Robots e gigantones

Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje. Não sei que idade tinha mas sei que durou alguns anos. o delírio era este: olhava para todo o lado e em todas as pessoas imaginava autómatos, seres fabricados numa espécie de grande fábrica vinda do fundo dos tempos. Esses robots humanos existiam, naturalmente, apenas para manter à minha volta um gigantesco mundo de aparências.
Não sei em que categoria psico-cognitiva ou psicanalítica integrariam os especialistas esta experiência, mas lembro-me perfeitamente de, a momentos, chegar a acreditar nesta fantasia. E também me recordo de pensar que precisava de reter com todas as minhas forças esta ideia, para que quando chegasse basicamente à idade que tenho hoje, continuasse ainda aquele que eu era, escapando ileso à invisível conspiração das máquinas.
Às vezes interrogo-me se no olhar das novas crianças não se esconderão outros delírios deste género, talves visões mais contemporâneas ligadas ao mundo das consolas. Ou se os nossos pais-crianças percorriam com o olhar os seus adultos, imaginando gigantones e cabeçudos disfarçados.
Pirralho sofre...


penso que isto teria a ver com períodos em que me sentiria mais deslocda , em que o mundo me parecia hostil e eu repondia-lhe assim.
se calhar não é grande coisa, este nossa ilusão infantil. provavelmente está catalogada num qualquer manual de psicologia do desenvolvimento, talvez até o piaget, quem sabe .
o certo é que estas teorias do desenvolvimento dão -nos cabo dos segredos. este de que falas era um segredo só meu, também aquele de que os meus pais não eram os meus pais verdadeiros, mas que tinha sido trocada ou abandonada e que a qualkquer momento chegariam os pais certos e eu seria feliz para sempre. depois, na fuckuldade, descobri que isto era normal (senti-me feliz) , isto é, eu era igual a todas as crianças, logo a todos os adultos. desta parte, confessso, não gostei. sempre pensei que aquilo que me passava pela cabeça não passava pela de mais ninguém. foi mais um passo da conspiração que a vida tem feito contra mim no sentido de me fazer sentir parte da massa, nem mais, nem menos. e eu odeio massas e rebanhos e raves. no fundo, como na infância, ainda me ponho no centro do mundo, só que à volta, no meu mundo de hoje, já não está o mundo todo, só um nisquinho de nada que nem por isso gira em torno de mim. será isto ser adulto?
Major Tom, o que é isto de ser adulto? vale a pena termos cá chegado? diz-me.