força de arrasto. Um futuro. Uma metamorfose da consciência. E o livro possui um poder que pode chegar, inclusive, ao crime.(...) é como uma máquina de realidade virtual. E quero que o livro seja capaz de reproduzir o que produz o cinema ou os videojogos: levar o leitor, metê-lo.

- Pôr a fronteira ou o limite (entre a loucura e a sanidade), saber quando estamos de um lado ou quando estamos do outro é um momento difícil, demasiado complexo. o cérebro não actua dessa maneira, move-se por impulsos. (...) Não creio que estar louco seja estar mal. Há um tipo de loucura que é positivo.

- Quando temos a morte por perto temos de reflectir sobre ela, para afirmar a vida. A única possibilidade que tens de afirmar a vida é pensar permanentemente na morte.

- Não conseguimos construir relações afectivas na velocidade do nosso tempo. A velocidade do supermercado, quando consomes, a velocidade de quando fazes zapping na televisão, a velocidade dos jogos de vídeo, a velocidade da informação, do trânsito numa avenida, a velocidade do metro numa cidade grande, múltiplos destinos, múltiplas informações, semáforoos, verde, amarelo, vermelho e, de repente, queres que, no campo dos afectos, tudo esteja quiero, impassível. Que tudo seja paradisíaco. Que tudo seja belo, como um ilha onde nada sucede e estamos eu e tu até ao fim da eternidade.(...) Somos felizes sim, mas momentaneamente. Cedo ou tarde, o tempo passa-nos a factura.


... é Mario Mendoza, numa entrevista ao Público num já distante dia do pai (suplemento Mil Folhas), a propósito da edição portuguesa do seu novo romance, sugestivamente intitulado "Satanás". Pelo aperitivo, deve ser uma refeição pantagruélica...
PS: desenho by Major Tom productions Lda

Península itálica em polvorosa


Boas e más notícias de terras transalpinas. Por um lado, a previsível decisão da alta hierarquia católica, que não faz mais do que confirmar nesta escolha uma atitude de conservadorismo, resposta à ameaça que constituem para si os novos tempos (vai ser interessante perceber a forma como este Papa se irá 'beatificar' aos olhos dos católicos, sobretudo aqueles que estão a olhar com desconfiança para esta decisão). Por outro, a insanidade do sistema político italiano actual, que parece dar sinais de estertor final. Estes italianos, contudo, já provaram ser completamente imprevisíveis em termos eleitorais. Já marchava um novo filme do Nanni Moretti para os ajudar a encontrar o caminho...

Auto-citação


O projecto da escola surge profundamente relacionado com o projecto da Modernidade, na medida em que dele resulta e para ele contribui. Sendo a modernidade um projecto essencialmente marcado pela visão falocêntrica e heterossexual, fruto das lógicas que o precedem, é possível perceber a forma como os papeis de género e as identidades sexuais se foram cristalizando em todas as instâncias educativas, obliterando literalmente qualquer possibilidade de emergência de lógicas identitárias alternativas (basta pensar na centralidade assumida pela família tradicional na sustentação da funcionalidade deste sistema).

PS: são parágrafos assim que tenho andado a tentar passar para o papel, ainda em bruto, sem qualquer trabalho por cima; depois é só reescrever, deitar fora, colar, incluir fontes e citações, comparar...

La Mangano


E finalmente, graças ao prostramento físico de sexta-feira, consigo ver um filme sossegado em casa: Riso Amaro, com a magnífica Silvana Mangano, senhora de vários atributos (alguns bem à vista na imagem), numa peça fulcral do designado neo-realismo italiano, feita por um dos seus mestres - Giuseppe De Santis. 'La Mangano', como lhe chamam carinhosamente os italianos, tornou-se um ícone, e os arrozais nunca mais foram vistos da mesma forma, por causa deste épico em estilo de film noir disfarçado de filme de esquerda (rendo-me ao delírio das classificações).

Fafe e condomínios

Semana atribulada, com algumas novidades a quebrar o quotidiano.
Primeiro, claro está, o nascimento da Francisca, que já foi notícia cá na Orquídea.
Depois, o início da itinerância ao núcleo de Fafe, para onde me vou deslocar uma vez por semana para tentar perceber a ansiedade com que me aguardam 45 adultos à espera de vida diferente (é só uma certificação escolar, mas sou aguardado como um messias); a experiência torna-se ainda mais sui generis por ter o tempo racionado, e por estar confinado a uma sala raquítica, onde nos acotovelamos e respiramos uns para cima dos outros; para somar, as sessões terminam bem para lá das 23h, o que, feitas as contas, impede que esteja em casa são e salvo antes da uma hora!
Mais: assisti à primeira reunião de condomínio, para a qual nem uma série de avisos e confidências de outros proprietários me podiam preparar; a sessão decorre com 5 presentes (deveriam ser catorze), e como a coisa não andava, voluntariei-me para fazer o que fosse preciso em colaboração com o vizinho de cima. Só me faltava mais esta: para tentar provar a mim próprio que tenho competências de cidadania, embrulho-me ainda mais em compromissos. Boa, major...

A Lua de fraque: Tuxedomoon em Famalicão


Parecia imperdível, e os senhores não se fizeram por rogados, superando as expectativas com um concerto excepcional. A sala não era o ambiente mais adequado; imagina-se mais rapidamente este espectáculo num bar do que no grande anfiteatro da Casa das Artes de Famalicão. Foram poucos os clássicos, dado que a digressão se baseia no último álbum, "Cabin in the sky", editado após longos anos de interregno de estúdio. Ao vivo, os Tuxedomoon são como os imaginara: dandys, virtuosos, provocadores, experimentais. É sempre bom ver o nosso passado assim validado de forma tão categórica.

Boas vindas, Francisca!

Este é um post de boas vindas, para uma menina que ainda não sabe ler o mundo, mas que começou hoje a aprender. Parabéns Jó e Rui! Parabéns Francisca!

"Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E a mãe do seu irmão
Minha mãe e eu
Meus irmãos e eu
E os pais da sua mãe
E a irmã da sua mãe
Lhe damos as boas-vindas
Boas-vindas, boas-vindas
Venha conhecer a vida
Eu digo que ela é gostosa
Tem o sol e tem a lua
Tem o medo e tem a rosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a noite e tem o dia
A poesia e tem a prosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a morte e tem o amor
E tem o mote e tem a glosa
Eu digo que ela é gostosa
Eu digo que ela é gostosa
Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E o irmão da sua mãe "
Caetano Veloso

PS: obrigado, ´Que eu seja ceguinha', pela notícia!

China Boom


A minha patroa (a do trabalho, que cá em casa não usamos dessas coisas) foi à China. Não é daquelas expressões que usamos quando queremos exprimir um exagero ou desconhecimento, tipo: 'isso para mim é chinês' ou 'isso fica praí na China!'. Não, a senhora foi mesmo à China, e relatou-me em primeira mão as suas impressões. Impressão número um: muita miséria, muita probreza (não é de admirar, a minha boss é assistente social, o olhar está viciado à partida); impressão número dois: há milhões de pessoas por todo o lado, mesmo que te garantam a pés juntos que estás numa cidade pequenina. Ela acabou por trazer no avião a vontade de se isolar numa encosta deserta em Trás-os-Montes. Interessante a coincidência: no mesmo dia (8 de Abril)tinha lido o editorial do José Manuel Fernandes no Público, em que debatia sobre a necessidade da Europa não se fechar enquanto mercado aos produtos chineses, mesmo reconhecendo o seu impacto nos sistemas produtivos do velho continente (basta pensar na agonia dos têxteis portugueses e nas senhoras que todos os dias me vêm parar às mãos à procura de emprego e de esperança). Sugeria JMF como moeda de troca a democratização do colosso chinês e sublinhava algo que raramente nos ocorre: o boom económico pode tirar muita gente da miséria. Porque é que isso parece tão invisível quando ocorre no outro lado do planeta? Por outro lado, isto não soa um pouco àquela ideologia liberal do mercado como mola de libertação?

Galiza online


Como dificilmente alguém iria acreditar, cá fica a prova fotográfica do dia de praia (praia mesmo, com as peles ao léu, não aquela praia de Inverno, em que só se caminha pela marginal!), no cantinho adorado da Barra, em plena costa galega.

Enquanto fervilhava com o calor e com as ideias para o trabalho da cadeira de Análise Crítica das Teorias da Educação, cuidadosamente registadas num bloco de papel, lá fui brindando à sugestão do meu Venus com uma incontornável Mahou.

Ele há para todos os gostos

"Sideromofilia (Siderodormophilia) - Condição de quem se sente sexualmente excitado com comboios". A definição encontra-se no capítulo intitulado Dicionário de Termos Técnicos do livro "Sexualidade de A a Z", do Psicólogo Nuno Nodin (Bertrand Editora, 2002), obra interessante porque prática e divertida. Destaque para a organização em vários dicionários: Dicionário Geral da Sexualidade, Dicionário de Termos Técnicos e Dicionário de Expressões Populares e Invulgares, onde podemos encontrar pérolas como 'Self service' - alguém se atreve a adivinhar?

Memórias de Celuloide: A Companhia dos Lobos


Poderão estar datados os efeitos especiais, e nem é propriamente uma inovação a ideia de tudo se passar durante um sonho de uma criança. Acontece que essa criança era já um ser sexuado e o desejo começava a despertar na metáfora do lobo mau. Acontece também que na altura em que o vi pela primeira vez nada me parecia tão interessante como o cinema de terror, e era nele que mergulhava ao fim do dia, procurando aquele torpor de que dificilmente me libertava.
Para mim são inolvidáveis as sequências dos encontros de terror erótico com os homens-lobo; os sermões da avozinha (Angela Lansbury, a detective de idade proveta de "Crime, Disse Ela") para a neta tomar cuidado com os homens peludos e com as sobrancelhas unidas (porque alguns são também peludos por dentro); a reencenação do mito do lobisomem, que tanto me fascinava e atemorizava; as pequenas histórias dentro da história, especialmente a famosa sequência do banquete dos aristocratas transformados em lobos e porcos por uma feiticeira proscrita. O filme foi um sucesso num Fantasporto de antanho, e daí para a frente era obrigatório seguir a carreira de Neil Jordan, pontuada com mais algumas pérolas: "O jogo de lágrimas" ou "O Fim do Romance" são bons exemplos. Um tema comum (com excepção do dengoso "Michael Collins"): a recriação da paixão à luz de aparentes 'desvios' à norma (a lista é longa: a carnalidade, as lolitas, a transexualidade, o homoerotismo, o incesto, o adultério...).

Sexo, naturalmente!


É a questão que eu debato com a minha amiga desde que nos conhecemos: será a sexualidade algo imbuído de um pano de fundo biológico, como se a Natureza ditasse ela própria alguns dos nossos comportamentos, ordenando aqui para sentirmos esta atracção e não aquela, por tal respeitar uma ordem na evolução das coisas, ou será ela apenas um reflexo do social, sendo todas as nossas opções, e a própria ideia de desejo, por ele ditadas? É o velho debate entre a perspectiva essencialista (a que vamos associando Roland Barthes, a teoria das espécies de Darwin e a corrente evolucionista) e a perspectiva construtivista, onde, nas conversas acaloradas, ergo a minha barricada. Pelo meio vou pensando naquela boutade que alguém lançou (sou péssimo no respeito pela propriedade intelectual, admito): quando duas pessoas discutem, nenhuma delas deve ter razão. Na mouche coube a leitura, mesmo no dia seguinte a um serão de conversa em torno desta temática, do pequeno livro "Currículo, Género e Sexualidade", de Guacira Lopes Louro, brasileira, editado pela Porto Editora, onde a autora vai reflectindo sobre os cruzamentos entre o ensino e estas questões, de uma forma esclarecedora e fresca. Uma ajuda, quissá, para encontrar um novo rumo neste angustiante mês de definição de projecto de dissertação, uma semana depois de ter descoberto que alguém já estava a fazer o meu trabalho...

Limpezas


Tomamos, finalmente, uma verdadeiramente democrática decisão de casal, há longo tempo maturada e negociada: contratar um empregado de limpeza (digo assim, consciente da estranheza de tentar neutralizar o efeito de género - não posso dizer "mulher a dias" ou "empregada de limpeza" sem reproduzir estes estereótipos e limitar a priori o campo de possibilidades de contratação). A decisão foi difícil: custa dinheiro, e esse é talvez o primeiro ponto para um lar onde outros investimentos têm sido adiados; segundo ponto: somos os dois capazes de desempenhar as tarefas necessárias, e já o temos provado. Por outro lado, esta routine rouba-nos simplesmente demasiado tempo, o tal que sentimos necessidade urgente de investir noutras áreas, e já que time is money, porque não optar por comprar tempo?
Posto isto, quarta-feira cá teremos a Dona Fátinha, recomendada por portas amigas, a tentar provar o que é capaz de fazer com esta sujeira em quatro horitas. Boa sorte!

Buon cumpleanno!

Eu sei que é piroso, mas cada vez que olho para a minha mae, vejo uma mulher cada vez mais bonita e orgulhosa dos seus... cinquenta e oito anos! Faz-me pensar que os estereótipos de género também se combatem aqui, onde ser avó já não é uma ocupação a tempo inteiro, e ganha terreno a vontade de realização profissional e pessoal em todos os seus campos. Também por isso, parabéns mamã! ("... nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...")

Tempo irracional

Tenho andado obcecado com esta sensação de voragem progressiva do tempo, talvez um sintoma comum a todos os que estão prestes a entrar na casa dos 'intas'. É uma dinâmica psicológica que engole nela todas as memórias recentes, esticando e consolidando as mais remotas, pelo retorno recidivo e nostálgico a essa matriz do que somos feitos: a infância.

Post pout pourri


Tentando ainda acalmar o meu corpo à violência que é esta variação de ritmos - de uma Páscoa chuvosa e langorosa no Alentejo para a súbita e constante urgência dos compromissos profissionais e académicos - vou utilizando várias estratégias, que passam por reclamar cá em casa o meu quinhão de carinhos, por pôr em dia a quilometragem das sapatilhas no piso húmido do Parque da Cidade, ou por rodar com força no sentido dos ponteiros do relógio o leitor audio do carro, para ouvir e encenar pérolas como Kate Bush, essa prodigiosa feiticeira das quatro escalas, tão intensamente eighty como anacronicamente bela (só eu é que me lembro da Babooshka?).
Nos entretantos, os prazos para a entrega dos trabalhos da escolinha vão apertando, e todos os outros compromissos se vão proporcionalmente revestindo de maior interesse. Um exemplo? O camião da campanha "Pela diversidade, contra a descriminação", iniciativa da União Europeia, que vai assentar arraiais no Porto no dia 2 de Abril, entre as 11 e as 19h, na Praça Parada Leitão.





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