Spike e as lésbicas


Ontem, embora com alguma renitência pessoal, por saber que me estou a baldar a outros compromissos mas também pouco entusiasmado por causa das críticas, fui ver o novo filme do Spike Lee, um dos meus realizadores americanos preferidos. Tinha lido que "Ela odeia-me" fazia parte de um conjunto de obras estreadas mesmo antes das últimas eleições presidenciais e que, como tal, trazia consigo uma grande militância anti-Bush, que se percebe desde o genérico inicial, mas que se transforma ao longo do filme numa espécie de vontade de abanar consciências. E tanto assim é que acaba por se misturar no mesmo caldo uma miscelânia de tópicos, o que na minha opinião deita o filme a perder. Ainda assim vale a pena, sobretudo pela primeira hora, ao melhor estilo de Lee, febril e ambígua, a abrir portas a todos os cenários narrativos possíveis. Infelizmente, nunca apreciei desenlaces de tribunal. Soa-me sempre a recurso dramatúrgico simplista, como se um deus ex-maquina decidisse pôr cobro à confusão que reina entre os seus personagens, o que só lhes retira agência e os reposiciona sob um novo equilíbrio para apaziguar o olhar social. O paradoxo é que Lee explora de forma provocadora o que tem vindo a mostrar sempre na sua obra, e que é sempre confundido com o seu contrário: o questionamento das identidades culturais, sexuais, étnicas ou nacionais, acrescentando ainda, neste caso, o da orientação sexual (de uma forma arrojada e também militante). E que melhor lugar para descobrir os interstícios e defender a mestiçagem do que montado a galope nos estereótipos?

PS: curiosamente, esta cena com a curvilínea Monica Bellucci não aparece na versão a que assisti. Terão os europeus receio de ver assim a imagem da herdeira da linhagem de divas italianas?.

"Centenas deixam escola cedo de mais"

Recordo-me como se fosse hoje. Tinha 13/14 anos quando me deparei de muito perto com a realidade do abandono escolar. Um colega nosso de turma é obrigado a abandonar a escola porque o pai morre, e há uma família para sustentar. Soubemos disso no recreio e ficámos muito tristes. Lembro-me de o vermos a sair da escola, de o acompanharmos ao longo das grades que nos separavam da rua, de nos despedirmos e de o vermos a desaparecer na esquina seguinte. Nunca mais o vi. Não era um aluno exemplar mas lá ia conseguindo passar de ano. Era muito brincalhão e por isso gostavamos muito dele.
Não sei porquê mas penso nele com alguma frequência. Para onde foi trabalhar? Voltou a estudar? Será que já fez processo lá no centro onde o Major Tom trabalha? Será que resistiu à liberdade ilusória do álcool e das drogas? Será que é feliz?

O castelo de Miyazaki


Admito que me aconteceu: acordei a meio da noite, naquele limbo a que os italianos chamam 'dormiveglia', entre cá e lá, e parecia não ter saído ainda daquele cenário para onde o japonês maravilha Hayao Miyaisaki me transportou assim que entrei naquela sala do cinema Passos Manuel. Quando saí, tinha-me assaltado essa incerteza: estaria ainda na mesma dimensão? Seria aquela ainda a mesma cidade por onde eu tinha passado duas horas antes? Inseguro, lá fui percorrendo as ruas até chegar a casa, esperando em cada esquina cruzar-me com mais um ser fantástico ou com uma menina de olhos gigantes, à procura do seu destino. Esta realidade já não me convence. Eu também quero viajar dentro da magia do castelo andante.

Direito ao trabalho

Hoje a reunião matinal foi inteiramente dedicada a questões laborais. Onde trabalho, com a óbvia excepção da chefia, todos estamos a recibos verdes. Afinal, que nos interessa a nós que se cumpram metas anuais, pelas quais nos desunhamos, puxando pelos adultos, escrevendo relatórios, fazendo formação, ouvindo e aturando, aconselhando, viajando, reformulando textos, inventando trinta por uma linha, tudo isto quando nunca ninguém mostra o mínimo sinal de preocupação connosco? Realmente é um sinal dos tempos. Não estou a ver a geração dos meus pais a viver esta situação. A minha colega diz que se sente perseguida, o que é, convenhamos, manifestamente diferente de se sentir desprezado ou humilhado, como eu tantas vezes me sinto. Implica uma coerção e uma vexação, processos a que talvez nos tenhamos vergado numa altura em que realmente o que nos interessava era pôr mãos à obra, e aos quais nos acomodamos, sempre observados de perto por quem poderia retirar os maiores dividendos e os louros pela nossa própria estafa. Assim não dá mais! Para quando um sindicato nacional dos trabalhadores independentes?

Agora a vida, outra vez

Após longos meses de espera e ansiedade, quinta-feira foi o último dia de trabalho da minha mãe. Sexta-feira, oficialmente, já era reformada. Novamente a sensação de ciclo concluído e de entrada numa nova etapa. Seguramente uma sensação bem mais forte para ela, que a está a viver. Não consigo evitar pensar o que faria no lugar dela, as muitas liberdades a que teria acesso, mas também o receio de deixar de sentir que tenho um papel, um lugar na orgânica social. Pelo que tenho acompanhado, não me parece que ela tenha preparado o momento. Presumo que terá pensado que as coisas se vão desenrolar por si. Tenho dificuldade em encaixar esta postura, talvez por ser um maníaco do controle e da antecipação. Não gosto que os acontecimentos me ultrapassem, sou como que um jogador que gosta de ter os trunfos na mão, prevendo cartadas por antecipação. Mas esse sou eu e não quero projectar isso em ninguém, sobretudo em quem me é próximo. Apenas espero que este dia, que é o primeiro do resto da tua vida, seja cheio do coisas boas.

Vícios a(u)ditivos



Silêncio


Com um convite na mão, lá fomos à abertura do Festival do Cinema Francês, versão Invicta, para assistir em primeira mão ao último filme do Alain Courneau ("Todas as manhãs do mundo" pode ser uma referência). "Les mots bleus", uma pequena peça com poucos personagens e ainda menos diálogos, centra-se na relação de uma filha que nunca falou, apesar de não ter sido identificada nenhuma deficiência, e a sua mãe, que nunca aprendeu a ler. Pelo meio um homem emocionalmente incapaz e melancólico, tenta quebrar o circuito fechado da comunicação entre ambas e o que era previsível acontece: um dilúvio de emoções. Recordei-me com nostalgia de um outro tempo em que os medos eram maiores, mas em que me bastavam poucas palavras, e em que esse racionamento verbal podia facilmente ser compensado com um outro enorme e expressivo silêncio, onde os gestos vibravam e todos os olhares ecoavam com mais força. De onde nos chega esta necessidade de falar sempre mais do que é preciso?

Ser cientista é...


Sondado acerca do meu interesse em colaborar num projecto de investigação sobre delinquência juvenil (whatever that is), não fui capaz de esconder a minha insegurança em relação às minhas capacidades como pesquisador. Trata-se de uma incapacidade recidiva de auto-definição como profissional. De repente passam quatro anos sobre a licenciatura, da qual saí com menos auto-confiança do que quando consegui a carta de condução, e eu vejo o quanto me afastei dessa parangona - 'Profissão: Sociólogo'. Já não tenho lata de atribuir todas as culpas a um curso deficitário em várias matérias. Cada vez mais me parece que o investigador já o é antes da credencial (embora considere fundamental a formação e uma certificação), ou seja, tem que possuir em si um espírito de inquirição indómito que lhe permita pasmar de cada vez que olha para a realidade, mesmo que aparente ser a mesma realidade do dia anterior (que não é). Eu sinto tudo isto. Simplesmente, a minha insegurança parece brotar bem do meio entre esta perplexidade curiosa e a capacidade para a transformar em ciência.

Histórias que não interessam ao menino Jesus


Já não me recordo que idade teria, mas terá sido seguramente já na casa dos vinte, que consegui reunir toda a coragem do mundo e fui comprar a minha primeira revista porno gay, ali em plena banca do quiosque da rua do Bonjardim. A dona era uma senhora já de idade, que permaneceu completamente indiferente ao meu batimento cardíaco e à minha mais que provável vermelhidão na cara. O pior foi depois. Nessa altura andava de mota e foi um caso bicudo para chegar a casa inteiro, tal era a ansiedade com que transportava aquela carga preciosa. Não vos vou contar o que aconteceu quando me vi na segurança do meu quarto, seria um insulto à vossa capacidade de imaginação. Permitam-me só acrescentar que estava em plena época de exames, e que portanto tinha um bom pretexto para não sair. O dado interessante no meio disto, e que relembrei em conversa com um amigo virtual, é que a visão daqueles homens fortes e belos em pleno desfrute mútuo destruía de uma só vez uma outra imagem que eu herdara da homossexualidade, a da vergonha e fraqueza, do oculto e da feminilidade, tudo o que eu engolira do regime de sexualidade em que cresci. E acredito que me tenha ajudado a levantar a cabeça. Posto isto, e porque acredito no poder subversivo do sexo: viva a libertação do porno!

Há dias assim


Não me apetece pensar no que aconteceu ontem ao país. A ideia de emigrar ainda está demasiado presente e preciso que ela se esvaneça para por os pés na terra. Já sei como é fácil desinvestir de tudo quando as coisas parecem ir contra e quero combater essa fatalidade. Neste Domingo, depois de votar, aproveitei também para dar um pulo a Serralves, que já não visitava há uns tempitos (fiquei a saber que os estudantes não pagam durante a semana, o que sempre foi uma boa notícia num dia tingido de negrume). Já há muito tempo que me intrigam dois artistas portugueses: a Helena Almeida (na imagem) e o Jorge Molder. Não sou grande conhecedor da arte plástica em geral, apenas apreciador, e por isso tenho dificuldade em perceber o que me fascina naquelas imagens. Sei que tem a ver com as elaborações em torno da identidade dos próprios autores (regra geral são auto-retratos). Às vezes acho que talvez seja essa em última instância a nossa única possibilidade, onde nos podemos aproximar mais do conhecimento ou da verdade: pensar sobre nós próprios. Depois repenso no assunto e apercebo-me que é falso, que estão sempre a acontecer coisas que o desmentem. Coisas como a ansiedade de desejar tanto ou a profunda melancolia de um dia assim.

Hedwig à presidência!


Relembrando o poderoso Wedwig and the Angry Inch, dei por mim a pensar: para quando um candidato assim para a Câmara Municipal? Hedwig é a derradeira súmula das consequências das contradições do ser humano. A história é simples: um rapazito de nome Hansel, nascido em Berlim Oriental, submete-se a uma intervenção cirúrgica para mudar de sexo e casar com um americano por quem se apaixona, ultrapassando desta forma o Muro da Liberdade. Mais tarde descobre que a operação foi mal sucedida (deixando-a com o tal angry inch) e que o namorado a traiu, o que a deixa num estado de desespero. Decide então formar uma banda rock e tentar encontrar a origem do amor. Inclassificável e decadente, até na margem parece ser incapaz de erguer o seu frágil estatuto de diva irreverente. Ou seja, um currículo bem mais interessante do que a maioria dos nossos candidatos para o próximo Domingo. E também um dos personagens mais queridos e eloquentes que surgiram no cinema (para mim que só conheceu a versão grande ecrã, embora também espalhe o seu charme e perfume barato em teatros de segunda) nos últimos anos. O mérito é todo de John Cameron Mitchel, o seu criador, intérprete e, agora, alter ego. No site acabei por descobrir também qual o seu nome glam rock: LUNAR LOVE. Agora é só aprender uns acordes na guitarra e comprar umas perucas...

Post Retrokichpop.Party

Estou como hei-de ir.

Imaginazine


Andava a fazer uma limpeza à minha listagem de links favoritos e fui dar a um site que já não me lembrava que existia. Projectos desta qualidade, ainda para mais em português e feito em Portugal, devem ser divulgados. Dêem uma espreitadela nos fólios, vejam os trabalhos que por lá andam e pode ser que tenham uma surpresa... ;)

A lógica do gengibre

De há uns tempos para cá tenho assistido a aulas de Ioga (lê-se Iôga, segundo os entendidos). O que quer dizer que, no jogo permanente entre curiosidade e repulsa, a primeira tem ganho, numa espécide de combate contra a sensação de controle excessivo que uma certa racionalidade tem exercido sobre mim. Ou seja, parece-me benéfico contrariar-me e tentar fazer exactamente o oposto do que esperam de mim. Encontrei esse antípoda no Ioga. Aqui aprendo que somos feitos de energias que circulam, sendo movidos por forças nem sempre convergentes. A ideia é procurar equilíbrios através da meditação, o que supostamente se consegue através dos nasana, exercícios que envolvem um apuro da respiração e um depuramento da condição física, devendo também passar pela alteração de hábitos, entre outros, os alimentares. Na última sessão, quando me queixava da minha renite, que me impedia de fazer aquela respiração malabarista, o instrutor, após uma conversa cheia de metáforas cujo significado, como sempre, me escapou, convidou-se a sair com ele e lá fomos comprar o ingrediente que faltava na minha dieta: gengibre. Ao olhar para aquele tubérculo desengraçado, tive que reunir todas as minhas forças para me manter sério. E consegui. E tenho utilizado, professor. Só não me obrigue, por favor, a juntar no final as mãos em forma de oração para agradecer a essa entidade cujo nome a minha falta de fé impede de fixar.

Nus masculinos


Para todos(as) aqueles(as) que gostam de ver um belo corpo masculino, a Taschen reeditou o seu livro "The Male Nude". São 576 páginas, que fazem a história da fotografia da nudez masculina desde o século XIX até aos nossos dias. E por apenas €8,99 (na FNAC), numa edição comemorativa dos 25 anos da editora. Eu já comprei!

Bailando na capital


Sempre achei que o Sol de Lisboa me drenava as energias mais depressa do que em qualquer outra cidade. Em frente a um palco atapetado com cravos, dentro de um São Luiz à pinha, claustrofóbico mas eficaz, enlevados durante cerca de duas horas pelos movimentos e vozes de duas dezenas de corpos - os magníficos de Wuperthal - senti-me impelido de nova para a vertigem das grandes emoções, daquelas que nos fazem pensar em grandes mudanças, naquela necessidade de desnascer e encetar outra estrada. Não decifro o seu trabalho com palavras, mas agora vejo Pina Bausch como uma espécie de antena que capta e retransmite sinais vitais da existência humana (até o próprio batimento cardíaco), nunca deixando de expor desejo e dor como realidades complementares do ser humano. Pensava nisso enquanto passeava pela noite do Bairro Alto e assistia a uma outra coreografia de corpos nas ruas e dentro dos bares. Terminámos a noite no Frágil, cujo nome evoca com ironia a condição em que, paulatina e inexoravelmente, repousava. A rebelião do físico fez-se sentir no dia seguinte, um Domingo langoroso entre amigas. Apeteceu-me acreditar que a vida era tão simples e infalível como o sono da pequena Francisca.

As homofobias de Daniel Borrillo


No meio dos projectos de acabar com o atraso acumulado de leitura de romances, ainda arranjei tempo (é incrível o que se consegue fazer numa ilha onde não se passa nada) para este pequeno mas muito pertinente ensaio. O autor alerta para a necessidade de combater a homofobia, que equipara a outras fobias: xenofobia, racismo ou antisemitismo. O que implica compreendê-la e descobrir as suas raízes, por um lado, e educar para a diversidade como medida de profilaxia. Avança ainda aquilo de que já me havia inteirado: que a tentativa de encontrar as causas da homossexualidade é em si mesmo uma atitude homofóbica. Passar de uma perspectiva para a outra constitui uma mudança epistemológica e política premente. Segundo Borrillo, ainda, a homofobia assume-se também como uma espécie de guardiã das fronteiras sexuais (hetero/homo), produzindo uma 'vigilância de género' (masculino/feminino), e contribuindo para que o desejo (hetero)sexual actue mais como dispositivo de reprodução social do que de reprodução biológica. Estabelece-se ainda uma distinção fundamental entre homofobia irracional, expressão mais emotiva da fobia que se traduz em medo, asco ou repulsa, e homofobia cognitiva ou social, que se articula na perfeição com a ideia liberal da tolerância. Esta última, bem familiar entre nós, resulta no facto de ninguém negar a homossexualidade ou até adoptar um atitude paternalista, sem que contudo se questione o status quo em termos de direitos efectivos. É o típico "não tenho nada contra", expressão eloquente da arrogância dos dominantes.

Um dia sem mim

Quando os U2 eram os U2, escreveram uma letra que rezava logo no início: "I'm starting a landslide in my ego" e que terminava com "a day without me". Parece-me fantástica esta ideia de podermos continuar a existir, mas sem toda esta tralha que arrastamos diariamente. Inventar outra pessoa, desconhecida para o mundo, e interagir com esse novo material humano e intelectual, de uma forma não viciada e cristalizada. Poder sentir novamente supresas e provocar estragos, forjar uma nova identidade e deixar de me sentir sempre, invariavalmente, eu. E sobretudo, deixar de ser administrador do condomínio e receber diariamente as queixas tacanhas dos meus vizinhos de prédio...

O maravilhoso mundo de Ralf König


Desde que encontramos o primeiro exemplar, foi amor à primeira vista, como acontece frequentemente com muitas das suas personagens. A colecção vai aumentando a cada visita ao burgo espanhol, até porque lá têm toda a obra traduzida (também existe tradução noutras línguas, para quando em português?), e felizmente o alegre alemão tem uma produção prolífica. As histórias parecem sempre muito próximas de nós, e na verdade podiam retratar qualquer lugar. Para além disso, também as referências ao universo LGBT podem ser transportadas sem mossa para qualquer país ocidental, o que torna este tipo de humor praticamente universal. Para além do interesse de retratar vivências do quotidiano de homossexuais, abordando questões como a afectividade, a sexualidade, a homofobia, os novos modelos familiares ou a SIDA, é desarmante a forma como o faz sem qualquer tipo de censura ou juízo moralizante, ainda que tomando posições críticas e abertamente políticas. Para ler sem preconceitos, e recomendável a apreciadores de banda desenhada de qualquer orientação sexual.

Mosteiro de Tibães - Braga

Efeito Chueca


Em período de campanha eleitoral autárquica, ainda não ouvi ou li uma única palavra que se referisse à temática LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero), ressalvando contudo o meu relativo alheamento e desinteresse. Num primeiro relance, dificilmente se fará a associação entre o papel de uma autarquia e estas questões. Contudo, ao tomar notas para um debate promovido pelo Bloco de Esquerda, que não chegou a acontecer, realizei algumas possíveis consequências dessa relação (em parte resultantes de uma interpelação da associação em que colaboro aos partidos candidatos no Porto): primeiro aspecto – a criação de um espaço de apoio e orientação LGBT, à semelhança do Centro Comunitário Gay e Lésbico de Lisboa e de muitos outros espalhados por essa Europa fora, segundo a matriz norte-americana; segundo – uma intervenção no sentido da articulação das respostas sociais a nível local às vítimas de homofobia; terceiro - a monitorização do registo e da aplicação das uniões de facto, a começar pelo próprio corpo de funcionários; quarto - a promoção de uma imagem positiva e gayfriendly da cidade, através da inclusão de informação LGBT nos postos de turismo e nas campanhas de promoção no exterior; quinto - o apoio a iniciativas culturais e de sensibilização LGBT, tais como exposições, debates, ciclos de cinema ou outros eventos; sexto - a promoção de iniciativas de educação sexual nas escolas do primeiro ciclo e de formação dos professores para a diversidade. Isto seria apenas numa reflexão inicial. No debate que não chegou a acontecer, cujo tema seria “Activismo LGBT e a cidade”, penso que seria importante também sublinhar a necessidade da esquerda provar que realmente valoriza o efeito diferenciador dos critérios culturais e identitários, incluindo o da identidade de género ou a orientação sexual, no binómio inclusão/exclusão, ao mesmo nível que sempre colocou o critério económico ou social. Só assim poderá conquistar a credibilidade e confiança que parece ter logrado, por exemplo, junto de nuestros hermanos. Ou serão apenas impressões pessoais resultantes da recente passagem na madrilena e tão acolhedora Chueca?

O piano de Sassetti


Com Miss B. tenho desenvolvido o hábito, desde há uma boa dezena de anos (meu Deus, há quantos nos conhecemos?) de me arrepiar com uma meia dúzia de canções. Geralmente o estilo é jazz. Apesar de me rir num canto cá dentro, não consigo deixar de sentir calafrios cada vez que ouço 'Laura' pela Jeane Lee, o Chet Baker com 'You don't know what love is' ou aquela versão do Kurt Weill pela Betty Carter. A última experiência tem sido todo o álbum 'Nocturno' do Bernardo Sassetti. À noite, com as luzes apagadas, parece-me sentir aquele piano mesmo atrás do sofá, entre a mesa e a janela, a explicar-me como é que me hei-de reconciliar com o fim de mais um dia.

Middlesex


Se uma imagem pode valer por mil palavras, ainda assim eram necessárias umas quantas para traduzir as 521 páginas de Middlesex, um daqueles calhamaços que eu só me atrevo a ler nas férias, apenas porque eu sou teimoso e gosto de levar as coisas até ao fim (tenho uma meta pessoal: se leio até à página 70, tenho que ler o livro todo) e porque coisas deste tamanho não se conseguem ler deitados na cama, a não ser que queiramos torcer os pulsos. Para mais, a Dom Quixote preparou uma edição que é um regalo para a vista, e fica sempre bem passeá-la pelas praias das baleares. O que está lá dentro: bem, cada um encontrará coisas diferentes, presumo, porque numa odisseia destas temos espaço para escolher o nosso protagonista e a época que mais nos atrai (a narrativa estende-se quase durante um século e algumas gerações). Para quem, como eu, se interessa pelas complexidades e quebra-cabeças da identidade sexual, é altamente recomendável, embora o livro me pareça quebrar só um bocadinho o interesse no desenlace final, precisamente quando se expõe a ambiguidade do personagem principal, que é também o narrador omnisciente. Nevertheless, Jeffrey Eugenides é para seguir com muita atenção. Pessoalmente, não encontrei um único parágrafo que lido independentemente deixasse de ter interesse literário, o que, tendo em conta a envergadura do que estamos a falar, lhe reconhece mais talento do que algumas gerações de escritores conseguem reunir. Também lhe agradeço ter-me relembrado que, numa fase inicial de gestação, qualquer feto possui gónadas que só mais tarde assumirão caracteres sexuais masculinos ou femininos. Enquanto esse momento não chega, até nesse derradeiro baluarte biológico somos idênticos.

Formentera Blue


E este azul que não me sai da cabeça! Dou por mim a trabalhar em frente ao computador e começo a pensar na cor daquele mar, no odor dos pinheiros, no som das rodas da bicicleta... Alguém me tinha avisado que conhecer Formentera era perigoso e parece que tinham razão... (antes da partida nós avisamos que iriamos falar destas férias até à nausea!)

Formentera em imagens

Formentera em palavras

A partir do momento em que partimos de Formentera, no exacto segundo em que o barco recolhe a âncora e se levanta a ponte do cais, já toda a ilha é um acontecimento pronto a escoar lentamente, como uma ampulheta, da nossa memória. A cada dia que passa, desaparece mais um recanto do fundo do mar ou uma peça de decoração da casa. Com o tempo, paisagens e divisões inteiras serão sugadas na voragem do esquecimento. Ficará, se calhar, apenas uma impressão geral da ilha como um pedaço de terra que não pertence ali, e que levantaria voo não fossem o peso das pessoas e das bicicletas ou as raízes das figueiras, que pelo tamanho devem estar agarradas ao subsolo do mundo. Talvez também fique aquele barulho que o mar calmo faz ao bater nas concavidades das rochas, que se assemelha estranhamento ao riso contido dos amigos quando se apercebem que alguma coisa pateta aconteceu a um deles. O resto será incógnita, como a impressão de que os seres marítimos se familiarizavam paulatinamente connosco, chegando a ficar assustadoramente calmos, como se aguardassem resignados a chegada de um tsunami; ou a imagem da minhoca luminosa que os faróis das nossas bicicletas desenhavam na estrada, à noite; ou o concerto de aniversário de um septuagenário local, venerado como se de uma antiga estrela rock exilada se tratasse. Enquanto aguardávamos no cais o derradeiro adeus, víamos chegar os últimos turistas da época estival, já sem esperança e com t’shirts a dizer ‘love stinks’. Também ouvíamos o vento de Setembro na copa das árvores, e pensávamos na possibilidade de viver uma outra vida.

Porto - Madrid - Formentera - Madrid - Porto


(mais fotos seguem dentro de momentos)

Férias, 15 dias, Planeta Ju, Matvei, Su, Mesk, a Enfermeira, Major Tom, Espanha, Madrid, Chueca, Livraria "A different life", Voar, Navegar, Formentera, Cas Rito, Praias, Mar, Peixes, Mergulhos, Sol, Dunas, Pinheiros, Muros de pedra, Figueiras, Cigarras, Praia de Migjorn, Es Caló, Bicicletas, Céu estrelado, Blue Bar, Sorrisos, Cumplicidades, Jogos de cartas, Serões, Cap de Barbaria, Lagartixas, "Sparring Partner", S' Estufador, Feira da Mola, Fonda Pepe, "La habitación de Giovanni", Ilha de S' Espalmador, Banhos de lama, Medusas, Ses Illetes, Salinas, Caminho de Sa Pujada, Melancolia, Nostalgia, Eivissa, Sabores do deserto, Setembro 2005.

Parar, por fim

As orquídeas vão de férias, finalmente, para que mais tarde possam florescer, tal como o amarelado de algumas folhas de árvore é já a promessa antecipada de um húmus que se transformará numa nova Primavera (ok, já é o delírio da partida a falar por nós...). Se realmente cumprirmos o nosso objectivo (que é ficar lá o tempo suficiente para ter vontade de voltar), daqui a quinze dias cá estaremos, a relatar de novo a fotossíntese do pensamento (pronto, foi a última bio-metáfora). Até ao nosso regresso, com a promessa de relatos de Formentera até à nausea!
Ass: Venus as a Boy e Major Tom

Antisemitismo vs homofobia



Estas são algumas das afirmações difundidas pela propaganda nazi com o objectivo de instigar o ódio pelos judeus nas sociedades dos anos 30:

"Os judeus correspondem a 1% do total da população, controlam a política, têm melhores empregos e ganham mais dinheiro, espalham doenças como ratos, são responsáveis pelas maioria dos crimes, são prevertidos e doentes e violam os mandamentos da bíblia."

Estas são algumas das afirmações que são proferidas nos dias de hoje por inúmeras igrejas, políticos de direita, órgãos de informação e responsáveis por vários grupos sociais contra os gays:

"Os homossexuais são uma minoria social, possuem um forte lobby político, controlam os media, possuem bons empregos e ganham acima da média, são responsáveis pela difusão do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis, cometem 1/3 dos abusos sexuais contra crianças, têm um estilo de vida anormal, e à luz da bíblia cometem um pecado mortal."

Qualquer semelhança NÃO é pura coincidência! Dá para pensar...

Para mais informações clica aqui (via R&V).

Os recém-amigos


O recém-amigo é aquele que acabaste de conhecer num bar porque tinham um conhecido em comum, ou que apareceu para jantar porque namora com alguém, e por quem sentes uma afinidade súbita, que te impede de descansar enquanto não souberes absolutamente tudo o que precisas de saber sobre ele, e que te inflama a vontade de te dar a conhecer como um novo eu, todo fresco, novo e supreendente. As palavras são o poderoso combustível desse encontro, mas gestos e olhares também são benvindos, sobretudo se implicarem uma espécie de cumplicidade, do tipo: "tu sim, sabes o que eu quero dizer". As pontes são intermináveis: gostam das mesmas bandas, dos mesmos livros, possuem idiossincracias em comum, como gostar do Homem-Aranha, saber o nome de realizadores obscuros ou ser incapaz de memorizar um número de telefone. As diferenças de repente já nem te parecem assim tão fáceis de definir, ao ponto de seres capaz de apoiar fervorosamente uma coisa que ainda no dia anterior atacaste com a mesma ferocidade com outra pessoa. Naquele instante, o mundo, com todos os seus problemas e complexidades, torna-se intelegível, mas apenas por estes dois olhares, o teu e o dele. Ainda não sabem se aquilo vai dar em amizade, mas pensam e agem como se fossem a reincarnação de entidades que se contactaram noutra vida e que não tiveram tempo de acabar a conversa.





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