Comes, bebes, ouves e vês

Os bons serões fazem-se com alguma iniciativa. Conhecer a cidade é um acto básico de curiosidade e de fuga à melancolia. Um jantarito bem regado na marginal sul do Douro pode bem ser seguido de uma excursão ao Hot Five, um bar de jazz ao vivo na zona dos Guindais, já do lado esquerdo da Ponte D.Luís, no Porto. Aí podemos relembrar como esta música é uma expressão pulsional e envolvente, e de como podemos regressar-lhe como a uma bebida regeneradora. Para regalar a vista, também temos à porta uma exposição do Georges Dussaud, cujas fotos fazem tão parte de uma minha etapa que me sinto incapaz de as qualificar esteticamente.
Orgulho no Porto
"Nem menos, nem mais: direitos iguais!"
"Sim, sim, sim, somos assim!"
"Onde estão? Não se vê! Os direitos LGBT!"
"Eu amo quem quiser, seja homem ou mulher, ou outra coisa qualquer!"
"Trans é natural, transfobia é fatal!"
"Nós somos família, sabemos amar. Filhos já fazemos, queremos adoptar!"
Foi ao som destas palavras de ordem, no meio de muita cor e de algumas centenas de pessoas, que participei pela primeira vez numa marcha gay. Várias razões impediram-me de participar nas várias edições em Lisboa, em Madrid ou até no Porto. Estou contente pela minha estreia ter sido na "minha" cidade! Ou muito me engano ou a marcha cá no Porto veio para ficar.
Porto com pluma é Porto cidadão!

É já amanhã (sábado) a 2.ª Marcha de Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero no Porto, e é para levar muita garra tripeira! A concentração é às 15h30 na Praça da República. Mais informações aqui.
O mosaico de Fjærland (by Venus)

Livros, água, montanhas, glaciares, livros, Miss Glaciar, bicicletas, posto de turismo/alfarrabista, bokbyen, Bøyabreen, livros, Supphellebreen, Hotel Mundal, caminhadas, suor, vacas, ovelhas, flores, livros, silêncio, bosques, nuvens, gelo, quedas de água, barcos, ausência de noite.
Algures na La Drôme...

L´Homme de Sa Vie foi uma verdadeira surpresa. É um filme sereno, onde se sente nos cabelos a brisa quente de verão, onde se mergulha nas águas frescas do ribeiro, se escutam os risos e brincadeiras das crianças, onde se observam os complicados e tão sedutores passos do tango e, entretanto, dois homens se vão apaixonando um pelo o outro. Sem dúvida, é o meu "filme de verão" deste ano!
« parlez-moi d’moi
y a que ça qui m’intéresse,
parlez moi d’moi
y a que ça qui me donne d’l’émoi.
De mes amours, mes humeurs, mes tendresses, de mes retours,
mes fureurs, mes faiblesses, parlez moi d’ moi… »
Etiquetas: cinema
Publicado por Venus as a boy - segunda-feira, julho 02, 2007 à(s) 22:19 0 comentáriosOrgulho em Madrid
Domingo de manhã em Madrid. Deixei o hotel para encontrar uma cidade fantasma e semi-embriagada. No dia anterior, a convocatória para o Europride chamara às ruas um milhão e meio de pessoas. Muita pluma e convicção, política e alegria de mãos dadas, uma grande nação LGBT. "Então que fazes na vida?", ouvi um homem dizer a outro, ambos abraçados a caminhar pela avenida da grande urbe. Ainda se ouviam tambores e já chegara a hora dos respigadores que Agnés Varda tão bem retratara, a recolher beatas e restos de álcool em garrafas abandonadas. Desci para o Metro e fechei os olhos para rever a imagem de dois outros homens na marcha, com uma criança que passava do colo aos ombros, mimada com cremes solares, iogurtes, bolachas e carícias no cabelo. Revi outros beijos e gritos de revolta, nesse grande rio de gente que desaguou na Plaza de España. O avião devolveu-me melancólico ao Porto e ao reinício dos trabalhos.
O mosaico de Bergen (by Venus)

Jardins, sol, calor, Bryggen, morangos, gatos, Mariakirken, Håkonshallen, Mercado do peixe de Torget, flores, casas de madeira, mar, Nordnes, Strangehagen, Amunds Appartement, U.S.F., Fløibanen, Monte Fløyen, lagos, trolls, bosques, Edvard Grieg, Troldhaugen, Gudbrandsdalsost, Freia, Bergen Museum.
Pop Surprise
Desculpem, mas este mês estou apaixonado pelos Depeche Mode.
Etiquetas: música maestro
Publicado por Major Tom - sexta-feira, junho 29, 2007 à(s) 03:55 5 comentáriosLetras na Escandinávia #2

Tendo só carregado dois livros na mala, cedo chegou a altura de fazer outras aquisições. Infelizmente, esquecemo-nos de um pormenor importante: não sabemos ler em norueguês. Assim, ficamos condicionados à oferta em inglês. Isso, numa pequena localidade que é conhecida como a Bokbye (a cidade dos livros) norueguesa, acabou por ser um convite à exploração de corredores e corredores de prateleiras cheias de supresas (e mofo). "The time machine", do cientista e escritor H.G.Wells, foi um bom par de horas bem passadas, mergulhadas naquelas ficções futuristas de final do século XIX que agora nos parecem tão ingénuas como assustadoras. Seguiu-se "I was curious", que é basicamente o registo em forma de diário da preparação de um filme, escrito por um realizador, pupilo de Bergman. Finalmente, e ainda em fase final de leitura, o delicioso e altamente recomendável falso romance "Ready to catch him should he fall", que conta a história de The Boy, que conhece The Older, no The Bar, um sítio onde todos vão e que é propriedade de Madame ou Mother. Um primor de pormenores, afectivos, intelectuais e eróticos, sobre uma love story entre duas personagens que não são homens, mas toda uma espécie de homens.
Letras na Escandinávia #1

Leitura. Um dos maiores e às vezes tão inacessíveis prazeres. Nas férias coincidiram duas obras que tinham como tema principal a vida de escritores. O primeiro, "O Crepúsculo do Amor", um livro híbrido do australiano Robert Dessaix, de quem já lera "Corfu" e "Cartas de Veneza". Como esses, a escrita varia entre o registo pessoal e auto-biográfico, a literatura de viagens e a interpretação literária. Simpático e arejado. Deu para relembrar Paris e ficar curioso com o personagem versado, o russo Turguéniev. Seguiu-se um Colm Tóibin, autor bastante estimado cá em casa. Desta vez, uma ficção biográfica em torno do escritor Henry James, "O Mestre". Contém imagens poderosas e é uma maravilhosa dissertação sobre a beleza e sobre o amor na sua condição mais contemplativa e destruidora.
Noruega feeling #4

Muitas viagens envolvem barco, portanto. Numa delas, que nos levou para mais uma longa caminhada na montanha, arrisquei-me a vestir calções. Arrependi-me ao fim de dois minutos e recolhi-me ao piso interior. Num salão enorme estava apenas eu e um homem de idade indecifrável, que olhava para a paisagem com um belo par de binóculos. Parecia um pouco só e era bastante obeso. Talvez simplesmente não coubesse nas cadeiras do convés.
Noruega feeling #3

Os lugares também penetram no sono. Neste dia tive um sonho bizarro. Recordo-me da imagem de uma sala de aula na faculdade, e algumas professoras cantavam "Tous les garçons e les filles de mon âge", com a versão de Françoise Hardy no fundo. A letra tinha sido substituída por complexos teoremas sociológicos. Disse o meu homem que me fartei de rir durante a noite.
Noruega feeling #2

É nas viagens que melhor reconhecemos que quem somos é feito em grande medida pelo lugar onde estamos, e pela posição particular que ocupamos nesse espaço. Não sou o mesmo agora do que quando perdido na imensidão de um fiorde, rodeado pelas suas montanhas de cumes nevosos, e arborizadas até à base, onde a água salobre e verde esconde a profundidade de um glaciar extinto. Agora sou um habitante de uma cidade costeira, banhada por um Atlântico ondulante e irregular, onde o pulsar urbano é como um feixe de luzes e sons apenas decifráveis com as experiências de uma pequena vida.
Noruega feeling #1

Havia um projecto ambicioso para descrever todo o périplo norueguês, comparando as fascinantes e dramáticas amplitudes paisagísticas dos fiordes, das florestas e de toda aquela infindável água, à minha própria paisagem emocional nas últimas semanas. Mas os projectos ambiciosos têm inimigos poderosos, geralmente interiores, que os impedem de desabrochar. Assim sendo, e porque muitas vezes as palavras também são tão completamente desnecessárias e difíceis de controlar, vou postar apenas alguns desenhos, na esperança que sejam depois complementados pelas imagens do fotógrafo oficial da viagem, que neste momento se encontra acamado por qualquer coisa do demo que comeu ou bebeu.
Orquídeas on the road
As orquídeas partem, mais uma vez, em merecidas férias. Devemos regressar logo a seguir ao solestício de Verão, cá no burgo assinalado com as festividades sanjoaninas! Divirtam-se e até breve!
As portas do Porto

E ainda há gente a trocar estas fantásticas portas de madeira e ferro forjado por alumínios, muitas das vezes tentando imitar o inimitável.
Voo
A noite passada sonhei que a vizinha do lado se tinha suicidado, simplesmente projectando-se da janela para o abismo vertical. Havia, claro, algo de angustiante nessa imagem, uma espécie de sufoco da alma que me fez acordar. Mas não consigo deixar de me sentir atraído por aquele exacto momento em que o corpo se erguia e se libertava do seu peso específico e do mundo, que ficou para trás, pousado no parapeito. É o momento em que a ilusão da liberdade ecoa com mais força, como um grande clarão subliminar e intermitente na minha cabeça.
Memórias de celulóide
La belle et la bête, de Jean Cocteau (1945)
"Os Saint-Just de pacotilha verberarão asperamente que a França envie um conto de fadas, neste momento terrível, decisivo, etc., da vida do mundo. Creio ser justo chamar a atenção para o facto de estar mais dentro da vida a fantasia de La belle et la bête que a falseada representação da vida, sobre que roseamente medra o cinema americano ou americanizante."
in Sobre Cinema, de Jorge de Sena (1988, Cinemateca Portuguesa)
"Quintal", no Porto

Já lá fui e recomendo.
Mercearia biológica, alimentos sem glúten, cosmética natural, homeopatia e naturopatia, degustação de chá, refeições ligeiras e uma esplanada fantástica rodeada de árvores e de tranquilidade. Tudo isto, bem no centro da cidade.
Rua do Rosário, 177 - Porto (em frente ao "Célia")
Tel. 222 010 008
www.quintalbioshop.com
En Soap

Um filme dinamarquês em cartaz é sempre motivo pertinente para uma ida ao cinema. Faz-me pensar que se alguma coisa boa veio com o Lars von Triers foi o ter dado alguma projecção à produção cinematográfica deste cantinho do mundo. O filme 'En soap' (traduzido para um obtuso "Sexualidades"), é a estreia na realização da também argumentista Pernille Fischer Christensen, e é uma pequena peça de câmara feita a duas vozes, femininas (questão central), dentro de um prédio indistinto de um subúrbio que podia ser de uma qualquer cidade europeia. Charlotte decide viver sozinha após 4 anos de matrimónio entediante, mas o apartamento desarrumado e as caixas que guardam ainda os seus haveres revelam a sua hesitação e espelham uma agitação interior; no apartamento em baixo vive Veronica, que recebe visitas de homens seus clientes e é fã de novelas americanas (daí o título original, que se aplica também à estrutura por episódios do próprio filme), enquanto aguarda pacientemente pela operação de transição de sexo. Algumas circunstâncias vão permitir a sua aproximação, num agitado duelo de diálogos e corpos que as despe progressivamente dos papeis que desempenham perante os outros, revelando as verdades que ocultavam até de si próprias (e esta é a verdadeira especialidade do cinema nórdico, se nos lembrarmos de Bergman). A novidade surge na abordagem, sobretudo pela forma como os personagens são confrontados com os seus preconceitos e nos 'transportam' para uma reflexão interessante, reveladora do zeitgeist do modo como a solidão, a intimidade e a sexualidade moldam (aprisionam e expandem) a nossa identidade neste início de milénio.
"Sexy boy"
Ultimamente dou por mim a cantar esta música, enquanto caminho na rua ou apanho o Metro. Começo a imaginar-me como fazendo parte do teledisco e as pessoas que me rodeiam como figurantes. Há músicas que aparecem sem nenhuma razão aparente na nossa cabeça e é mesmo difícil tirá-las cá de dentro...
Eu e a piscina
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- Era uma entrada para os banhos livres, se faz favor.
Quase nem preciso de dizer, quando chego ao balcão já estão a olhar para mim de esguelha e começam logo a aviar o bilhete, e até imagino o que pensam ("lá vem o chato que reclama sempre de alguma coisa, ou é a música que está sempre a tocar e alto mesmo quando não há aulas, ou são as casas de banho que não têm condições, ou são as ligações eléctricas perigosas à beira dos duches...").
Desta vez contudo, a mulher olha pensativa para o ar, e retira-se por um segundo. A música ambiente, bem para lá do volume necessário (que devia ser nenhum), era uma daquelas canções dor de corno com sotaque brasileiro. De repente, um silêncio. E então, out of nowhere... a voz de Gloria Gaynor: "First I was afraid, I was petrified (...) I will survive!"
Fique a pensar no assunto. Seria propositado? Um sub-texto qualquer que me revelava uma densidade inesperada na mente da senhora do guichet? Peguei na chave e fui procurar o meu cacifo. E não, lá dentro não estava uma equipa de pólo aquático com olhar insinuante de quem tinha saído do último musical da Esther Williams e prestes a entrar no chuveiro. Apenas um senhor de tenra idade, com o semblante de quem se conformou aos diagnósticos médicos, a lutar contra duas peúgas mais resilientes.
Turista cá dentro

Como é bom sermos turistas na nossa cidade! Já andava com saudades de caminhar pela "minha" e descobrir as vielas, ruelas e pracinhas que, no dia-a-dia, passam-nos ao lado. Como é possível deixarmos escapar estes encantos? São estes pormenores que fazem todas as cidades serem únicas.
Várias passeios seguirão, assim o tempo ajude. Prometo fazer novos relatos fotográficos.





