Voo

A noite passada sonhei que a vizinha do lado se tinha suicidado, simplesmente projectando-se da janela para o abismo vertical. Havia, claro, algo de angustiante nessa imagem, uma espécie de sufoco da alma que me fez acordar. Mas não consigo deixar de me sentir atraído por aquele exacto momento em que o corpo se erguia e se libertava do seu peso específico e do mundo, que ficou para trás, pousado no parapeito. É o momento em que a ilusão da liberdade ecoa com mais força, como um grande clarão subliminar e intermitente na minha cabeça.

Personagens à procura de uma história #7 (variações)





Memórias de celulóide


La belle et la bête, de Jean Cocteau (1945)

"Os Saint-Just de pacotilha verberarão asperamente que a França envie um conto de fadas, neste momento terrível, decisivo, etc., da vida do mundo. Creio ser justo chamar a atenção para o facto de estar mais dentro da vida a fantasia de La belle et la bête que a falseada representação da vida, sobre que roseamente medra o cinema americano ou americanizante."
in Sobre Cinema, de Jorge de Sena (1988, Cinemateca Portuguesa)

Palavras para quê...

"Quintal", no Porto


Já lá fui e recomendo.
Mercearia biológica, alimentos sem glúten, cosmética natural, homeopatia e naturopatia, degustação de chá, refeições ligeiras e uma esplanada fantástica rodeada de árvores e de tranquilidade. Tudo isto, bem no centro da cidade.

Rua do Rosário, 177 - Porto (em frente ao "Célia")
Tel. 222 010 008
www.quintalbioshop.com

En Soap


Um filme dinamarquês em cartaz é sempre motivo pertinente para uma ida ao cinema. Faz-me pensar que se alguma coisa boa veio com o Lars von Triers foi o ter dado alguma projecção à produção cinematográfica deste cantinho do mundo. O filme 'En soap' (traduzido para um obtuso "Sexualidades"), é a estreia na realização da também argumentista Pernille Fischer Christensen, e é uma pequena peça de câmara feita a duas vozes, femininas (questão central), dentro de um prédio indistinto de um subúrbio que podia ser de uma qualquer cidade europeia. Charlotte decide viver sozinha após 4 anos de matrimónio entediante, mas o apartamento desarrumado e as caixas que guardam ainda os seus haveres revelam a sua hesitação e espelham uma agitação interior; no apartamento em baixo vive Veronica, que recebe visitas de homens seus clientes e é fã de novelas americanas (daí o título original, que se aplica também à estrutura por episódios do próprio filme), enquanto aguarda pacientemente pela operação de transição de sexo. Algumas circunstâncias vão permitir a sua aproximação, num agitado duelo de diálogos e corpos que as despe progressivamente dos papeis que desempenham perante os outros, revelando as verdades que ocultavam até de si próprias (e esta é a verdadeira especialidade do cinema nórdico, se nos lembrarmos de Bergman). A novidade surge na abordagem, sobretudo pela forma como os personagens são confrontados com os seus preconceitos e nos 'transportam' para uma reflexão interessante, reveladora do zeitgeist do modo como a solidão, a intimidade e a sexualidade moldam (aprisionam e expandem) a nossa identidade neste início de milénio.

Personagens à procura de uma história #6

"Sexy boy"


Ultimamente dou por mim a cantar esta música, enquanto caminho na rua ou apanho o Metro. Começo a imaginar-me como fazendo parte do teledisco e as pessoas que me rodeiam como figurantes. Há músicas que aparecem sem nenhuma razão aparente na nossa cabeça e é mesmo difícil tirá-las cá de dentro...

Eu e a piscina


- Era uma entrada para os banhos livres, se faz favor.
Quase nem preciso de dizer, quando chego ao balcão já estão a olhar para mim de esguelha e começam logo a aviar o bilhete, e até imagino o que pensam ("lá vem o chato que reclama sempre de alguma coisa, ou é a música que está sempre a tocar e alto mesmo quando não há aulas, ou são as casas de banho que não têm condições, ou são as ligações eléctricas perigosas à beira dos duches...").
Desta vez contudo, a mulher olha pensativa para o ar, e retira-se por um segundo. A música ambiente, bem para lá do volume necessário (que devia ser nenhum), era uma daquelas canções dor de corno com sotaque brasileiro. De repente, um silêncio. E então, out of nowhere... a voz de Gloria Gaynor: "First I was afraid, I was petrified (...) I will survive!"
Fique a pensar no assunto. Seria propositado? Um sub-texto qualquer que me revelava uma densidade inesperada na mente da senhora do guichet? Peguei na chave e fui procurar o meu cacifo. E não, lá dentro não estava uma equipa de pólo aquático com olhar insinuante de quem tinha saído do último musical da Esther Williams e prestes a entrar no chuveiro. Apenas um senhor de tenra idade, com o semblante de quem se conformou aos diagnósticos médicos, a lutar contra duas peúgas mais resilientes.

Turista cá dentro


Como é bom sermos turistas na nossa cidade! Já andava com saudades de caminhar pela "minha" e descobrir as vielas, ruelas e pracinhas que, no dia-a-dia, passam-nos ao lado. Como é possível deixarmos escapar estes encantos? São estes pormenores que fazem todas as cidades serem únicas.
Várias passeios seguirão, assim o tempo ajude. Prometo fazer novos relatos fotográficos.

Godard / Anna Karina #3


in Pierrot, le fou (1965)

Na casa dos sorrisos

"- Já agora, queres ver o resto do sítio?"
O sítio era uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica. No final de uma rua sem saída, batido pelo primeiro Sol de Verão, fica este casarão recuperado e ampliado com um átrio de onde se ouve a petizada numa pequena arena com saibro e os vestígios de uma relva que alguém começou. Conheci a lavandaria comum, salas de estar e corredores com uma luz arquitectónica, e depois a pequena cantina, onde ainda almoçavam algumas retardatárias com sorriso generoso. Uma delas agarra-se à minha cicerone com um abraço demorado e infantil e oferece-lhe uma maçã. Conheci também a cozinheira e o periquito (outro náufrago, entrou por uma janela e por ali ficou). Há uma pequena sala com cadeiras e um quadro, para reuniões ou sessões variadas. Contra a minha relutância, fui encaminhado para os quartos. Vivem ali 12 mulheres e 13 crianças, cuja presença justifica um pequeno exército de assistentes sociais, psicólogos e auxiliares, que amparam, encaminham e monitorizam. A reduzida lotação está preenchida. As outras, que conseguiram reunir força para chegar ali, terão que esperar que a vida lhes arranje outra forma de tomar rédea ao destino. São as refugiadas da macho-latinidade, e nos olhos sinto que estudam a minha presença. Ali já se forjaram amizades e as crianças percorrem os colos disponíveis. Prometo a uma delas, de caracóis ensarilhados, um postal que substitua a curiosidade devotada aos meus papeis. Mas já é o mundo lá fora, aquele que um dia ela vai ter que enfrentar, que me chama para outros afazeres.

Por terras de Montemor-o-Velho


Abril 2007

Olhares de Lisboa #2

Olhares de Lisboa # 1


(vista do "Adamastor")

O Reino Interdito



Lido muuuito lentamente (ao ritmo de quem tem como prioridades actuais ensaios, estudos e artigos científicos), lá conseguir terminar por fim "O Reino Interdito", um interessante romance de Rose Tremain. O reino interdito do título (na sua versão traduzida), a avaliar pela melancolia geral das histórias que se entrelaçam, é o da felicidade dos personagens. Mas há uma beleza nobre na forma como cada uma persegue o seu sonho, e não conseguimos deixar de nos enternecer pela sua luta, com um destaque especial para a história de Martin, que nasceu Mary. Fica um excerto de uma das conversas entre ele e o terapeuta a quem recorre para iniciar a transição.
"-É uma coisa que já observei na maior parte das pessoas que ajudei. Quase sempre em homens que querem tornar-se mulheres, mas também num caso como o seu. Tem a ver com o facto de permanecer sempre um pouco exterior ao mundo. Quando se vive fora de qualquer coisa, é mais fácil julgá-la com sabedoria.
- Mas eu não quero viver «fora do mundo». Foi isso o que senti toda a minha vida.
- Só por sentir-se dividida, separada de si própria, se quisermos pôr a questão nesses termos. Em breve os seus dois «eus» irão integrar-se melhor, mas o seu estatuto no mundo continuará a ser especial porque já viu o mundo sob duas perspectivas diferentes. Não preciso de lhe lembrar que isso não é possível para a maioria das pessoas."

Godard/Anna Karina #2


in Vivre sa vie (1964)

Rancière e o contemporâneo



"As desventuras contemporâneas do pensamento crítico", segunda parte do ciclo de conferências de Serralves, começou com um atraso que evocava já algumas desventuras da contemporaneidade (a greve nos aeroportos franceses impediu o ilustre orador de chegar atempadamente). Refiro-me à nossa dependência do que Giddens bem designou de sistemas periciais (essas estruturas que nos permitem voar a sete mil pés de altitude ou falar com um desconhecido em Tóquio com uma webcam, mesmo sem fazer a mínima ideia de como tal é possível).
Com Jacques Rancière, fomos introduzidos na tentativa de demonstração da possibilidade de um pensamento crítico nos dias que correm, ainda que contra os vaticínios trágicos e contra-producentes de uma esquerda melancólica, nostálgica das suas conquistas. Se os eventos que se sucederam a 1989, com o colapso da União Soviética, se traduziram no final de uma oposição entre democracia e totalitarismo, podemos agora sustentar que o ‘inimigo’ (se o entendermos como o alvo do pensamento crítico) reside no âmago das democracias liberais, que parecem querer confirmar o triunfo do capitalismo. O entendimento do que é igualdade deve lido a esta luz: trata-se aqui de uma igualdade de acesso ao consumo, e não já como a atribuição de direitos de cidadania.
O pensamento crítico pode regressar assim às suas interpretações iniciais, que lidavam com a tensão entre ideias de emancipação, tal como evocadas nas clássicas tertúlias platónicas.
Para Rancière, a democracia deve ser o exercício político dos que não tem lugar (os n’importe qui), ou seja, os que ficaram sempre de fora de uma estratificação criada pela detenção de conhecimentos, títulos ou capital no acesso à pollis.
A visão de uma contemporaneidade em que todos os conceitos duros ou ideologias se dissolveram, correspondendo a uma imagem de modernidade líquida (impermanente), retoma de certa forma o pensamento marxiano (“tudo o que é sólido se desfaz no ar”). Neste cenário, o pensamento crítico, que outrora estava ao serviço da emancipação e capacitação dos desapossados, parece agora servir apenas o empowerment de uma elite intelectual (Rancière numa tirada repleta de sentido de auto-irrisão).
Contudo, o "ódio à democracia", ou seja, o cerco montado de ataques ao conceito de democracia que questiona permanentemente a sua validade no quadro de pensamento contemporâneo, pode ser firmemente contradito por uma pressuposição básica: a da igualdade intelectual potencial das pessoas, essa capacidade de pensamento que se tem traduzido em manifestações de combate crítico (manifestações, movimentos de mobilização, etc), que são respostas cabazes aos que percepcionam o indivíduo como um receptor passivo e estupidificado pela avalanche de mensagens e estímulos visuais do mundo contemporâneo.

Postal free


Lynchiana (ou o sobrolho franzido de Laura Dern)



Já ia de pré-aviso: três horas desta bizzaria era ocasião para os mais sensíveis se prepararem para uma verdadeira trip sem aditivos. E confirma-se: em Inland Empire, Lynch está apostado em fazer-nos desaprender os cânones cinematográficos que interiorizámos, por via de uma verdadeira colonização do olhar imposta pela máquina de Hollywood e que se impôs como dominante no cinema mundial. Deste modo, quem procura a segurança de uma narrativa tradicional, de uma cronologia convencional ou mesmo a definição de espaços e de personagens de forma unidimensional... deve absolutamente ver este filme. Porque é a esses que o filme irá 'bater´de uma forma mais eficaz. Quem, como eu, procurava no filme de David Lynch, aquele outro lado subversivo e surrealista que emergia do interior de uma aparência de paz e tranquilidade (lembram-se das primeiras imagens de Blue Velvet?), e que funcionava como uma tempestade dos sentidos e uma perturbação do intelecto, não deverá encontrar aqui grande sustento. Digamos que Lynch se tornou Lynchiano: estão lá as suas obsessões (as realidades paralelas, as cortinas, as discussões sobre as virtudes do café, ou as personagens bizarras), mas é como se tudo se tornasse um espelho de si mesmo, roçando perigosamente o decorativismo nalgumas situações (um pouco incomodativo até na forma como explora o universo feminino, embora não seja uma visão machista convencional: aqui os homens também são demonizados). Para os estudiosos da semiótica, cada sequência do filme (embora seja difícil falar em sequências estanques ou autónomas) daria para um volume de ensaios: joga-se permanentemente com as ilusões do olhar e com a alteração das perspectivas (o campo nunca corresponde a um contra-campo, mas a uma posição que estava fora de campo até ali), o que é potenciado pela lógica dos filmes dentros dos filmes, num filme ele próprio sobre o cinema e as suas meta-narrativas (há nobres antecedentes, pense-se em Oito e Meio, de Fellini, ou mesmo por cá, alguns momentos da obra de Oliveira - o plano-sequência inicial de Francisca). Contudo, a esquizofrenia do enquadramento não parece corresponder a mais do que uma ideia de um realizador perdido (e deliciado com a perdição) no seu requintado e sofisticado labirinto. E tal como Fellini, o grande, deixou de o ser quando os seus filmes se tornaram fellinianos...

Fait divers pascoais

No fim-de-semana pascal, duas estreias para as orquídeas: o primeiro dia de praia (praia, mesmo, com as peles ao léu), num rápido mas regenerador périplo pela costa galega e, no regresso, a primeira vez que mudámos um pneu após um furo em plena auto-estrada (não consigo esconder algum orgulho por poder desmistificar assim um dos estereótipos 'maricas' com os quais eu me julgava mais identificado: a inaptidão para o trabalho manual).
A propósito de estereótipos, parece que as forças de (in)segurança pública da invicta andaram para aí a tentar espalhar a ideia de que a hospitalidade tripeira é só para alguns, de preferência muito machos e adeptos de futebol.
Posto isto, acho que vou fazer como as mulheres no último mês de gravidez: ter preparada uma malita com os recursos necessários para poder abalar a qualquer momento para o país de nuestros hermanos.

Godard/Anna Karina #1


in Band à part (1962)

As minhas cidades - Bologna

Em Bolonha havia uma janela da cantina universitária de onde se podia observar uma praça forrada a grafitis e palimpsestos de posters, na qual se mobilizava pelo menos uma concentração diária contra ou a favor de qualquer coisa (geralmente contra). A cidade era um concentrado de arcadas que se percorriam facilmente de lés-a-lés numa bicicleta emprestada. Dois outros sítios funcionavam contudo como pólos de atracção das minhas deambulações: o jardim Margherita, com os seus relvados que convidavam à leitura e à divagação filosófica (tinha 22 anos, apesar de tudo) e a inevitável Piazza Maggiore com o também inevitável e peculiar Duomo (o revestimento superior da catedral nunca chegou a ser concluído, dando-lhe assim um aspecto imponente mas frágil). Ao fundo, a pequena Piazza Neptuno, com a sua famosa representação da divindade marítima, lutando contra serpentes gigantes. Se as cidades têm uma cor, a de Bolonha é decididamente o vermelho das cortinas, do tijolo burro, das bandeiras e do entardecer toscano das colinas ali ao lado. Algumas torres decepadas lembravam às novas gerações o preço da ambição (no tempo dos doges, as torres simbolizavam o estatuto das famílias rivais).



Hoje, a cidade é mais um exemplo da vaidade num país que não existe, com a sua vida fora de portas nas praças, nos mercados de rua e nas cooperativas, com os seus habitantes de porte altivo e vestes impecáveis e as suas várias tradições históricas (a mais recente talvez a da esquerda racical, após os ataques das brigate rosse). Como estrangeiro, Bolonha foi também a minha primeira cidade interior, e tenho regressado com frequência aos seus cenários.

Trans-power!



Uma bela foto de Carla Antonelli, transexual activista que há 30 anos tem batalhado aqui no país vizinho pelos direitos da população 't', aqui retratada como leoa das Cortes para a capa da edição de Março da revista Zero. Este ano bem pode ter razões para estar contente, com a aprovação em Espanha da lei de identidade de género, documento que possibilita doravante que qualquer cidadão possa aceder sem obstáculos à alteração da sua identidade de género em termos formais. No nosso país, a realidade da população transexual é ainda bastante desconhecida e alvo de múltiplas descriminações e incompreensões (incluindo da parte do próprio movimento LGBT). Não existe um enquadramento legal do processo de transição identitária, pelo que o indivíduo que pretenda fazê-lo se depara com um conjunto de obrigações de procedimentos que fariam as tarefas de Hércules parecerem um simples campeonato de caricas. A ILGA publicou no início deste ano um documento que sintetiza de forma bastante clara o diagnóstico e reivindicações fundamentais para que também estes cidadãos possam ver reconhecidos os seus direitos como pessoas plenas, e desta forma combater na realidade a profunda e inadmissível discriminação de que são alvo, a prova mais irrefutável de que o regime de género (e sexualidade) dominante é uma das formas mais brutais de dominação. A hora 'h' já começou. Agora está na hora 't'!

Marramao e o contemporâneo

Impelido pela curiosidade de ouvir um filósofo de primeira linha ao vivo e a cores, e no meu dialecto preferido, fui assistir à primeira conferência do ciclo "Crítica do Contemporâneo" da Fundação de Serralves. Giacomo Marramao, o ilustre orador, veio-nos falar sobre a necessidade de repensar a modernidade, esse grande chapéu da filosofia política actual. Começou por coleccionar argumentos contra o previlégio do pensamento ocidental, construído a partir da matriz grega até à actual hegemonia norte-americana, uma ocidentalização, tão técnica como espiritual, que não deve ser confundida com a modernização (esta caracteriza-se antes pelo processo de secularização).
Para pensar a política actualmente, é preciso perceber a emergência de uma 'política universalista da diferença', sendo esta 'diferença' (no singular) uma questão de ângulo, de olhar sobre a realidade.
Avançou então com várias teses, observações e interrogações:
- a falácia da pós-modernidade ou globalização enquanto etapa oposta à anterior, quando na verdade assistimos também a continuidades e a ruptura reside essencialmente na tensão entre uniformização e diferenciação;
- o 'curto circuito do glocal': o anel intermédio entre o local e o global - o Estado-nação - encontra-se em crise (em termos qualitativos, uma vez que em termos quantitativos se assiste ainda um 'boom' de novos Estados), crise que reside no facto de esse mesmo Estado se revelar demasiado pequeno face às dinâmicas do mercado global e, por outro lado, demasiado grande face à multiplicação dos apelos e à diversidade do local; a glocalização funciona assim como uma 'tenaz' sobre os próprios Estados;
- assistimos à consolidação de um duplo modelo: o cosmopolitismo dos pobres e o simultâneo localismo dos ricos (podemos localizar no mapa-mundo as regiões mais ricas);
- os conflitos mundiais possuem uma dimensão materialista, indubitavelmente, mas eles são cada vez mais também conflitos identitários (vindo as religiões, por hipótese, ocupar o lugar deixado livre pela hegemonia do pensamento ocidental);
- incomensurabilidade e comparabilidade das culturas: sendo o relativismo cultural uma forma de olhar as culturas (e não um modelo ético), o facto de não podermos considerar um único critério de leitura da(s) realidade(s) deve impedir a sua comparação e confronto?
- a própria visão do ocidente e oriente como realidades homogéneas e opostas entre si é parte integrante de um olhar ocidental sobre o mundo (olhar que não existe no oriente), e que tenta estabelecer uma outra polarização fundamental: entre a primazia do indivíduo e a primazia da comunidade enquanto princípios de organização social.

Curiosamente, para Marramao, a filosofia volta a lidar com as mesmas interrogações da sua própria origem. Simplesmente a esfera pública já não é a dos cidadãos da pólis, mas é a dos nómadas e dos migrantes, e o espaço da política reside entre o Estado e os indivíduos. Não vivemos uma crise mas sim uma pluralização de valores, valores que cada indivíduos transporta consigo como se de múltiplas vozes se tratassem: não no sentido esquizóide, como na personagem d'"0 Exorcista", mas antes como resultado dos múltiplos encontros de culturas, definindo a singularidade individual que demarca o primeiro patamar da diferença. Para este italiano, devemos pensar numa 'ontologia da contingência', como resultado frágil mas nobre das nossas vivências (é de mim ou tudo isto é um pouco queer?).
Um debate deste género, como sublinhou, pode ser mais um exemplo do ambiente de experimentação que já fervilha nas cidades europeias, onde já se pode vislumbrar uma lógica de horizontalidade (do diálogo), que as instituições europeias (verticalizantes) não conseguem reproduzir.
Que outras conversas se sigam.

New kids on the rock

Houve um tempo em que a minha fantasia era mais musical do que erótica. Fechar os olhos era imaginar-me um guitar hero ao estilo de Jimmy Page ou vocalista a la Robert Plant (hence o cabelo comprido que me acompanhou alguns anos). O meu período favorito, para além das mais emplumadas figurações de David Bowie ou de Lou Reed, era o do rock blindado de uns Led Zeppelin ou dos Deep Purple dos primeiros anos. Mais tarde, um conjunto de empresários musicais viram nessa raíz um filão rentável e criaram-se alarvidades a que chamaram heavy metal ou hard rock, onde nunca reconheci o rendilhado e a pujança dos originais. Felizmente, algumas gerações depois, a lição continua a ser agarrada por alguns poucos mas valiosos discípulos. Com vosotros, The Raconteurs (com o meu novo herói, Jack White):

O mundo do caimão


Um amigo residente há quinze anos em Itália preveniu-me que o mais provável era o novo filme do Nani Moretti não ter grande aceitação no nosso país, em parte por conter uma abordagem política radical mas sobretudo porque lidava com uma realidade e acontecimentos especificamente italianos (o caso Berlusconi). Não poderia estar mais longe da verdade. O 'Caimão' é de uma pertinência universal, e qualquer pessoa deste país poderá estabelecer links de leitura com nosso próprio contexto: a mediatização da realidade, a mercantilização dos serviços públicos, a corrupção, o vedetismo político, e, talvez mais do que tudo, a desagregação do pensamento crítico e a letargia da esquerda, mais empenhada em conservar do que em empenhar-se numa transformação que inclua novas causas (talvez não seja por acaso que o filme inclui um casal de lésbicas). Um mundo novo precisa de um novo olhar, e o cinema de Moretti tacteia por aí, de forma inteligente, num registo muito sui generis - diria cómico-agressivo, mas o registo dramático-pessimista também está lá - que sempre foi o seu. Um arejo cerebral.

Partida, largada...fugida!

E pronto, a corrida fez-se. Não custou muito e foi divertido. A minha proverbial distracção fez-me partir largos minutos depois do tiro de largada, mas daí até apanhar o poletão e ir conquistando lugares foi um instante, num irreprimível impulso competitivo (desconhecido para mim) que me fez chegar à meta quase de rastos (ou seria o peso da companhia? - ver post anterior). Pensando bem, se participar noutras corridas vou optar por essa estratégia, sempre é melhor do que começar à frente e ir ficando para trás... O ambiente era de feira popular (até pelo homem com o megafone a debitar bitaites incompreensíveis no palanque), uma mole humana bem disposta, com crianças, idosos, cães e outras espécies sob um Sol esplendoroso. E ainda sobrou bastante tempo para acompanhar o resto da 'caminhada' da criançada, já quase em delírio de alegria. Quando é a próxima, mesmo?

Correr com o diabo


Amanhã vou estou algures no meio da multidão, para provar que pai é quem está por lá, ao lado da petizada. Quem me quiser encontrar, não terá grandes dificuldades: basta procurar o meu número de dorsal, que não teria sido melhor se fosse escolhido de propósito. Será que uma 'ajudinha' deste género é motivo de desclassificação?

Azáfama(s)

Em semanas agitadas (que se traduzem por estas bandas numa sub-postagem vergonhosa) fica sempre no ar uma acumulação de dizeres e uma dificuldade progressiva para usar da palavra escrita, sobretudo quando o registo tem sido eminentemente oral. Então cá ficam, para mais tarde recordar, os highlights da quinzena: o desafio brutal de representar uma perspectiva gay sobre o casamento e as uniões de facto num colóquio na Universidade do Minho, onde os ingredientes Braga, Igreja e Direito se combinaram num ambiente explicitamente hostil que eu julgava já não existir no meio académico; a visita bem sucedida a duas escolas secundárias para discutir a descriminação com base na orientação sexual e na identidade de género, num projecto que me enche as medidas e que concretiza uma ideia que já vem desde quando eu próprio atravessava esse deserto violento que pode ser a adolescência (é bom saber que há sonhos concretizáveis); pelo meio, uma apresentação do ponto de situação do trabalho de mestrado, perante uma audiência reduzida mas curiosa e de um questionar essencial; o início do novas turmas de candidatos à certificação via RVC , e a necessidade de trabalhar de novo as ideias de comunicação, motivação, exclusão e (talvez sobretudo) de comunidade; finalmente, ainda uma sessão de apresentação das ofertas de educação e formação de adultos, perante benificiários do RSI (Rendimento Social de Inserção), no papel ingrato e incómodo de quem representa a exigência de contrapartidas do Estado em relação áquilo que é na verdade a sua obrigação: a garantia de condições mínimas de sobrevivência social e económica a todos os seus cidadãos (obrigação frequentemente obliterada dos discursos que questionam a aplicação de medidas deste tipo, com base na pretensa má-vontade, preguiça ou incapacidade dos subsidiados).





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